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A fundação da capital
Capitão João Leite da Silva Ortiz, fundador de Curral del Rei.
Antiga Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem do Curral.Na imensa
faixa de terras ao largo do Rio das Velhas assenhoradas pelo
bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva (mais tarde Anhanguera II),
veio seu primo e futuro genro João Leite da Silva Ortiz à procura de
ouro a ocupar em 1701 a Serra dos Congonhas (mais tarde Serra do
Curral) e suas encostas, em que estabeleceu a Fazenda do Cercado,
base do núcleo do Curral del Rei, onde desenvolveu uma pequena
plantação e criou gado, com numerosa escravatura. O povoamento aos
poucos foi se firmando, de forma tal que em 1707 já aparecia citada
em documentos oficiais. Em 1711, a carta de sesmaria é obtida por
Ortiz, com a concessão da área que "começava do pé da Serra do
Curral, até a Lagoinha, estrada que vai para os currais da Bahia,
que será uma légua, e da dita estrada correndo para o rio das Velhas
três léguas por encheio". Conforme trecho da carta de sesmaria, à
ortografia da época, concedida por Antônio Albuquerque Coelho de
Carvalho:
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Faço saber aos q'. esta
minha Carta de Sesmaria virem q', havendo respto. ao q'. por
sua petição me enviou a dizer João Leyte da Silva, q'. ele
suppte., em o ano passado de 1701 fabricou fazenda em as
minas no distrito do Rio das Velhas em a paragem aonde
chamão o Sercado, e na dita fazda. teve plantas e criações,
de que sempre pagou dízimos e situou gado vacum, tudo em
utelidade da fazenda real e conveniência dos minros. (…)
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Ortiz dedicou-se especialmente ao plantio de roças, criação e
negociação de gado, trabalhos de engenho e, provavelmente, a
mineração de ouro nos córregos. O progresso da fazenda atraiu outros
moradores e um arraial começou a se formar, tornando-se um dos
pontos de concentração dos rebanhos transitados pelo registro das
Abóboras, vindos do sertão da Bahia e do São Francisco para o
abastecimento das zonas auríferas.
Apoiado na pequena lavoura, na criação e comercialização de gado e
na fabricação de farinha, o arraial progrediu. A topografia da
região favoreceu o estabelecimento de uma povoação dada à
agricultura e à vida pastoril. Os habitantes deram o nome de Curral
del Rei, por causa do cercado ou curral ali existente, em que se
reunia o gado que havia pago as taxas do rei, segundo a tradição
corrente. O arraial contava com umas 30 ou 40 cafuas cobertas de
sapé e pindoba, entre as quais foi erguida uma capelinha situada à
margem do córrego Acaba-Mundo (onde hoje se encontra a catedral),
tendo à frente um cruzeiro e ao lado um rancho de tropas.
Algumas poucas fábricas, ainda primitivas, instalaram-se na região,
donde se produzia algodão e se fundia ferro e bronze. Das pedreiras,
extraía-se granito e calcário, e frutas e madeiras eram
comercializadas para outros locais. Das trinta ou quarenta famílias
inicialmente existentes, a população saltou para a marca de 18 mil
habitantes.
Em 1750, por ordem da Coroa, foi criado o distrito de Nossa Senhora
da Boa Viagem do Curral, então sede da freguesia do mesmo nome
instituída de fato em 1718 em torno de capela ali construída pelo
Padre Francisco Homem, filho de Miguel Garcia Velho. Elevado à
condição de freguesia em 1780, mas ainda subordinado a Sabará, o
Curral del Rei englobava as regiões (ou curatos) de Sete Lagoas,
Contagem, Santa Quitéria (Esmeraldas), Buritis, Capela Nova do Betim,
Piedade do Paraopeba, Brumado, Itatiaiuçu, Morro de Mateus Leme,
Neves, Aranha e Rio Manso. No centro do arraial, os devotos ergueram
a Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem. Com a extinção dos curatos,
a jurisdição do Curral del Rei viu-se novamente reduzida ao primeiro
arraial, com sua população de 2.500 habitantes, que chegou a 4.000
moradores já ao fim do século XIX.
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Vilarejo de Belo Horizonte de 1930 |
O seguinte trecho do relatório enviado à Cúria de Mariana pelo
vigário Pe. Francisco de Paula Arantes, conservada a ortografia,
relata a paisagem característica da região à época:
A Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem de Curral del Rei está
situada em campos amenos na extensa planície de sua serra donde
manão imensas fontes de cristalinas e saborosas águas; o clima da
região he temperado; a atmosphera he salutifera; está circulada de
pedras e mais materiais onde se podem fazer soberbos edifícios; a
natureza criou este logar para sua formosa e linda cidade, si algum
dia for auxiliada esta lembrança.
O Arraial de Curral del Rei (1896).Porém, enquanto Vila Rica, Sabará,
Serro Frio e outros núcleos mineradores se constituíam em centros
populosos e ricos, Curral del Rei e sua vocação para o comércio do
gado sertanejo estacionou em seu desenvolvimento, não oferecendo
lucro que fixasse ao solo uma população como a de outros lugares. O
apogeu de Ouro Preto perdurou até o fim do século XVIII, quando as
jazidas esgotaram-se e o ciclo do ouro deu lugar à pecuária e
agricultura, criando novos núcleos regionais e inaugurando uma nova
identidade estadual.

Belo Horizonte 1930
A região de montanhas negras que vai de Ouro Preto à região do
Curral del Rei, com uma área de aproximadamente 7.160 km² e reservas
próximas a 29 bilhões de toneladas de minério de ferro, formam o
local conhecido como Quadrilátero Ferrífero. Para entrar na era que
então se anunciava, deixando para trás o passado monárquico, os
sócios do Clube Republicano do arraial propuseram a mudança de seu
nome para Belo Horizonte. Assim, em 1890, o arraial do município de
Sabará tornou-se Belo Horizonte.
