História da
Balaiada, revoltas populares no século XIX, conflitos no Maranhão, a
vida dos balaios
Fabricantes de Balaios (século XIX)
No ano de 1838 surgiu um movimento popular no Maranhão. Este era
contrário ao poder e aos aristocratas rurais que, até então, dominavam
aquela região.
Em dezembro de 1838, Raimundo Gomes (líder do movimento), com objetivo
de libertar seu irmão que se encontrava preso em vila Manga, invadiu a
prisão libertando não só seu irmão, mas também todos os outros que se
encontravam presos.
Após algumas conquistas dos balaios, como a tomada de Caxias e a
organização de uma Junta Provisória, o governo uniu tropas de diferentes
províncias para atacá-los. Contudo, Os balaios venceram alguns combates.
Outros líderes, como, por exemplo, o coronel Luís Alves de Lima e Silva
também entrou em combate com os revoltosos. Entretanto, o comandante dos
balaios, Raimundo Gomes, rendeu-se.
Após a morte de Balaio, Cosme (ex-escravo e um dos principais chefes dos
balaios) assumiu a liderança do movimento e partiu em fuga para o
sertão. Daí em diante, a força dos balaios começou a diminuir, até que,
em 1840, um grande número de balaios rendeu-se diante da concessão da
anistia. Pouco tempo depois, todos os outros igualmente se renderam. Com
a completa queda dos balaios, Cosme foi enforcado.
A Balaiada
Por Carlos Alberto Ricardo
A 'revolta dos balaios' - ocorrida no Maranhão durante o período de 1830
a 1841 - resultou em mais uma manifestação do processo de crise por que
passava a sociedade brasileira durante o período regencial.
Na época do movimento, a província contava com aproximadamente 200 mil
homens, dos quais 90 000 eram escravos e outra grande parte formada de
sertanejos ligados à lavoura ou à pecuária.
Herdando uma estrutura social gerada, em fins da época colonial na
produção do algodão, a região encontrava-se, nesse momento, econômica e
socialmente instável. A produção algodoeira, fundando-se apenas em razão
de condições internacionais - guerra de Independência dos Estados
Unidos, Revolução Industrial etc. -, declinou paralelamente ao
desaparecimento dos acontecimentos externos favoráveis à economia
exportadora .

"Retirantes" de Candido PortinariBase social necessária para o
funcionamento dessa economia, a massa de escravos negros constituía um
enorme contingente, populacional que, não raras vezes, apresentou sinais
de rebeldia, aquilombando-se nas matas, "de onde saíam para surtidas
rápidas e violentas sobre propriedades agrárias ". O grande contingente
de homens livres, disperses pelo Maranhão e com formas rudimentares de
divisão do trabalho, deveu-se basicamente à pecuária extensiva. O
caráter mesmo dessa atividade, na região, possibilitou o crescimento
vegetativo normal da população que, em épocas de retração da economia,
dedicava-se à subsistência. Será o caráter de sua participação no
movimento - aliada à dos negros - que dará à Balaiada uma configuração
especial dentre as mobilizações ocorridas no período. Se a rebeldia
desses grupos já possibilitara sua participação como braço armado
durante os conflitos ocorridos pela época da independência, na revolta
dos balaios, a participação de negros e homens livres (sertanejos)
adquire caráter próprio, escapando ao controle das disputas partidárias.
Em nível das camadas dominantes, o quadro da região não difere das
demais, na época. "A política da Província era regulada pelos Bentevis
(liberais) e Cabanos (conservadores), seguindo os moldes do revezamento
de partidos, adotado durante o período imperial. Algumas crises,
estabelecidas sobre o quadro de 'rotatividade de elites' no poder, eram
seguidas - ou precedidas conforme o caso, de agitações locais,
envolvendo geralmente as camadas populares corno instrumento de luta.".
Os conflitos ocorridos entre tais grupos - que também podem ser
observados através dos jornais por eles encabeçados - teriam se acirrado
com a votação da lei dos prefeitos pelo legislativo, sob a presidência
do cabano Vicente Pires de Camargo. Tal medida visava a um maior
controle da província pelo partido dominante, através de poderes legados
aos prefeitos.
