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Os Índios

Certos galpões de mato são cobertos quase que só com o acuri, uma palmeira que na ilha dos Guatós está muito presente. As folhas dela são usadas para cobrir casas e para fazer esteiras e balaios. O talho do cacho serve de espanador de mosquito e coco se come.

O mais curioso do acuri é seu uso como bebida alcoólica, a xixa. Com assistência de dona Josefina, Wilson começa a limpar um pé de acuri para fazer xixa. A operação é aparentemente simples. Estoura-se o acuri, abra-se um buraco no caule, para ali se acumular a seiva. Como o processo dura de um dia para o outro, é preciso cobrir o buraco em caso de chuva.

Mal escurece e a aldeia entra em agitação. Chega um pessoal que faz parte de uma igreja evangélica, dessas mais animadas. O próprio cacique também é irmão.



No outro dia, bem cedo, a água da baía estava mansa. O buraco deveria estar cheio de seiva, e, quem sabe, até fermentando. Mas foi uma decepção. Tudo estava seco. Como a aldeia é dominada por uma religião que é contra a bebida, tem gente constrangida de mexer com uma coisa que tem teor alcoólico. Outra coisa é que os Guatós não estão acertando fazer a xixa. Talvez tenha a ver com a época do anos, quando a planta tem mais ou menos seiva.

A perda cultural dos Guatós vai além de terem esquecido como se faz a sua bebida. O golpe mais duro é não saberem mais a língua.

O cacique Severo e sua família saem para uma visita especial à única de Guatós puros. Entre si, os três moradores - Veridiano, com Mal de Parkinson, dona Júlia, cega, e seu filho Vicente – só falam no idioma. Se há uma intriga, sai um palavrão em guató. Mas isso é lá uma vez ou outra. O tempo todo os três se tratam carinhosamente, e em guató.

A bondade do Vicente transparece até no fato em que ele permitiu que o único casal de gatos se transformasse na maior gataria existente no Pantanal. Resultado: como única pessoa sadia da casa, Vicente tem de pescar, caçar, cozinhar para si próprio, para a mãe, para o tio e para mais de 40 gatos e dez cachorros.

Veridiano é chamado por muita gente de “O Último Guató” por ser como é, homem doce e cortês e um antigo cacique.

Dona Júlia, tinha outro irmão, o José. Ele adoeceu, foi levado para Corumbá e voltou morto. Agora, dona Júlia não aceita ir para a cidade, onde uma cirurgia de catarata poderia trazer-lhe de volta a visão. Ela acha que cidade mata Guató.

O certo é que a de dona Júlia é a última casa do mundo onde se fala guató. A língua vai morrer com eles.

Em São Paulo, o professor Eduardo Navarro, especialista em lingüística da USP, avalia o que significa a morte de um idioma. “A humanidade empobrece. Os índios do Pantanal estão ali a milhares de anos. Eles acumularam um saber imenso em termos de flora, fauna, conhecimento sobre os peixes, os rios, o meio ambiente e a natureza. Uma vez perdido, esse saber nunca mais é recuperado.”

Em Recife, Adair Palácio, antropóloga da Universidade Federal do Pernambuco, que obteve seu título de doutora com um estudo profundo sobre os Guatós, se empolga a falar sobre esse idioma. “O guató tem notas musicais diferentes, com tom alto e tom baixo. Outra coisa interessante do ponto de vista cultural é que a maioria das línguas indígenas brasileiras não tem numeração. O Guató tem mais de mil. De cinco em cinco números, tem uma palavra nova.”

Quanto ao futuro da língua, professora Adair não tem uma notícia boa. “Ela tem morte certa.”

Em Brasília tem um serviço público, até muito importante, incumbido de fazer a preservação dos recursos do Brasil, para evitar a extinção das espécies da fauna e da flora. Se morrerem na aldeia, essas quatro pessoas serão enterradas lá sem que ninguém cuide deles. Se eles fossem galinha ou porco, talvez fosse diferente.

Severo e sua comitiva vão embora. Ainda não foi dessa vez que convenceu os três Guatós puros a irem para a aldeia. O cacique faz questão deles lá, mas sabe que é preciso ter paciência.

O que dará essa aldeia cujos índios não falam a língua, não sabem mais fazer xixa e cantam hinos vindos de fora? Pode ser a rendição final, a última queda. Mas pode ser também o início do renascimento.

Um guató antigo diz que o seu povo não vai morrer. É bom que assim seja. O fim de um povo e de sua cultura empobrece toda a humanidade.

Reportagem Globo Rural 28/03/04


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