O nome Amazonas, que se transmitiu do rio à região e, depois, ao maior estado do Brasil, deve-se ao espanhol Francisco de Orellana, que em 1541 afirmou ter combatido uma tribo de mulheres aguerridas. Comparou-as às amazonas, guerreiras lendárias que amputavam o seio direito para melhor manejarem o arco. Cortado pela linha do equador em sua porção setentrional, o estado do Amazonas limita-se a leste com o Pará, ao norte com Roraima e a Venezuela, a oeste com a Colômbia e o Peru, e ao sul com Acre, Rondônia e Mato Grosso. É o mais extenso dos estados brasileiros, com uma área de 1.577.820km2, o que representa quase um quinto do território nacional. A capital é Manaus.
Quatro unidades compõem o quadro morfológico geral. O baixo platô arenítico, localmente chamado terra firme, por estar fora das maiores cheias, recobre, com sua vasta superfície tabular, grande parte do estado. Nele, o rio Amazonas e afluentes abriram grandes calhas, que preencheram parcialmente com seus aluviões, dando origem à segunda unidade morfológica, a planície aluvial ou várzea. Ao norte, estende-se o planalto cristalino, com uma superfície ondulada, dominada por alinhamentos montanhosos junto à fronteira venezuelana. Na maior parte, o Amazonas é constituído por terrenos sedimentares recentes (do período quaternário). Climas e solos. O clima é quente e
chuvoso, do tipo Af de Köppen. A temperatura média anual eleva-se a cerca
de 26o C e os totais pluviométricos a 2.500mm. Com exceção da região
oriental, onde se faz sentir uma nítida estação seca nos meses de julho e
agosto (clima Am), o estado recebe chuvas durante todo o transcorrer do
ano. Em virtude de serem intensamente lavados pelas chuvas, os solos de
terra-firme são em geral pobres em nutrientes minerais. Já os solos de
várzea, sujeitos a inundações, renovam-se periodicamente pela deposição de
aluviões, mantendo-se férteis. A rede de drenagem é comandada pelo Amazonas, que, juntamente com os principais afluentes, mantém curso francamente navegável até os limites do estado. Ao longo dos rios observam-se numerosos lagos, entre os quais se destacam os de Coari, Badajós, Piorini e Canaçari.
População A principal cidade do estado é Manaus, que em 1980 concentrava quase metade da população amazonense. Além de capital político-administrativa, porto internacional e centro industrial, Manaus desempenha, também, em relação ao comércio e aos serviços, as funções de capital regional para uma vasta área, que inclui, além do estado do Amazonas, o Acre e Roraima. A segunda cidade do estado é Parintins, situada na margem direita do Amazonas, próximo à divisão com o Pará; a terceira é Manacapuru; a quarta, Itacoatiara, na margem esquerda do rio e ligada a Manaus por 286km de estrada de rodagem. Todas com pouco mais de cinqüenta mil habitantes em inícios da década de 1990.
Economia Entre os recursos naturais, os de origem vegetal são os mais importantes do estado e permitem a extração de borracha, castanha, madeira, sementes oleaginosas e fibras, ainda exploradas segundo métodos primários e de maneira insuficiente. As possibilidades de extração mineral vêm-se ampliando (ferro, manganês, linhita, cassiterita, petróleo, gás). Há referências à existência de argila plástica, feldspatos e calcários, no baixo Amazonas. Os rios e lagos amazônicos são bastante piscosos, e suas florestas abrigam variada fauna, o que garante uma importante atividade no setor da caça. As atividades agrícolas desenvolvem-se nos
solos de várzea, sobretudo no trecho situado a jusante da embocadura do
Purus. A juta, o guaraná e a mandioca são os principais produtos. Em valor
de produção, as três culturas juntas superam a borracha. Em menor escala
cultivam-se também a banana, a cana-de-açúcar, o feijão e a laranja. Nos
campos de várzea criam-se bovinos. A Zona Franca de Manaus, que começou a ser implantada em 1967, ganhou maior expressão como centro industrial autônomo a partir de 1972. O empreendimento contribuiu, em especial, para o progresso de Manaus. Entre as riquezas minerais do estado
incluem-se ferro, manganês, linhita, cassiterita, petróleo e gás natural
(bacias do médio e baixo Amazonas, respectivamente com 300.000 e
100.000km2).