A então capital de Minas Gerais, a cidade de Ouro Preto, não
apresentava alternativas viáveis ao desenvolvimento físico urbano, o
que gerou a necessidade da transferência da capital para outra
localidade. Com a República e a descentralização federal, as
capitais tiveram maior relevo: ganhava vigor a ideia de mudança da
sede do governo mineiro, pois a antiga Ouro Preto era travada pela
topografia.
Comissão Construtora no campo de obras.O governador Augusto de Lima
encaminhou ao Congresso Mineiro a questão, que reunido em Barbacena,
em sessão de 17 de dezembro de 1893, indicou pela lei n. 3,
adicional à Constituição Estadual, a disposição de que a mudança da
capital ocorresse para local que reunisse as condições ideais. Cinco
localidades foram sugeridas: Juiz de Fora, Barbacena, Paraúna,
Várzea do Marçal e Belo Horizonte. A comissão técnica, chefiada pelo
engenheiro Aarão Reis, julgou em igualdade de condições Belo
Horizonte e Várzea do Marçal, decidindo-se ao final pela última
localidade. Voltou o Congresso a se pronunciar, e depois de novos e
extensivos debates, institui-se que a capital fosse construída nas
terras do arraial de Belo Horizonte.
Inauguração de Belo Horizonte, em 12 de dezembro de 1897.O local
escolhido oferecia condições ideais: estava no centro da unidade
federativa, a 100 km de Ouro Preto, o que muito facilitava a mudança;
acessível por todos os lados embora circundado de montanhas; rico em
cursos d'água; possuidor de um clima ameno, numa altitude de 800
metros. A área destinada à nova capital parecia um grande anfiteatro
entre as Serras do Curral e de Contagem, contando com excelentes
condições climatológicas, protegida dos ventos frios e úmidos do sul
e dos ventos quentes do norte, e arejada pelas correntes amenas do
oriente que vinham da serra da Piedade ou das brisas férteis do
oeste que vinham do vale do Rio Paraopeba. Era um grande vale
cercado por rochas variadas e dobradas, com longa e perturbada
história geológica, solos rasos, pouco desenvolvidos, de várias
cores, às vezes arenosos e argilosos, com idade aproximada de 1
bilhão e 650 milhões de anos.
Em 1893, o arraial foi elevado à categoria de município e capital de
Minas Gerais, sob a denominação de Cidade de Minas. Em 1894, foi
desmembrado do município de Sabará. No mesmo ano, os trabalhos de
construção foram iniciados pela Comissão Construtora da Nova
Capital, chefiada por Aarão Reis, com o prazo de 5 anos para o
término dos trabalhos. Em maio de 1895, Aarão Reis foi substituído
pelo engenheiro Francisco de Paula Bicalho. Ao 12 de dezembro de
1897, em ato público solene, o então presidente de Minas, Crispim
Jacques Bias Fortes, inaugurou a nova capital. A cidade, que já
contava com 10 mil habitantes em sua inauguração, custou aos cofres
estaduais a importância de 36 mil contos de réis. Em 1901, a Cidade
de Minas teve seu nome modificado para o atual, em virtude da
dualidade de nomes, já que o distrito e a comarca se chamavam Belo
Horizonte.
O projeto de Aarão Reis
Projetada pelo engenheiro Aarão Reis entre 1894 e 1897, Belo
Horizonte foi a primeira cidade brasileira moderna planejada.
Elementos chaves do seu traçado incluem uma malha perpendicular de
ruas cortadas por avenidas em diagonal, quarteirões de dimensões
regulares e uma avenida em torno de seu perímetro, a Avenida do
Contorno.
Trecho do relatório escrito por Aarão Reis, engenheiro-chefe da
Comissão Construtora da Nova Capital, sobre a planta definitiva de
Belo Horizonte, aprovada pelo Decreto nº 817 de 15 de abril de 1895:
Foi organizada, a planta geral da futura cidade dispondo-se na parte
central, no local do atual arraial, a área urbana, de 8.815.382 m²,
dividida em quarteirões de 120 m x 120 m pelas ruas, largas e bem
orientadas, que se cruzam em ângulos retos, e por algumas avenidas
que as cortam em ângulos de 45º.
Às ruas fiz dar a largura de 20 metros, necessária para a
conveniente arborização, a livre circulação dos veículos, o trafego
dos carros e trabalhos da colocação e reparações das canalizações
subterrâneas. Às avenidas fixei a largura de 35 metros, suficiente
para dar-lhes a beleza e o conforto que deverão, de futuro,
proporcionar à população (…)''
Planta geral da cidade de Belo Horizonte (1895).Entretanto, Aarão
Reis não queria a cidade como um sistema que se expandiria
indefinidamente. Entre a paisagem urbana e a natural foi prevista
uma zona suburbana de transição, mais solta, que articulava os dois
setores através de um bulevar circundante, a Avenida do Contorno,
bastante flexível e que se integrava perfeitamente na composição
essencial. A concepção do plano fundia as tradições urbanísticas
americanas e europeias do século XIX. O tabuleiro de xadrez da
primeira era corrigido por meio das amplas artérias oblíquas, e
espaços vazios, uma preocupação constante com as perspectivas
monumentais que provinha do Velho Mundo, com marcadas influências de
Haussmann.
Belo Horizonte surgia como uma tentativa de síntese urbana no final
do século XIX. O objetivo de se criar uma das maiores cidades
brasileiras do século XX era atingido. Porém, o plano de Belo
Horizonte pertencia a sua época, seu conceito estava embasado em
fundamentos do século anterior.
