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História
de Caxias MA
A verdadeira origem da
cidade de Caxias, embora se saiba sem contestações evidentes, que em
princípios do século XVIII existiam à margem do Itapecuru, nos pontos mais
altos daquele vale ribeirinho, centenas de aldeias indígenas que haviam
sido escorraçados pelas tropas portuguesas para o médio e alto Itapecuru.
O nome Aldeias Altas vem, assim, desse conglomerado de aldeias, de que se
destacavam as tribos chamadas Guanarés.
Contam que a origem da povoação terá sido o estabelecimento de uma fazenda
de gado no local,e que em torno da fazenda foram se aglomerando as pessoas
que demandavam a localidade, até que ali se formara um arraial.
Um processo travado entre jesuítas e um criador de gado, uma vez
extraviado, deixou forte lacuna para quem desejasse fazer estudo mais
profundo sobre primórdios históricos da povoação. Ainda dois jesuítas
vindos do sertão da Bahia, ali se instalaram, precisamente na outra margem
do rio, nas três aldeias existentes, de forma que a palavra 'Tresidela',
na opinião até mesmo do Dr. Antonio Gonçalves Dias, terá derivado dessas
três aldeias.
O Pe. José Coelho de Souza, apoiado por vários historiadores, diz que
"chegou a vez da fundação das Aldeias Altas, operada em 1741, pelo Pe.
Antônio Dias, a 15 jornadas da boca do Itapecuru". A historia Eclesiática
do Maranhão, do bispo D. Felipe Conduru, refere que o Pe. Gabriel
Malagrida fundara "pequenas escolas em Caxias e Parnaiba, em 1742".
A Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, publicação do Governo federal,
assinala: "ocupadas pelos portugueses as suas primeiras habitações,
estabeleceram-se nelas no século XVIII e edificavam uma igreja, a de N. Sª
da Conceição, dando à nova povoação o nome de "Aldeias Altas".
naturalmente em contraposição às primeiras já estabelecidas no baixo
Itapecuru.
Quase que sem exceção, as cidades ribeirinhas do norte do Brasil, nasceram
em consequência dos chamados "pousos" ou "paióis". Esses pousos eram
casebres construídos de folhas de palmeiras geralmente tapados de palhas,
e serviam aos tocadores de gado que provinham da bacia do São Francisco,
na direção do litoral, notadamente para São Luis. Os paióis, eram
depósitos provisórios construídos pelos lavradores de cultivo intenso da
terra, onde armazenavam, nas colheitas, o produto de seu trabalho.
Encerrado o ciclo produtivo levantavam tenda, para queimada de novas matas
e construção de novos rosados, via de regra à margem dos rios, única via
de acesso para escoamento da produção.
Ora, é sabido que os sertanistas que partiram do sul e leste do Brasil
penetravam fundo nos sertões do Piauí atravessando o Parnaiba e atingiram
fundo nas imediações de Caxias, o curso do médio Itapecuru, como já o
haviam feito na região de Pastos Bons, nas parte alta do rio.Em Pastos
Bons a criação de gado foi a origem da povoação que, mais tarde, seria
elevada a vila, o mesmo ocorrendo com Caxias, que jamais fora fundada, num
dia e hora certos, senão que, originada dos pousos e panóis e do
aglomerados de lavradores e criadores da região, veio a se transformar, a
partir dos 30 primeiros anos do século XVIII (1730),no arraial que foi o
núcleo da atual cidade de Caxias, até porque a região se prestava
largamente ao cultivo de arroz, milho, feijão e principalmente algodão,
como a pastagem era farta e boa para criação de gado.
A ser verdadeira a teoria de César Marques, da chegada de dois padres
jesuítas nas Aldeias Altas, em fins do século XVI, teriam sido eles os
primeiros europeus a pisar em solo caxiense. Como tal assunto parece cair
no domínio da lenda, deixamos por não servir à verdade histórica. O que se
sabe ao certo é que o Padre Antônio Dias, da Companhia de Jesus, que
percorrera os sertões do Maranhão entre o Itapecuru e o Parnaíba, fizera
erigir em Aldeias Altas uma escola para ensino de primeiras letras a
índios e filhos de colonos, no ano de 1741.
O Pe. Antônio Dias, governou a aldeia até o ano de 1758,e o seminário
encontrava-se na povoação batizada por Tresidela, encerrou suas atividades
em 1760,sendo ele uma rudimentar construção de casa de palha. Segundo
documentos, por volta de 1730, foi construída a capela de São José, sendo
o primeiro nome de Caxias "São José das Aldeias Altas". Em meados do
século XVIII (1750 em diante) criava-se a paróquia das Aldeias Altas, com
608 pessoas de comunhão, espalhadas por 30 fazendas.