História Os espanhóis ainda fizeram outra incursão à Amazônia, similar à de Orellana. Pedro de Ursua, vindo do Peru, também navegou o Amazonas, sendo assassinado a meio caminho. Contudo, a expedição prosseguiu, comandada por Lopo de Aguirre, e por fim chegou ao oceano (1561). Como resultado dessa jornada os espanhóis decidiram, cientes das dificuldades de conquistar tão vasto espaço, adiar a tarefa de colonizá-lo. Quase de imediato os ingleses e os holandeses, que disputavam o domínio da América aos ibéricos, entregaram-se à exploração do Amazonas, aí lançando as primeiras bases de implantações coloniais, através do levantamento de feitorias e pequenos fortes (1596). Até o segundo decênio do século XVII, quando os portugueses começaram a ultrapassar a divisória de Tordesilhas, as companhias de Londres e Flessingen promoviam um ativo comércio de madeiras e pescado, iniciando mesmo plantios de cana, algodão e tabaco. Os próprios governos passaram a estimular abertamente a empresa. Robert Harcourt obteve carta-patente de Jaime I da Inglaterra para explorar o território do Amazonas com seus sócios (1612). A essa altura, os portugueses barravam a tentativa francesa de se instalar no Maranhão. Pensou-se de imediato em garantir a vitória, estendendo a conquista até o Amazonas, uma vez que as possessões sul-americanas estavam sob domínio conjunto da União Ibérica desde 1580. Assim é que o capitão Francisco Caldeira de Castelo Branco recebeu ordens de marchar sobre o Amazonas (1616), onde suas forças chocaram-se contra os ingleses e os holandeses ali estabelecidos. Os combates prolongaram-se até meados do século, quando foi destruída a última posição holandesa na área do atual Amapá. Ao término da União Ibérica (1640) a soberania lusitana estava garantida no Pará, porquanto os espanhóis haviam delegado aos portugueses a tarefa de ocupação do vale amazônico. Uma grande expedição de mais de duas mil pessoas, comandada por Pedro Teixeira, já avançara em direção oeste. Em seus dois anos de jornada (1637-1639), atingira Quito e retornara a Belém, após ter fundado o povoado de Franciscana em território peruano, que, mais tarde, serviria de marco nas discussões de limites no Tratado de Madri (1750). Afinal, o bandeirante Antônio Raposo Tavares chegou ao Guaporé, subindo o rio Paraguai, e percorreu a região vizinha aos Andes, de onde alcançou e desceu o Amazonas (1648-1652). Nessa época a Espanha já perdera em definitivo a entrada da bacia amazônica, limitando-se a controlar os pontos de acesso ao Peru nos territórios do rio Marañon, do Guaporé-Mamoré e em trechos do alto Negro. Os portugueses, ao contrário, tomaram a iniciativa de inúmeras arremetidas de conquista nos cursos dos rios Negro, Solimões e Branco, apossando-se formalmente da região em nome de sua coroa. Presença dos missionários. Na virada
do século XVII o domínio português balizava-se na Amazônia pelo posto
avançado de Franciscana, a oeste, e por fortificações em Guaporé, ao
norte. Os franceses, instalados em Caiena, pretendiam descer o litoral
para alcançar o Amazonas, instigando surtidas constantes de sacerdotes,
pescadores e predadores de índios. Ao mesmo tempo, as expedições lusas de
reconhecimento enfrentavam grandes dificuldades na atual região do
Amazonas: no rio Negro, os manaus, coligados com tribos vizinhas, e os
torás, na bacia do Madeira, entregavam-se a guerra de morte contra