O fato com que se costuma marcar o início da revolta ocorreu quando
Raimundo Gomes - um vaqueiro que administrava a fazenda do Padre Inácio
Mendes (bentevi) passava pela vila do Manga levando uma boiada para ser
vendida em outra localidade. O subprefeito da vila, José Egito, cabano e
adversário político de Padre Mendes, baixa uma ordem para o recrutamento
de alguns homens que acompanhavam Gomes e também para a prisão do irmão
do vaqueiro. Reagindo, Raimundo Gomes assalta a cadeia e foge para
Chapadinha. Irrompidas as agitações populares concentradas, num primeiro
momento, na coluna de Raimundo Gomes, o aparecimento de manifestações em
outras regiões passa a ser freqüente. Delas tentará se aproveitar o
partido bentevi. Entretanto, "o movimento, ampliando-se, seja no raio de
ação geográfica, seja no quantitativo dos que a ele vieram trazer a sua
participação,"não possuía as características simplistas de mais um
pronunciamento de políticos desejosos de poder" Nesse sentido, vale
lembrar a participação de Manuel Francisco dos Anjos Ferreira,
construtor e vendedor de balaios, "daí ser chamado 'Balaio', nome que
passaria ao movimento", bem como a do preto Cosme, que se colocou à
frente de três mil negros rebolados.
Um ofício que Caxias, então no comando da repressão à Balaiada, envia ao
Ministro da Guerra em 5 de março de 1840, permite observar o caráter
adquirido pelo movimento: "A opinião geral é que as eleições, e só as
eleições deram origem às dissensões dos dois partidos conhecidos com as
denominações de Cabanos e Bentevis; os segundos perseguidos pelos
primeiros, que tinham apoio na Assembléia Provincial e, desgraçadamente
no Governo de então, influíram no interior no rompimento da revolta; mas
hoje nada há de comum entre os rebeldes salteadores e as opiniões
políticas dos denominados Bentevis, que sofrem como os Cabanos grandes
perdas nas suas Fazendas, e que se prestam para a pacificação da
Província."
Nessa medida, adotando o sistema de guerrilhas e atacando as
propriedades através de emboscadas, as ações e os objetivos dos balaios
- certamente não muito claros para eles próprios - deixam de ser
incorporados por quaisquer dos dois partidos em disputa.
O número de adesões crescia nas regiões de Tutóia, Vargem Grande,
Coroatá e Brejo, seguidas de freqüentes choques com as forças
repressoras. A mobilização atinge grande parte da província. Em 1839, "a
24 de março, apresentavam-se às portas de Caxias, segunda cidade da
província em importância. Depois de um cerco de sete dias, tomaram a
cidade, fazendo valiosa presa. O pânico alastrava-se pela província e
ameaçava a capital ..."
Em Caxias, os rebeldes intentaram uma primeira forma de organização
política da qual participaram os elementos bentevis da cidade. A
participação desses elementos certamente serviu para conter as propostas
mais radicais. Assim, em seu curto espaço de duração, esse conselho
"limitou-se tão-somente a providências de caráter militar e de
emergência , e a mandar a São Luís uma delegação a fim de se entender
com o presidente da província".
As propostas enviadas pela delegação e que sintetizavam os objetivos
básicos do conselho resumiam, em última instância, apenas proposições
liberais dos bentevis que, como partido da camada dominante, não
desejava mudança alguma que pudesse abalar a estrutura social da
província. Só nesse quadro podem ser compreendidos o reconhecimento da
soberania do império e a exigência de expulsão dos portugueses e da
restrição dos direitos dos adotivos - motivos que percorreram todas as
agitações partidárias dos movimentos de independência - movimentos com
caráter eminentemente de classe dominante.
De qualquer forma, frente ao vulto adquirido pelo movimento que atinge
as Províncias do Ceará e Piauí, é nomeado para reprimir a rebelião o
Coronel Luís Alves de Lima e Silva, que obtém não só o comando das armas
como também a função de presidente da província. "Em Brejo, registrou-se
a primeira grande derrota dos 'balaios' . Seguiu-se a dispersão deles
que, penetrando no Piauí, com Raimundo Gomes, não alcançaram ali
qualquer sucesso." A direção final do movimento ficou praticamente em
mãos do preto Cosme, "Tutor e Imperador das Liberdades Bem-te-vi."
Utilizando-se do recurso da anistia, o governo imperial consegue, em 22
de agosto de 1840, a rendição de muitos rebeldes...
as partidas volantes e concedendo anistia aos chefes sob a condição de
ajudarem na perseguição dos que continuavam rebolados, a repressão,
assim montada por Caxias, conseguiu acabar com o movimento que povoou a
Província do Maranhão até 1841. Vale lembrar que a repressão à Balaiada
marcaria o início da chamada "pacificação" através da qual Caxias
sufocou as freqüentes agitações que perpassaram a sociedade brasileira
durante o império.
Este texto foi extraído do Cdrom História do Brasil -- da Digital Mídia
Editora Ltda. Por: Antonio Mendes Jr., Luís Roncari e Ricardo Maranhão