O projeto da cidade foi inspirado no modelo das mais modernas
cidades do mundo, como Paris e Washington. Os planos revelavam
algumas preocupações básicas, como as condições de higiene e
circulação humana. A cidade foi dividida em três principais zonas: a
área central urbana, a área suburbana e a área rural.
Praça Sete e Avenida Afonso Pena.A área central urbana receberia
toda a estrutura urbana de transportes, educação, saneamento e
assistência médica, e abrigaria os edifícios públicos dos
funcionários estaduais. Ali também deveriam se instalar os
estabelecimentos comerciais. Seu limite era a Avenida do Contorno,
que à época se chamava 17 de Dezembro. A região suburbana, formada
por ruas irregulares, deveria ser ocupada mais tarde e não recebeu
de imediato a infraestrutura urbana. A área rural seria composta por
cinco colônias agrícolas com inúmeras chácaras e funcionaria como um
cinturão verde, abastecendo a cidade com produtos hortigranjeiros.
Para a concretização do projeto, o arraial de Curral del Rei foi
completamente destruído, com a transferência de seus habitantes para
outro local. Sem condições de adquirir os terrenos valorizados da
área central, os antigos moradores foram empurrados para fora da
cidade, principalmente para Venda Nova. Acreditava-se que os
problemas sociais seriam evitados com a retirada dos operários após
a conclusão das obras, o que na prática não ocorreu. A cidade foi
inaugurada às pressas, ainda inacabada. Os operários, em meio às
obras, não foram retirados e, sem lugar para ficar, formaram favelas
na periferia da cidade juntamente com os antigos moradores do Curral
del Rei.
Comissão Construtora da Nova Capital.A inauguração da cidade
encerrava um período mais do que iniciava outro. Mostrava
preocupações com a pesquisa urbanística, arquitetônica e construtiva
bastante excepcionais para a sua época. Sem dúvida indicou uma
tendência promissora para o urbanismo no Brasil. As novas
construções se opunham ao barroco colonial, tentando apagar as
lembranças do passado. O Brasil independente buscava seu estilo no
ecletismo desse tempo. Os primeiros conjuntos urbanos se definiam. A
Praça da Liberdade aparecia como grande paço municipal, com as
Secretarias de Estado e o Palácio do Governo. O Parque Municipal,
embora com seu traçado inicial modificado, se implantava no local
previsto. A Praça da Estação, a Avenida Santos Dumont, a Rua da
Bahia e a Avenida Afonso Pena faziam parte de diversas imagens de
época que contavam a trajetória da cidade.
A expansão urbana extrapolou em muito o plano original. Quando foi
iniciada sua construção, os idealizadores do projeto previram que a
cidade alcançaria a marca de 100 mil habitantes apenas quando
completasse 100 anos. Em 1997, ano do centenário, a cidade possuía
mais de 2 milhões de pessoas. Essa falta de visão se repetiu em toda
a história da cidade, que jamais teve um planejamento consistente
que previsse os desafios da grande metrópole que se tornaria.
Aos poucos, pequenas fábricas instalaram-se, a energia elétrica
ampliou-se, as obras foram retomadas, os transportes melhoraram e
começaram a surgir praças e jardins que deram uma nova paisagem. O
número de empregos cresceu, chegaram novos habitantes, a vida social
e cultural começou a se agitar. A indústria ganhou impulso na década
de 1920 e inauguraram-se grandes obras, surgiram novos bairros sem
planejamento e, com eles, sérios problemas urbanos.
A expansão
Vista parcial do centro de Belo Horizonte no início da década de
1930. Em primeiro plano, a avenida Afonso Pena.A nova capital foi o
maior problema do governo do Estado no início do regime: construída
após vencer muitos obstáculos, ela permaneceu em relativa estagnação
devido à crise financeira. Ligações ferroviárias com o sertão e o
Rio de Janeiro puseram a cidade em comunicação com o interior e a
capital do país. O desenvolvimento foi mínimo até 1922.
Pelas proclamadas virtudes de seu clima, a cidade tornou-se atrativa,
especialmente para o tratamento da tuberculose: multiplicaram-se os
hospitais, pensões e hotéis, mas até 1930 exerceu função quase
estritamente administrativa. Foi também na década de 1920 que surgiu
em Belo Horizonte a geração de escritores de raro brilho que iria se
destacar no cenário nacional. Carlos Drummond de Andrade, Ciro dos
Anjos, Pedro Nava, Alberto Campos, Emílio Moura, João Alphonsus,
Milton Campos, Belmiro Braga e Abgar Renault se encontravam no Bar
do Ponto, na Confeitaria Estrela ou no Trianon para produzir os
textos que revolucionaram a literatura brasileira.
Nos anos 1930, Belo Horizonte se consolidava como capital, não
isenta de críticas e de louvores. Deixava de ser uma teoria
urbanística para ser uma conquista humana, algo para ser não somente
visto, mas para ser vivido também. Nesta época o município já
contava com 120.000 habitantes e passava por problemas de ocupação,
gerando uma crise de carência de serviços públicos. Necessitava de
um novo planejamento para que se recuperasse a cidade moderna.
Praça Raul Soares em meados da década de 1930.As construções que
mais marcaram este período são o Cine Brasil, de 1931; o Edifício
Chagas Dória, de 1934, do arquiteto Alfredo Marestrof; o Edifício
Ibaté, de 1935, de Ângelo Murgel; o Edifício Sulacap, de 1941, de
Roberto Capello, com sua interessante articulação com o Viaduto de
Santa Teresa; o Edifício Acaiaca, de 1943, de Luís Pinto Coelho; a
Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, de 1935; o Hospital da Santa
Casa, de 1946, e o Edifício do Banco do Brasil, de 1942, ambos de
Raffaelo Berti.