sertanistas e coletores de especiarias. A obra a que se deviam entregar os religiosos estava compreendida no chamado Regimento das Missões (1686). Incluía, afora a conversão católica dos gentios, sua incorporação ao domínio político da coroa mediante o aprendizado da língua portuguesa, a organização das tribos em núcleos de caráter urbano e, sobretudo, o aproveitamento racionalizado de sua força de trabalho em atividades extrativas e agrícolas. Regulada a divisão do território entre as ordens, por meio de cartas régias (1687-1714), vários grupos de religiosos iniciaram a tarefa sistemática de colonização, espalhando suas missões num raio de milhares de quilômetros pelo vale amazônico. Foram os carmelitas, acompanhados de perto pelos inacianos e mercedários, que mais aprofundaram a colonização nos antigos domínios espanhóis, ocupando a área atual do estado do Amazonas. As missões jesuíticas espalharam-se pelo vale contíguo do Tapajós e, mais a oeste, pelo do Madeira, enquanto os mercedários se estabeleceram próximo à divisa com o Pará, nos cursos do Urubu e do Uatumã. Os carmelitas disseminaram seus aldeamentos ao longo do Solimões, do Negro e, ao norte, do Branco, no atual estado de Roraima. Assim distribuídas, as missões entregaram-se a diligente trabalho de exploração econômica em suas circunscrições. A própria metrópole incentivou tal empreendimento, uma vez que perdera seu império asiático e necessitava dar continuidade ao comércio de especiarias, de que o Amazonas se mostrava muito rico. Os religiosos corresponderam de imediato a essa solicitação, iniciando as primeiras atividades extrativas de vulto. Firmou-se, dessa maneira, a exportação regular de cravo, cacau, baunilha, canela, resinas aromáticas e plantas medicinais, toda ela sob o controle dos missionários, que dispunham do indígena como mão-de-obra altamente produtiva. No empenho de converter os gentios à fé
católica e de ampliar o comércio de especiarias, ou "drogas do sertão", os
religiosos com freqüência transferiam suas missões de um ponto a outro,
seguindo sempre a margem dos rios. Da multiplicidade desses aldeamentos
surgiram dezenas de povoados, a exemplo de Cametá, no deságüe do
Tocantins; Airão, Carvoeiro, Moura e Barcelos, no rio Negro; Santarém, na
foz do Tapajós; Faro, no rio Nhamundã; Borba, no rio Madeira; Tefé, São
Paulo de Olivença e Coari, no Solimões; e em continuação, no curso do
Amazonas, Itacoatiara e Silves. Desvendavam-se os caminhos, reconhecia-se o espaço em que se davam operações econômicas de vulto, e facilitavam-se as comunicações pelo interior. A expansão portuguesa, dessa forma, implantava-se cada vez mais firme no oeste, em toda a extensão longitudinal além do limite do Tratado de Tordesilhas, já letra morta em inícios do século XVII. No Rio Negro, entretanto, a oposição indígena era violenta. Em 1639, o sargento Guilherme Valente, para vencer o obstáculo, passou a viver maritalmente com a filha de um chefe manau. Ajuricaba, outro chefe manau, não aceitou a situação e passou a liderar o combate aos invasores. Levantou o vale todo e sagrou-se o herói amazonense, lutando até cair prisioneiro dos portugueses. Buscando detratá-lo, os traficantes de escravos acusaram-no de estar a serviço dos holandeses de Suriname. Preferindo a morte ao opróbio de uma condenação pelos brancos, Ajuricaba suicidou-se na baía de Boioçu, depois de tentar a insurreição dos que com ele desciam presos. Criou-se então uma lenda indígena segundo a qual, quando as águas da baía se encapelam, estariam exteriorizando o desespero de Ajuricaba em seu afã de libertar a raça. Nos anos seguintes, intensificaram-se as atividades espanholas e francesas na região. Para melhor defender a posse lusitana no Amazonas, o capitão Francisco da Mota Falcão fundou em 1669 o forte de São José do Rio Negro. Mais de cinqüenta anos depois, quando floresciam as missões naquela área, Francisco de Melo Palheta, incumbido de subir o Amazonas, alcançou Santa Cruz de Cajuava, localidade próxima a Santa Cruz de la Sierra (1722-1723). A seguir, as autoridades resolveram fechar à navegação o rio Madeira (1732), numa época em que a colonização de Mato Grosso atingia seu auge. A proibição, no entanto, não impediu que Manuel Félix de Lima e