Caxias e a queda dos topônimos
Esse é um episódio pouco conhecido no que diz respeito ao topônimo
Caxias, que, segundo alguns, grafava-se antigamente com CH: Cachias. O
Professor Basílio de Magalhães, em anotações à obra de Spix e Martius,
grafa Cachias. Disse-se, ali que " é melhor grafia do topônimo, pois
provém, sem dúvida, do nome cachia ( como se pode ver no excelente
dicionário de Morais) , à "esponja" ,flor do arbusto chamado " corona
christi ", que não de caixa.
Pois bem. Entrando em vigor o Decreto n.° 311, de 2-3-1938 (Estado Novo),
que proibia mais de uma cidade brasileira com o mesmo topônimo, foi
tentada a mudança do nome secular de Caxias das Aldeias Altas, assunto que
provocou reações vigorosas no Rio Grande do Sul e Maranhão, pois com a
tentativa de alteração da antiga denominação dada a Caxias, para outra que
desfizesse a coincidência de três cidades no Brasil com o mesmo nome. As
autoridades do Conselho Nacional de Geografia oficiaram à Comissão
Regional de Geografia no Maranhão na época presidida pelo Dr. José Eduardo
de Abranches Moura.
O Dr. Abranches Moura fez uma minuciosa pesquisa em todo o Estado,
encontrando no Maranhão 27 cidades e 3 vilas. No seu Relatório declara,
entre outras coisas, que " sendo a prioridade dada pela antiguidade e
categoria, vimos, depois de nos dirigirmos aos Diretórios de Geografia dos
Estados que tinham localidades com os mesmos nomes, que apenas teríamos de
mudar a denominação de oito cidades de duas vilas".
Preparava o Dr. Abranches os novos mapas, quando dos altos escalões da
Comissão Nacional recebeu o telegrama de nº 192 (1-11-1943),
encarecendo-lhe " o valioso apoio caso nome Caxias, em face das numerosas
representações que estão chegando, nas seguintes condições: Comarca
Fluminense, onde nasceu o grande brasileiro ,ficaria Duque de Caxias;
Comarca gaúcha, de grande importância econômica, continuaria apenas Caxias
e Comarca do Maranhão mudaria para Marechal Caxias ou Caxias do Norte.
Dr. Abranches Moura, após consultar vários colegas, respondeu ao
Embaixador Macedo Soares, pelo telégrafo, o pedido de apoio onde declarou
que a Comissão Revisora maranhense era contra a mudança, alegando entre
outras coisas que havia sido a cidade maranhense que dera o título de
Barão de Caxias ao Patrono do Exército. No que tangia à importância da
Comarca, revelava que Caxias do Maranhão era igualmente um centro de alta
importância econômica, além do que era berço de muitos brasileiros
ilustres.
Em seu relatório o Dr. Moura adverte que "tínhamos por dever sustentar a
conservação do nome de Caxias à nossa Princesa do Sertão, nome que nos era
caro pela sua antiguidade, desenvolvimento e tradição".
Não se conformara a Comissão Nacional de Geografia, em virtude do
acendramento da reação gaúcha, que a qualquer preço queria modificar o
nome da cidade maranhense para permanecer, como Caxias, apenas a cidade
existente naquele estado sulista.
O Embaixador Macedo Soares, na época Presidente do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, endereçou novo telegrama ao Dr. Abranches Moura,
vasado nesses termos: "nº 20438 de 11-11-1943. Muito me sensibilizou o
telegrama 403. como DIREGEO daí telegrafou dizendo que cidade maranhense
chamou-se Barão de Caxias, peço permissão solicitar seja examinada
restauração tal nome o que vem facilitar este Instituto promover
atendimento pedido Caxias R. G. do Sul, onde se deu reação muito forte que
pode criar embaraços à Campanha Nacional de revisão territorial e
toponímica que estamos superiormente realizando olhos vistos tão-somente
nos interesses do Brasil".
Alarmou-se o intelectual maranhense Abranches Moura, pois era evidente que
havia truncamento em seu despacho telegráfico, pois ali não havia dito que
o nome da cidade era Barão de Caxias.
O telegrama do embaixador Macedo Soares foi mostrado pelo interventor
interino do Maranhão, Dr. Albuquerque Alencar, a 16-11-43, ao Dr.
Abranches Moura, e este tratou imediatamente de rebater a insinuação,
respondendo ao Embaixador nestes termos: " Tendo conhecimento do telegrama
de V.Exª ao Interventor devo esclarecer o seguinte: O DIREGEO disse em seu
telegrama de 16 que a cidade maranhense foi que deu nome Barão de Caxias
ao Coronel Alves Lima. Cidade maranhense sempre teve o nome de Caxias.