Estas obras representavam um primeiro momento do modernismo na
cidade. Abandonava-se o ecletismo dos anos 1920 em função de um
racionalismo temperado com elementos da art-déco, da Bauhaus, ou
mesmo elementos decorativos de origem indígena, como no Edifício
Acaiaca. Contraditoriamente, Ouro Preto, a cidade espontânea,
apresentava contínuos urbanos muito bem definidos, e Belo Horizonte,
a cidade planejada, se articulava através de seus volumes soltos.
No início da década de 1940, a cidade dobrou sua população, bem mais
do que o previsto pela Comissão Construtora e passou por uma grande
modernização. Consolidava-se a verticalização de sua área central.
Esboçavam-se planos diretores no sentido de reorganizar a expansão
da cidade. Abriam-se novas avenidas de fundo de vale. Tentava-se
cadastrar a cidade. Reconhecia-se a crise habitacional como grave
problema social.
Vista noturna da avenida Afonso Pena em fins da década de 1950.A
década de 1940 trouxe o avanço da industrialização, além da criação
do Complexo Arquitetônico da Pampulha, inaugurado em 1943 por
encomenda do então prefeito Juscelino Kubitschek. O conjunto da
Pampulha reuniu os maiores nomes do modernismo brasileiro, com
projetos de Oscar Niemeyer, pinturas de Portinari, esculturas de
Alfredo Ceschiatti e jardins de Roberto Burle Marx. Ao mesmo tempo,
o arquiteto Sílvio de Vasconcelos também criou muitas construções de
inspiração modernista, notadamente as casas do bairro Cidade Jardim,
que ajudaram a definir a fisionomia da cidade.
Na década de 1950, a população da cidade dobrou novamente, passando
de 350 mil para 700 mil habitantes. Como resposta ao crescimento
desordenado da cidade, o prefeito Américo René Gianetti deu início à
elaboração de um Plano Diretor para Belo Horizonte.
Na década de 1960, muitas demolições foram feitas, transformando o
perfil da cidade, que passou, então, a ter arranha-céus e asfalto no
lugar de árvores. Belo Horizonte ganhou ares de metrópole. A
conurbação da cidade com municípios vizinhos se ampliou.
Ainda na década de 1960, a cidade atingiu mais de 1 milhão de
habitantes. Nessa época, os espaços vazios do município praticamente
se esgotaram, e o crescimento populacional passou a se concentrar
nos municípios conurbados a Belo Horizonte, como Sabará, Contagem,
Betim, Ribeirão das Neves e Santa Luzia. Na tentativa de resolver os
problemas causados pelo crescimento desordenado, foi instituída a
Região Metropolitana de Belo Horizonte e foi criado o Plambel, que
desencadeou diversas ações visando a conter o caos metropolitano.
A história recente
A Praça do Papa.
Praça da Liberdade.A década de 1980 foi marcada pela valorização da
memória da cidade, com a alteração na orientação do crescimento.
Vários edifícios de importância histórica foram tombados. Foi
iniciada a implantação do metrô de superfície. Iniciada em 1984 e
concluída em 1997, a canalização do Ribeirão Arrudas pôs fim ao
problema das enchentes ao centro da capital. Contudo, vários
problemas surgiram e alguns permaneceram. Um deles foi a degradação
da Lagoa da Pampulha, um dos principais cartões-postais da cidade,
que se tornara uma lagoa praticamente morta devido à poluição de
suas águas.
Em 1980, aproximadamente 850.000 pessoas tomaram a então Praça
Israel Pinheiro (conhecida como Praça do Papa) para receber o
próprio Papa João Paulo II. Diante da multidão de fiéis e da vista
privilegiada da cidade, o papa ali exclamou: "Pode-se olhar as
montanhas e Belo Horizonte, mas sobretudo quando se olha para vocês,
é que se deve dizer: que belo horizonte!", o que provavelmente
colaborou para que a praça ficasse conhecida hoje por este nome.
A cidade foi palco ainda de grandes manifestações visando a queda da
ditadura militar no Brasil, sob a liderança de Tancredo Neves, na
época governador do estado. A fisionomia urbana foi novamente
alterada com a proliferação de prédios em estilo pós-moderno,
especialmente na afluente Zona Sul da cidade, graças à influência de
um grupo de arquitetos liderado por Éolo Maia. Na mesma década, a
cidade também passou a ser servida pelo Aeroporto Internacional de
Confins, localizado no município de Confins, a 38 km do centro da
capital.
A cidade moldada pela Serra do Curral.A década de 1990 foi marcada
pela valorização dos espaços urbanos e pelo reforço da estrutura
administrativa do município, com a aprovação em 1990 da Lei Orgânica
do Município e do Plano Diretor da cidade, em 1996. A gestão
municipal se democratizou com a realização anual do Orçamento
participativo. O desafio ainda em curso diz respeito ao
fortalecimento da gestão integrada da Região Metropolitana de Belo
Horizonte, que reúne 34 municípios que devem cooperar entre si para
a resolução de seus problemas comuns. Espaços públicos como a Praça
da Liberdade, a Praça da Assembleia e o Parque Municipal, que se
encontravam abandonados e desvalorizados, foram recuperados e a
população voltou a frequentá-los e a cuidar de sua preservação.
Nesta primeira década do século XXI, Belo Horizonte tem se destacado
pelo desenvolvimento do setor terciário da economia: o comércio, a
prestação de serviços e setores de tecnologia de ponta (destaque
para as áreas de biotecnologia e informática). Alguns dos
investimentos recentes nesses setores são a implantação do Parque
Tecnológico de Belo Horizonte, do Centro de Pesquisa e
Desenvolvimento do Google para a América Latina e do moderno centro
de convenções Expominas. O turismo de eventos, com a realização de
congressos, convenções, feiras, eventos técnico-científicos e
exposições, tem fomentado o crescimento dos níveis de ocupação da
rede hoteleira e do consumo dos serviços de bares, restaurantes e
transportes. A cidade também vem experimentando sucesso no setor
artístico-cultural, principalmente pela políticas públicas e
privadas de estímulo desse setor, como a realização de eventos fixos
em nível internacional e o crescimento do número de salas de
espetáculos, cinemas e galerias de arte. Por tudo isso, a cada ano a
cidade se consolida como um novo polo nacional de cultura.