José Leme do Prado, entre 1742 e 1749, explorassem a área, em busca clandestina de especiarias, estabelecendo comércio no eixo Cuiabá-Amazonas-Belém. A partir de 1750, quando se iniciaram negociações com a Espanha a propósito das terras invadidas e colonizadas, intentou-se a incorporação definitiva do Amazonas às possessões lusitanas. Foi nomeado comissário de demarcações o governador do estado do Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que deveria realizar o levantamento da zona, tanto no norte (do Negro ao Japurá) como no sul (do Madeira ao Javari). Estabelecendo sua base de operações numa antiga missão carmelita do rio Negro, Mariuá (1754), rebatizada Barcelos, demorou-se aí dois anos. Datam dessa época a criação de pesqueiros para melhor abastecer os habitantes dos rios Negro, Branco e Solimões, e o incremento da cultura de cereais em toda a região. Por fim, segundo sugestões de Mendonça, o governo português autorizou a criação da capitania de São José do Rio Negro (1755), separada do Pará. Visava-se, com o ato, a consolidar o domínio luso do Amazonas, ponto extremo setentrional dos limites com as possessões castelhanas. A disposição de incentivar os colonos a ocuparem o espaço da nova capitania revela-se, ademais, nos privilégios, prerrogativas e liberdades concedidos a quem lá fosse morar, compreendendo isenções de taxas, despesas de emolumentos, fintas e outros tributos pelo prazo de 16 anos. Ao tomar posse o primeiro governador, Joaquim de Melo e Póvoas (1757), a capitania contava com 45 aldeias, das quais Silves, Serpa e São Paulo de Olivença foram logo elevadas à categoria de vila, com nova denominação. Ainda sob o governo de Póvoas desencadeou-se acirrada campanha contra os jesuítas, que resistiam à supressão de sua influência sobre os índios e eram acusados de não lhes ensinar a língua portuguesa, a fim de mantê-los sob controle, além de monopolizar o comércio das drogas em detrimento dos negociantes locais. O marquês de Pombal ordenou que fossem retirados à força das missões, expulsos da colônia e seqüestrados seus bens (1759). A laicização dos antigos aldeamentos missionários, entretanto, não surtiu os resultados esperados. Além disso, a Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão, criada para estimular as exportações através do desenvolvimento sistemático da produção daquelas capitanias (1755), fez estacionar as atividades extrativas de que vivia São José do Rio Negro. A nova capitania viveu, assim, durante todo o terceiro quartel do século, sob desigual concorrência econômica com as suas vizinhas orientais. Extinta a Companhia Geral do Comércio, os governadores de Rio Negro puderam desenvolver atividades produtivas em maior escala. Assim é que João Pereira Caldas e Manuel da Gama Lobo d'Almada, os que mais se empenharam nesse sentido, deram novo impulso à capitania, elevando seu nível social e econômico. Na fase de relativa prosperidade, entre 1780 e 1820, criaram-se no Amazonas pequenas indústrias de tecidos de algodão, manufaturas de cordoalhas, manteiga de tartaruga, cerâmica e velas, além de se haver fomentado a agricultura de café, tabaco, algodão, arroz, milho, cacau, mandioca, cana-de-açúcar, e a pecuária no vale do Rio Branco. Nos últimos anos antes da independência, a capitania exportava em média, anualmente, cerca de cinqüenta mil libras esterlinas, ou seja, um terço da exportação total do Pará. Ao lado desse progresso, incentivavam-se as explorações científicas, entre as quais se destaca a de Alexandre Rodrigues Ferreira, a fim de se examinarem terrenos e rios, com vistas a seu aproveitamento agrícola. Fizeram-se também minuciosos trabalhos topográficos e ecológicos, que muito contribuíram para melhor conhecimento da região, seus recursos e suas populações. Levando em conta a necessidade de se estabelecerem