Além disso a lista definitiva dos nomes de cidades e vilas enviadas pelo
conselho de Geografia declarou permanecer à Comarca maranhense nome
Caxias. Nessas condições a Comissão Revisora organizou decreto e
respectivos anexos, já aprovados pelo Conselho Administrativo".
Depois de marchas e contra-marchas no Rio de Janeiro e dos esgares dos
habitantes de Caxias do Sul, que não cessaram em seus processos de reação
pela mudança do nome da cidade maranhense, o Governo do Maranhão recebeu
este telegrama sobre a querela dos topônimos : " Nº 20440 de 11-111943 --
Acuso telegrama 16 e agradeço informações. Peço permissão insistir, pois
no Rio Grande do Sul a reação é muito grande e pode criar embaraços ao
nosso CNG. Segundo vosso telegrama cidade maranhense chamou-se Barão de
Caxias, consulto se então se não satisfaria restaurar tal nome".
Nova resposta, também telegráfica, foi passada para o Rio de Janeiro, a
24-11-1943. Nesse despacho o Dr. Moura informa que houve má interpretação
dos seus telegramas anteriores, pois caxias é que dera ao Coronel Luis
Alves de Lima o título de Barão então este dera à cidade essa toponímia.
No final do telegrama, em termos energéticos, sustentou o Dr. Abranches
Moura: " Maranhão tem fortes razões para pleitear conservação nome Caxias
à cidade maranhense, que data de 1811 e tem imensas tradições a zelar".
Por fim, um alentador mas lacônico telegrama do Rio de Janeiro ao Maranhão
dizia que " Caso Caxias deve ser resolvido harmoniosamente, ai ficando tal
qual e no Rio Grande do Sul passando a Caxias do Sul". Essa denominação,
como sabido, vem até hoje.
A batalha travada por por Abranches Moura não fora das mais fáceis. Em seu
ultimo telegrama ele afirma " ...vê-se que foi feita justiça ao Maranhão,
cujos direitos foram reconhecidos. O notável Maranhense, elaborou uma
monografia das mais ilustrativas sobre a história caxiense, começando por
afirmar que " no Século XVII era enorme a invasão dos portugueses que
entravam no interior da Província, fazendo com que os índios timbiras, que
aí habitavam, se refugiassem para o meio das florestas, a fim de fugirem
às suas perseguições". Num dos pontos do rio Itapecuru esses índios
escolheram um lugar a " aí fundaram diversas aldeias. É de se crer que o
primitivo lugar fosse o hoje chamado TRESIDELA, que alguns querem que
signifique " do outro lado ", mas que, segundo a opinião de Gonçalves
Dias, exarada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de
Janeiro,não é mais do que uma corrupção de TREZE ALDEIAS, o que mais
concorda com os fatos".
Arremata a Alvará Régio de 31-10-1811,pelo qual o Arraial foi elevado a
Vila e declara que fora esta instalada a 24-1-1812, e elevada a cidade em
1836, pela Lei nº 24, de 5 de julho. Por fim, faz um resumo dos principais
fatos históricos de Caxias e conclui com uma relação de vários nomes
ilustres da Princesa do Sertão.
Ao lado se sua luta, contou com a decidida atuação do Dr. Otávio Passos,
na época prefeito de Caxias, que recebera iguais telegramas de Macedo
Soares,no sentido da mudança de nome da cidade. O Dr.Passos, em face da
delicadeza do problema, e não querendo ceder à pressão dos gaúchos, entrou
em entendimento com os notáveis da cidade, ninguém concordou com a mudança
do nome da cidade.
O professor Nereu Bittencourt, ilustrada figura dos meios culturais
caxienses, a quem a cidade ainda deve um melhor estudo de sua vida e obra
(possui uma praça em Caxias com seu nome), elaborou um rápido mais
excelente trabalho sobre a matéria, tecendo considerações históricas sobre
o topônimo Caxias. O final do seu estudo, pelo cunho patriótico em que foi
lavrado, deve aqui figurar in verbis: " Quando de volta do Rio de Janeiro,
após brilhante desempenho da missão pacificadora que o trouxe a este
Estado, o então general Luís Alves de Lima e Silva escolheu o nome da
cidade invicta, para o título nobiliárquico com que o agraciou o monarca
brasileiro, D. Pedro II. A escolha honrosa do grande soldado deveria
bastar, para que nenhuma alteração sofresse o nome de Caxias, Ante o
exposto, não é justo que uma simples superioridade financeira, como a
alegada, pela cidade rio-grandense, supere as glórias que Caxias
conquistou, ou o orgulho que o exalta, de ter seu nome imorredouramente
ligado ao nome da maior glória do Exercito Nacional'.
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