Fonte: Wikipedia
Mais historia
Como nasciam as antigas cidades coloniais brasileiras e por que as
Igrejas Matriz eram tão significativas para os povoamentos? A Igreja
Matriz da Boa Viagem de Curral de El-Rey era o centro de um antigo
arraial que foi desmantelado para a construção de Belo Horizonte. O
edifício foi inicialmente preservado, mas alguns anos após a
inauguração da nova capital de Minas sofreu significativas alterações,
tendo sido finalmente demolido em 1932, assim como nas décadas
seguintes seria demolida a quase totalidade dos belos exemplares com
que os vários estilos arquitetônicos foram presenteando a cidade.
O Arraial de Curral de El-Rey
Em 1701 O bandeirante
João Leite da Silva Ortiz teria chegado à Serra das Congonhas,
correspondente à atual Serra do Curral, marca da paisagem atual de
Belo Horizonte. Em 1711 este bandeirante paulista obteve Cartas de
Sesmarias, que lhe davam direitos sobre uma grande porção do atual
município de Belo Horizonte, onde estava organizando uma fazenda de
engorda de bois, chamada Cercado. Nas suas terras também crescia um
arraial, ou seja, um pequeno povoamento, que era denominado, em 1707,
de Curral de El-Rey, pois próximo dali existia também um registro onde
se pagavam taxas reais e era controlado o deslocamento do gado.
Em
1718 o povoado de Curral de El-Rey foi elevado a freguesia e ao fim do
século dezenove, próximo à sua destruição, era conhecido como "Bello
Horisonte". Era ainda um distrito da cidade de Sabará e tinha uma
população de aproximadamente 2.650 pessoas. Em 1893, depois de
desapropriar e demolir todo o arraial, o
engenheiro Aarão Reis construiu ali a primeira cidade projetada do
Brasil, que inicialmente recebeu o nome de Cidade de Minas, até que em
1901, quatro anos após sua inauguração, passou a ser denominada de
Belo Horizonte, como fora o antigo arraial.
A fotografia acima mostra um trecho da Rua Marechal
Deodoro, posicionada aproximadamente como a atual avenida Afonso Pena.
Ve-se a parte posterior da Matriz da Boa Viagem, e ao fundo a Serra do
Curral. Abaixo, em outra foto, uma vista privilegiada da Praça da
Matriz, centro do arraial, como se apresentava em 1894. Sobre a
impressão que naquele ano tinha-lhe causado uma visita ao lugarejo,
escreveu o arquiteto Alfredo Camarate, membro da equipe de construção
da nova capital:
"Ao
cabo de quatro horas de viagem (...) divisamos a povoação de Belo
Horizonte, incrustada numa mata verde-negra e densíssima dentre a qual
emergiam os campanários da igreja, construída nas primitivas
simplicidades da arquitetura. Mas a viagem começa a apresentar uma
feição absolutamente diferente. Enveredamos por uma rua extensíssima,
muito larga, muito parecida com alguns caminhos de certas povoações da
África Ocidental. Umas casas muito humildes com aparências de cubatas
e, nos intervalos das casas, longos muros de barro vermelho,
assombreados por árvores frutíferas. Mas tudo aquilo muito limpo,
muito alinhado e sempre da mesma forma e com o mesmo encanto se chega
a Belo Horizonte; um belo horizonte na realidade!"
A rua extensíssima a
que ele se referia era certamente a Rua Sabará, que correspondia, em
parte, à atual Rua Niquelina em Santa Efigênia. A Rua Sabará, a
principal do arraial, na realidade era um grande caminho que cortava
longitudinalmente quase todo o arraial e desembocava no Largo da
Matriz, onde atualmente existe a Catedral da Boa Viagem. O centro
principal do arraial consolidado ao redor do Largo da Matriz, era o
ponto de convergência dos principais caminhos que cruzavam aquele
agrupamento de casas. Eram estradas de chão que prosseguiam do arraial
para outros povoamentos de maior importância, existentes nas
redondezas, como Sabará, Venda Nova, Villa Nova de Minas, e também
para as sedes das grandes propriedades rurais que se formaram e
circundavam o núcleo urbano.
A
planta do primitivo núcleo urbano tinha um traçado irregular, típico
das pequenas vilas surgidas durante o período colonial: ruas compridas
e tortuosas, como caminhos ao longo dos quais se assentava o casario.
O poeta Olavo Bilac em artigo no Minas Gerais de 25 de agosto
de 1916 escrevia:
"Era ao cair de
uma tarde de janeiro de 1894. Depois de viajar algumas léguas do
sertão mineiro (...) cheguei a estas planícies esplêndidas (...). A
imensa arena brava abria-se para o oriente, encostada ao sul, à
lombada do Curral e ao norte à da Contagem. O sol deixara no céu o
cruor do seu holocausto. Um dobre de sino embalava a tarde. Uma doce
melancolia enfeitiçava o ar. E, com as primeiras sombras, entrei no
povoado, estirando no centro do chapadão a haste longa e as traves
curtas de sua edificação em T, pequeno burgo de cem fogos. As ruas
rudimentares eram quatro: a de Sabará, a de Deodoro, a do Capão e a de
Congonhas. Uma praça larga, mal achanada, com um alto cruzeiro de
madeira, rasgava em frente à igreja tosca. Perto, à volta da aldeia,
algumas culturas e alguns curtumes, testemunhando o trabalho da gente
simples; e, longe, moldura imensa, os matagais brenhosos, os montes
ásperos, Santa Cruz, Lagoa Seca e o acaba Mundo..."