comunicações mais rápidas com Belém, o governador Almada transferiu, afinal, a sede administrativa de Barcelos para a confluência do Negro-Amazonas (1791), no local em que Mota Falcão erigira o forte de São José do Rio Negro, transformado então no povoado da Barra, hoje Manaus. Desenvolvimento. A capitania teve sua vida política encerrada como unidade distinta ao advento da independência. Apesar dos esforços que sua população despendeu para que fosse graduada na condição de província do império nascente, tal não ocorreu. Houve certa perspectiva de êxito nos primeiros tempos, uma vez que conseguira mandar representantes às cortes de Lisboa, o que lhe assegura uma situação privilegiada. As autoridades locais entraram em conflito ao tratarem do futuro da ex-capitania, sustentando umas o direito de que o Rio Negro se constituísse província, enquanto outras, as judiciárias de preferência, sustentavam a tese de que a capitania era agora mera comarca do Pará, sem governo próprio. Em 1832, dado o estado de espírito agitadiço que envolvia todo o vale, os amazonenses pegaram em armas, desligando a comarca de sua subordinação à província paraense e proclamando-a província imperial. O pronunciamento foi esmagado pelas armas, sem que o governo imperial atendesse às razões apresentadas pelos amazonenses, que enviaram ao Rio de Janeiro um delegado, o religioso frei José dos Santos Inocentes. Em 1833, passou a denominar-se Comarca do Alto Amazonas, governada por um juiz de direito e por um comandante militar. No período colonial levantara-se uma rede de fortificações para garantir o domínio português: São Joaquim, São Gabriel de Cachoeira, Maribatanas e Tabatinga. O comando militar resultava da necessidade de continuar a política de preservação do território que fronteirava com cinco repúblicas de origem espanhola e a antiga Guiana Britânica. Cabanagem. A comarca manteve-se fiel
ao legislativo no decorrer da cabanagem, movimento da população de raízes
indígenas contra os dirigentes que lhes pareciam estranhos às suas
aflições, bem como protesto contra distâncias sociais e econômicas que não
lhes permitiam o acesso ao bem-estar material nem aos postos da mais alta
administração regional. Com a invasão dos cabanos, que obtiveram grandes
adesões, Manaus, assim como várias outras vilas, esteve em mãos dos
rebeldes. Um caudilho legalista pernambucano, Ambrósio Aires, cujo nome de
guerra era Bararoá, e que cumpria sentença por crime político no Rio
Negro, combateu com bravura, perdendo a vida numa surtida nos Autazes.
Apolinário Maparajuba foi o chefe cabano de maior nomeada. Seguiram-se, na administração da província,
62 presidentes e vice-presidentes em exercício. O progresso era lento. O
crescimento demográfico não expressava dinamismo. A navegação a vapor,
resultante da ação do barão de Mauá e de Alexandre Amorim, permitiu a
circulação de mercadorias e de pessoas, diminuindo as distâncias. As
flotilhas de pequenas embarcações, que serviam ao vaivém mercantil,
perderam substância. O "regatão", mercador fluvial que substituíra o
comerciante das vilas e cidades, embora praticando abusos continuou a
servir ao homem isolado pelo deserto. República. Em 10 de julho de 1884 a província declarou extinta a escravidão, libertando os trabalhadores negros. A Sociedade Emancipadora Amazonense e mais outras nove associações que se espalhavam pela capital e pelo interior, movimentaram a causa. Estabelecida a república em 21 de novembro de 1889, foi nomeado governador o tenente Ximeno Villerroy. Três governantes, Taumaturgo de Azevedo, Antônio Clemente Ribeiro Bitencourt e Turiano Meira, sofreram deposição. Nas administrações Eduardo Ribeiro, Jônatas Pedrosa e Alcântara Bacelar, a luta política exteriorizou-se mais intensamente por meio de pronunciamentos armados com derramamento de