Que viva o
amor!

Por Ciro Pessoa
Todos querem viver o amor. De preferência, o amor pronto, enlatado, com
bula, bóia, cinto de segurança, certificado de garantia, devolução em
caso de quebra e, se não for muito caro, com air-bag. Ou senão o amor
perfeito dos personagens de filmes e novelas. Aquele amor de beijos em
campinas floridas e solenes abraços à beira-mar. Muitos optam pelo amor
que é uma derivação de filmes publicitários. Do tipo que confunde amor
com uma batedeira ergométrica digitalizada com vista para um playground
com três piscinas, frota de carros brilhantes e crianças correndo
livres, belas e soltas.
Querem saber? Acho isso tudo uma grande piada e um tanto quanto
perigosa. Porque definitivamente o amor não é um jogo para precavidos e
medrosos. Estes sempre vão se dar mal. São perdedores em potencial. O
amor é atroz. É sobrevivência em alto-mar. Turbulência e calmaria
incessantes. Ninguém é zen o tempo todo. Como disse o poeta Caetano
Veloso, "de perto ninguém é normal". E, convenhamos, o amor é, antes de
tudo, olhar alguém de perto. Se, ao primeiro sinal de insanidade,
destempero, seja lá o que for, desistirmos do amor... talvez seja melhor
trocar a experiência da paixão por uma filiação num Clube de Escoteiros.
Leis seguras. Dia após dia. Tudo certo.
Recorro a Arthur Rimbaud. Vou até a estante e pego Uma Estação no
Inferno. Abro o volume com cuidado. Suas páginas estão com marcas de
mofo. Procuro pelo verso que sei de cor: "É notório que o amor está para
ser reinventado". Rimbaud nasceu em 1854. Desconfio de tudo que li sobre
o amor. Exceto deste verso.
*Ciro Pessoa acredita no amor
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