Também Charley
Lachmund, em Vozes de Petrópolis de maio-jun de 1946 registrou
a seguinte descrição do arraial:
(...)Ao centro desse vale monótono e abandonado
pela cultura, uma pequena igreja com duas torres, no estilo
característico dos jesuítas, rodeada dum complexo de casas modestas de
tijolo e cobertas de telha: a igreja e a cidadezinha de "Nossa Senhora
de Boa Viagem" no arraial de "Curral d'El Rei", o berço de Belo
Horizonte."
As cidades coloniais brasileiras surgiam e
desenvolviam-se sem um planejamento prévio, condicionadas, quase
sempre, pelas características topográficas do sítio. No arraial de
Curral de El-Rey a forma do tecido urbano era decorrente tanto da
topografia, como da existência do Rio Arrudas com sua bacia e os
vários cursos d'água que a ela afluíam. A forma espontânea como a
cidade desenvolvia-se emprestava-lhe grande graça.
A fundação de
uma cidade colonial nas minas gerais
Durante o período
colonial brasileiro a estreita relação existente entre o Estado
português e a Igreja era um fator de significativa importância, que
influenciava tanto o desenvolvimento da organização urbana, quanto o
caráter da arquitetura, e em especial da sua vertente religiosa. Na
faixa litorânea do território brasileiro, eram as grandes ordens
religiosas européias, como os jesuítas, franciscanos, carmelitas e os
beneditinos que construíam, com recursos próprios, as Igrejas,
conventos, monastérios e os grandes colégios. Para tanto, importavam
não somente os projetos mas muitas vezes a quase totalidade dos
materiais de construção utilizados nos edifícios.
Porém, na região das
minas gerais, o processo ocorreu de modo diferente. Cartas Régias
emanadas pela Coroa portuguesa em 1711 e em anos posteriores proibiram
o estabelecimento das ordens religiosas. Estas ordens permaneceram,
portanto, restritas à faixa costeira da Colônia, mas isto não impediu
que nas diversas cidades coloniais das minas a arquitetura se
manifestasse, através do surgimento, em profusão, de capelas e igrejas,
muitas das quais com características bastante criativas.
No entanto, em Minas,
como em todo o Brasil colonial, não surgiu uma arquitetura que possa
ser caracterizada como totalmente original. O que aconteceu foi uma
adaptação do modelo europeu, ao qual se juntou elementos das arte e
das técnicas asiáticas e africanas. Na região das minas, a ausência
das ordens religiosas foi compensada pela maior operosidade que
tiveram as chamadas Irmandades, Confrarias e Ordens Terceiras, que
eram associações de caráter religioso e social, congregando
determinados grupos de indivíduos que se distinguiam pela classe
social, profissão ou cor da pele. Foram estes agrupamentos, através da
construção de seus templos, expressando seu desejo de diferenciação e
algumas vezes as rivalidades existentes, que favoreceram o
desenvolvimento de uma intensa e original atividade artística, com
grande grau de criatividade e não restrita somente à arquitetura, mas
englobando também a pintura a escultura, literatura e a música.
Inicialmente, quando
do nascimento de uma vila, a prioridade era a construção de uma
primitiva capela, geralmente em um local que se tornava a praça
principal do lugarejo. Este primeiro templo tornava-se a referência
para todos os habitantes, que geralmente estavam acomunados pelas
mesmas aspirações. Em seguida, o natural crescimento do lugar conduzia
a uma evidente diferenciação social e o vigário, ou os chamados "homens
bons" do local, ou seja os brancos, ricos, e tidos como de bom caráter,
organizavam duas associações religiosas nas quais deveriam-se agrupar
os componentes das duas classes que basicamente formavam a população.
A primeira associação correspondia aos interesses dos homens ricos e
dos portugueses e a outra aos dos pobres e dos negros escravos ou
livres. Estas associações eram, portanto, fortemente caracterizadas
pela composição social dos seus membros. Às chamadas Irmandades do
Santíssimo Sacramento correspondiam sempre as classes sociais mais
ricas e influentes e, em oposição, as Irmandades de Nossa Senhora do
Rosário eram dirigidas pelos pobres. Porém, esta composição inicial
não era rígida e quando o desenvolvimento da povoação a tornava ainda
mais complexa, surgindo novas categorias intermediárias, também novas
ordens terceiras ou confrarias nasciam, cada uma almejando afirmar seu
prestígio através da construção de templos cada vez mais imponentes e
ricos.
As classes sociais de
maiores recursos, através da irmandade mais poderosa, geralmente a do
Santíssimo Sacramento, promovia a substituição da primitiva capela por
uma Igreja maior chamada Matriz. A Irmandade do Santíssimo Sacramento
era normalmente dedicada a Nossa Senhora, nas suas diversas
manifestações. Acontecia ainda, que outros agrupamentos sociais,
enquanto desprovidos de recursos para a construção de seu templo,
continuassem, pelo tempo necessário, a freqüentar a Matriz, onde
mantinham altares nas laterais da nave, dedicados a seus santos
prediletos.
As Igrejas mineiras
eram construídas por etapas, assumindo a sua forma definitiva após
muitas modificações e acréscimos que ocorriam durante o decorrer dos
anos. Os recursos financeiros para as obras vinham tanto de esmolas
quanto das associações religiosas, através de seus membros mais
generosos. Portanto, era comum que se construísse inicialmente somente
a parte correspondente à sacristia e à capela-mor, que eram cobertas,
sendo o edifício provisto de uma fachada provisória. A obra continuava
pouco a pouco com a construção da nave, a ornamentação do interior, a
execução das fachadas, do telhado definitivo, das torres sineiras e de
outras obras.