sangue. Um tipo estranho, espécie de caudilho caboclo, Guerreiro Antoni, comandou agitações, galvanizando a opinião estadual. Eduardo Ribeiro, maranhense, cercou-se de prestígio popular. Iniciou a obra urbanizadora de Manaus, assegurando-lhe muito da feição típica que possui; aterrou igarapés, abriu ruas, avenidas, praças, construiu edifícios públicos. O fastígio da borracha. A borracha dos seringais do Purus-Acre, do Juruá e do Madeira projetava o Amazonas no cenário mundial. Manaus tornou-se um dos mais famosos centros exóticos da Terra. Em seu teatro, decorado por artista italiano, com zimbório trazido do pavilhão de festa da Exposição de Paris, apresentavam-se as melhores companhias européias. Homens e mulheres de todas as cores e de todos os continentes encontravam-se em Manaus. De todo o país, médicos, bacharéis, jornalistas, engenheiros, agrônomos, comerciantes e operários iam "fazer o Amazonas". Navios das mais variadas bandeiras fundeavam no porto. Este era uma construção típica, realizada sobre tambores, que subiam e desciam ao sabor do movimento das águas. O amazonense era o maior contribuinte, per capita, do erário federal. Nos seringais, bebiam-se as melhores bebidas, comia-se o enlatado mais fino do Velho Mundo. O presidente Afonso Pena, ao visitar a capital amazonense, declarou: "Manaus é uma revelação da república". Manaus absorveu quase todo o rush da borracha. Os demais centros urbanos, em conseqüência, não se desenvolveram. Tudo isso entrou em colapso com a emigração da Hevea para o Oriente e a concorrência daquele mercado. O funcionalismo deixou de receber os vencimentos. Numa administração, durante quatro anos houve o calote oficial aos servidores -- o que explicou a adesão popular ao pronunciamento que eclodiu em São Paulo em 1924 e teve repercussão imediata em Manaus. Até então, os homens que comandavam a política, a vida intelectual e econômica eram, na sua quase totalidade, de fora. O "glebarismo" foi o movimento cívico que, depois de 1930, desfraldou a bandeira do Amazonas para os amazonenses. Os homens públicos que exerceram o governo daí em diante -- exceção de dois interventores federais do período ditatorial -- foram, em conseqüência, todos amazonenses. A vida política processou-se sem particularidades de monta. O movimento paulista de 1932 ecoou no estado no combate naval travado em frente à cidade de Itacoatiara entre forças legais, terrestres e navais, e rebeldes da guarnição de Óbidos. A criação dos territórios federais de Rondônia e Roraima, que provocou mal-estar, desfalcou o estado em área e população. Os municípios de Porto Velho e Boa Vista passaram àqueles territórios. Pela lei no 117, de 29 de dezembro de 1956, que fixou a divisão territorial, administrativa e judiciária, os antigos 28 municípios desmembraram-se, elevando-se para 44. A população aumentou num ritmo
relativamente lento. Em 1850, somava cerca de trinta mil habitantes; cem
anos depois, perto de meio milhão. Os contingentes nordestinos,
denominados "arigós", levados no decorrer da segunda guerra mundial para a
restauração dos seringais e produção intensiva de borracha necessária à
indústria bélica americana, não constituíram um peso ponderável. Ao invés
da mortalidade que teria ocorrido e de que tanto se falou naquela época, o
que houve foi um regresso dos imigrantes que não se integraram no novo
meio. Muitos, depois de encerrada a "batalha", instalaram-se em Manaus,
que cresceu na área suburbana e no comércio de rua. A partir de 1930, o governo federal passou
a se empenhar no sentido de valorizar o grande vale equatorial. Dispondo
de grandes reservas de terra e apresentando um índice demográfico muito
baixo (cerca de 250.000 habitantes em 1900, 450.000 em 1940 e 720.000 em
1960), o Amazonas despertou o interesse internacional para a inversão de