A lenta construção e
demolição da Igreja Matriz da Boa Viagem
Em Curral de El-Rey
foi erguida, nos primeiros anos, uma primitiva capela dedicada a Nossa
Senhora da Boa Viagem, chamada assim porque homenageava a protetora
dos tropeiros e viajantes que tinham o local como um posto de descanso,
nas suas longas viagens, não raro conduzindo o gado desde o sertão da
Bahia até as cidades das minas. Esta capela teria sido demolida em
1755 ou pouco antes, cedendo lugar a uma imponente igreja matriz, que
foi completamente terminada somente em 1793, cerca de quarenta anos
após o início das obras.
A
Igreja apresentava planta retangular, tipo basílica. As fotografias da
antiga Matriz a retratam composta dos três elementos característicos
dos templos mineiros: A nave, a capela-mor e a sacristia. Ao lado da
nave, dois outros volumes mais baixos tinham junto de sua parte
anterior duas torres sineiras quadradas. A fachada seguia o esquema
típico dos templos mineiros: o triângulo invertido formado pela porta
principal e pelas duas janelas rasgadas-por-inteiro do coro. O frontão
triangular, em que se abria um óculo de formas trabalhadas, coroava a
parte superior.
Ao contrário da quase
totalidade das construções existentes no antigo arraial, que foram
demolidas para a implantação da nova cidade planejada por Aarão Reis,
a Matriz foi preservada por um período de trinta e cinco anos, em
decorrência da resistência que inicialmente colocou a Arquidiocese de
Mariana, ao negar a autorização de demolição dos templos existentes,
antes que se construíssem outros novos. O então velho edifício
colonial, que por esta decisão burocrática, sobreviveu ao
desaparecimento repentino de um inteiro tecido colonial, do qual era o
ponto emergente, veio a sucumbir totalmente somente em 1932, estando
já iniciada a construção de uma nova Matriz em estilo neo-gótico, que
hoje domina a praça da Boa Viagem. No trecho abaixo, as palavras de
Pedro Nava em 1985, onde relata o que presenciou e a sensação que
sentiu durante o período em que era demolida a antiga Igreja da Boa
Viagem:
" Nessa ocasião a primeira
(A primitiva Igreja Matriz, em 1911) estava sendo
demolida e a recente já em funcionamento, posto que ainda por concluir.
Vi com meus olhos, estes olhos que a terra há de comer, o velho já sem
telhado e seus arquivos postos fora na sacristia meio derrubada onde o
sol e a chuva acabavam com aquela papelada, testemunhos dos casamentos,
batizados dos curralenses."
Os idealizadores e
construtores de Belo Horizonte sonhavam com uma moderna cidade-capital
para Minas, que poderia mesmo vir a transformar-se em capital do
próprio Brasil. Veja-se neste sentido o que escreveu Arthur Azevedo em
1901:
" (...)formoso planalto, tão
bem escolhido para capital de um grande Estado e que poderia ser - por
que não dizê-lo, quando todos o sentem? a própria Capital da República."
Também a este respeito escreveu
Machado de Assis:
" Chama-se Belo Horizonte. Eu
se fosse Minas, mudava-lhe a denominação. Belo Horizonte parece antes
uma exclamação que um nome. ...Quanto à nova capital da República, não
é mister lembrar que já está escolhido o território, faltando só a
obra de construção e da mudança, que não é pequena."
Contudo
era em consonância com as idéias de renovação e progresso, de cunho
positivista, muito fortes na época, que foi decidida a substituição
Matriz, cujo estilo "de primitiva simplicidade", secundo Camarate, se
identificava com o precedente período colonial, opondo-se às
modernidades da República, da qual era a nova capital o símbolo. Vê-se,
na fotografia feita pouco antes do ano de 1911, a Igreja ainda intacta,
inserida na malha da nova cidade. Seu entorno já apresentava algumas
alterações preanunciando a remodelação do espaço e a total eliminação
do edifício. Ao fundo destacam-se os novos edifícios que se iam
erguendo e modificando a paisagem colonial.
Arthur Azevedo, em
1901, deixa seu interessante depoimento sobre a destruição do arraial
de Curral d'El Rei:
"Ao meu espírito, ao meu
temperamento de "touriste", faltava alguma coisa; a vetustez. Era
novo, novinho em folha, tudo quanto eu via; as ruas, as casas, os
próprios habitantes, pois é raro encontrar-se alí pessoas velhas.(...)
- "Que diabo! façam-me ver alguma coisa velha!" disse aos obsequiosos
cicerones.
- Pois bem, vamos fazer-lhe a vontade mostrando a velha matriz da
freguesia do Curral d'El Rei. E, é contentar-se com isso; não temos
nada mais velho! Dirigimos-nos então à Igrejinha, que alí está,
isolada e tristonha, como uma sentinela perdida no passado. (...) Foi
pena que destruíssem tudo quanto era o antigo Curral d'El Rei e não
ficasse ali um bairro, uma rua, um alpendre do velho arraial, que
lembrasse, embora incompletamente, a fisionomia do passado. Pelo que
vi das fotografias tiradas pelo sr. Soucasseaux e dos quadros de
Emílio Rouède, que se acham na Prefeitura, havia no arraial alguma
coisa que merecia ficar.
Certamente, se
procurarmos ver a questão sob uma visão atual, de crescente
consciência da importância do patrimônio cultural, podemos nos
convencer que o edifício poderia ter sido preservado, sem que isto
trouxesse qualquer incoveniente de ordem física ou econômica para nova
cidade: o uso religioso que se fazia do edifício era a principal
garantia para a sua preservação. No entanto, é interessante notar que
o forte referencial simbólico que exercia a Matriz e a Praça impediu
que o espaço fosse totalmente desprezado. Aarão Reis desenhou e locou
a planimetria de Belo Horizonte de modo a preservar a Praça da Matriz,
que resultou inserida em um quarteirão inteiro da nova malha urbana.
Naquele período,
menos ainda do que atualmente, era muito pouco difusa e valorizada a
noção de preservação e valor histórico e cultural dos bens. A este
respeito é curioso notar que foi exatamente durante a década de trinta,
em que a indiferença generalizada não impediu a demolição do templo,
que os legisladores brasileiros dotaram o Brasil de avançadíssimos
instrumentos para a defesa dos bens culturais. Uma lei emanada por
Minas Gerais em 1925, havia promovido a catalogação dos bens móveis e
determinado a preferência a ser dada ao estado para na compra destes
bens. Em 1933, pela primeira vez no mundo, uma cidade, Ouro Preto, foi
declarada monumento nacional e a constituição de 1934 previa a tutela
dos bens, tendo em 1937 sido criado o Serviço do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, SPHAN, o que colocou o Brasil entre os países
pioneiros neste tipo de legislação.
A descaracterização do edifício da antiga Matriz, tinha começado aos
poucos, em 1911, quando Belo Horizonte era ainda uma capital
recém-inaugurada. Teriam a Irmandade do Santíssimo Sacramento e o
pároco local promovido a demolição da parte frontal do edifício,
correspondente às torres sineiras, que estariam em precárias condições
estáticas. A fachada principal foi radicalmente modificada, e pelas
observações e comparações entre fotografias existentes, nota-se que
provavelmente a reforma incluiu a demolição de toda uma parte da
edificação. Com certeza foram retiradas as torres sineiras e
eliminadas as duas janelas-rasgadas-por-inteiro do coro, substituídas
por duas pequenas janelas geminadas. A intervenção criou uma
composição nova, que nada tinha das características do colonial
mineiro. Na fotografia ao lado, vê-se o aspecto que assumiu o edifício
após as modificações feitas na fachada, consonantes com o padrão
estético dos novos edifícios que então eram construídos na cidade.
O plano barroco de
Aarão Reis para Belo Horizonte, inspirado nas intervenções realizadas
em 1853 na Paris de Haussmann, e em exemplos de novas cidades capitais,
como a Washington projetada por L'Enfant, perseguia antes de tudo o
espaço amplo, a localização privilegiada dos edifícios públicos, e a
monumentalidade, usando de recursos como os "efeitos de visibilidade",
ou seja, os edifícios de maior importância deveriam ser construídos no
cruzamento de grandes avenidas. Em Belo Horizonte a catedral da cidade
seria construída no cruzamento das avenidas Contorno com Afonso Pena,
local chamado na época "alto do Cruzeiro", hoje Praça Milton Campos.
Alfredo Camarate, em 1894, escrevia sobre o andamento das obras da
nova capital e a filosofia do plano urbanístico:
"A
grande avenida (Avenida Afonso Pena), que parte da base até o alto do
Cruzeiro, vai locar-se em breve. E dizem-me que esta locação é
definitiva; arrasando-se prédios, cafuas, tudo quanto possa obstar à
sua completa instalação no terreno. E como essa avenida venha a ser a
'mestra'. sobre o alinhamento da qual se hão de traçar as demais ruas,
a obra vai ser feita com as exatidões meticulosas de um verdadeiro
trabalho científico. Que soberba e majestosa deve ficar esta avenida,
larga e extensíssima, tendo no vértice do seu ângulo perspectivo o
majestoso templo que deve coroar a pequena crista do Cruzeiro."
A atual catedral da
Boa Viagem, vista na fotografia ao lado, não foi construída no local
pré determinado no plano: o alto do Cruzeiro, mas sobre os escombros
da antiga Matriz, que em sua simplicidade arquitetônica e
perfeitamente adaptada ao seu entorno, materializava o espírito do
lugar ("genius loci").
Até
o início dos anos 30, a velha igrejinha ainda resistia "tristonha" no
centro do antigo arraial, reforçando a significação do local. Por isto,
foi naquela praça transformada em secundária pelo traçado urbano da
nova cidade, que identificou-se os elementos espirituais que definiam
a identidade do lugar, fatores que naquele momento foram mais fortes
que as imposições conceituais do plano urbanístico de Aarão Reis, que
elegia os espaços abertos, plenos de "efeitos de visibilidade", como
os ideais para a construção de edificações importantes.
Tendo sido reerguida
em estilo neo-gótico e apesar de sua beleza, a catedral atual é um
templo pequeno, cuja nave, em tamanho, se compara à da antiga Matriz.
Visivelmente não é uma edificação que domina seu entorno. Envolvida
por frondosas árvores, enormes edifícios e limitada por vias
secundárias, não transmite a monumentalidade, própria do gótico. Além
disto a leitura do edifício torna-se difícil por inexistir pontos de
vista privilegiados.
Outros templos
existentes no arraial, foram sumariamente eliminados. A capela de
Nossa Senhora do Rosário, pertencente à Ordem Terceira do Rosário dos
Negros, situava-se em uma outra praça secundária do Arraial de Curral
de El-Rey. Foi demolida em 1897, ano da inauguração da capital de
Aarão Reis. Outra pequeníssima capela dedicada a Sant'Ana, foi
demolida em 1894.
Engenheiro
Arquiteto, pela UFMG e Dottore in Architettura pelo
Politecnico di Milano.
(**)O texto é baseado em parte da tese de graduação: Fondazione e
crescita della città brasiliana. Milano, Politecnico di Milano,
1993, desenvolvida com a orientação do Prof. Alberto Mioni.
Cidade de Minas para Belo Horizonte alterado pela lei estadual nº 302,
de 01-07-1901. Continua
Fonte: IBGE www.pbh.gov.br acessado em 1º/09/2008
www.descubraminas.com.br acessado em 1º/09/2008
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