capitais em seu povoamento e na exploração de seus múltiplos recursos
naturais. A tese da internacionalização da bacia, sustentada por James
Bryce (1912) e Prescott Webb (1952), chegou a ser proposta por entidades
científicas, a exemplo da Academia de Ciências de Washington, da UNESCO e
do Instituto Hudson de Nova York. A partir da década de 1960, rompeu-se em definitivo o isolamento do Amazonas por meio de sua incorporação ao sistema rodoviário brasileiro, com a abertura de estradas como as de Manaus-Porto Velho, Manaus-Itacoatiara, Manaus-Manacapuru e Manaus-Boa Vista, todas confluindo para o eixo das comunicações interiores que têm como centro Brasília. O leito da Transamazônica, por outro lado, corta o Amazonas desde Jacareacanga, no Pará, até Humaitá, no rio Madeira, daí ligando-se a Lábrea, no rio Purus, ponto de convergência para Boca do Acre e Benjamin Constant, no Solimões (fronteira com o Peru), após atravessar os vales do Coari, do Juruá, do Jutaí e do Jandiatuba. Do ponto de vista regional, a abertura desses vários troncos contribui para a colonização e desenvolvimento econômico do Amazonas, bem como possibilita exploração mais sistemática de lençóis de petróleo e jazidas de manganês e estanho em artérias vitais do estado. Em 1987, o governo federal anunciou a descoberta de depósitos de petróleo de boa qualidade, que se acreditava alcançar volume igual a todas as reservas então conhecidas no país. A questão ecológica, avultada nessa década, exacerbou-se em 1989, com um movimento internacional pela preservação da Amazônia, desencadeado após o assassinato do ecologista e líder sindical Chico Mendes, no Acre. Nos primeiros anos da década de 1990, a Zona Franca de Manaus enfrentou uma profunda recessão, que atingiu basicamente a indústria de eletro-eletrônicos, plásticos e vidros, o que aumentou drasticamente o desemprego na região.
Cultura e turismo Das bibliotecas registradas no estado, as mais importantes, além das pertencentes às entidades acima, são a Biblioteca Pública do Amazonas e a Biblioteca Central da Universidade do Amazonas. Vários municípios, agências do IBGE e missões religiosas mantêm pequenas bibliotecas públicas. Entre os museus, cabe destacar o do Homem do Norte, o do Índio e o de Ciências Naturais. O único centro de atração turística do estado é a cidade de Manaus. Destacam-se na cidade, além do Teatro Amazonas, construído na época áurea da borracha em estilo renascentista italiano, os seguintes monumentos: o palácio Rio Negro, sede do governo estadual; o palácio Rio Branco, onde se encontra uma excelente coleção de numismática; o palácio da Justiça e do Comércio; o Hotel Amazonas; o edifício da Alfândega; a catedral de Nossa Senhora da Conceição. Outra atração turística consiste em passeios de barco pelos rios Negro e Amazonas, sobretudo na área onde se verifica o encontro das águas dos dois rios, de cores diferentes. Outros pontos de interesse são as piscinas naturais de Flores, Turumãzinho e Bosques; as praias fluviais de Ponta Negra e Cacau Pirera; e a cachoeira de Turumã Grande. A melhor época para pesca é o período de setembro a novembro.
Folclore A culinária típica do Amazonas também é
bastante diversificada. Os pratos mais famosos são o abunã ou arabu, pirão
de ovos de tartaruga ou outro quelônio, com farinha e açúcar; a farofa do
casco, servida com prato de tartaruga; a maniçoba, pirão de farinha de
mandioca, que se come com cozido; o pacicá, quitute preparado com os
miúdos da tartaruga, temperados e cozidos no próprio casco; o peito de
forno, um picado de tartaruga, temperado com limão, sal e pimenta; o
tacacá, papa de goma que se junta ao tucupi, que é por sua vez, um dos
molhos tradicionais da Amazônia.
Fonte: ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda. |
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