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Historia de Belo Horizonte

 
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Anunciar no Ache Tudo e Região é certo que será visto.

 

A fundação da capital

Capitão João Leite da Silva Ortiz, fundador de Curral del Rei.
Antiga Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem do Curral.Na imensa faixa de terras ao largo do Rio das Velhas assenhoradas pelo bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva (mais tarde Anhanguera II), veio seu primo e futuro genro João Leite da Silva Ortiz à procura de ouro a ocupar em 1701 a Serra dos Congonhas (mais tarde Serra do Curral) e suas encostas, em que estabeleceu a Fazenda do Cercado, base do núcleo do Curral del Rei, onde desenvolveu uma pequena plantação e criou gado, com numerosa escravatura. O povoamento aos poucos foi se firmando, de forma tal que em 1707 já aparecia citada em documentos oficiais. Em 1711, a carta de sesmaria é obtida por Ortiz, com a concessão da área que "começava do pé da Serra do Curral, até a Lagoinha, estrada que vai para os currais da Bahia, que será uma légua, e da dita estrada correndo para o rio das Velhas três léguas por encheio". Conforme trecho da carta de sesmaria, à ortografia da época, concedida por Antônio Albuquerque Coelho de Carvalho:

 

Faço saber aos q'. esta minha Carta de Sesmaria virem q', havendo respto. ao q'. por sua petição me enviou a dizer João Leyte da Silva, q'. ele suppte., em o ano passado de 1701 fabricou fazenda em as minas no distrito do Rio das Velhas em a paragem aonde chamão o Sercado, e na dita fazda. teve plantas e criações, de que sempre pagou dízimos e situou gado vacum, tudo em utelidade da fazenda real e conveniência dos minros. (…)


Ortiz dedicou-se especialmente ao plantio de roças, criação e negociação de gado, trabalhos de engenho e, provavelmente, a mineração de ouro nos córregos. O progresso da fazenda atraiu outros moradores e um arraial começou a se formar, tornando-se um dos pontos de concentração dos rebanhos transitados pelo registro das Abóboras, vindos do sertão da Bahia e do São Francisco para o abastecimento das zonas auríferas.

Apoiado na pequena lavoura, na criação e comercialização de gado e na fabricação de farinha, o arraial progrediu. A topografia da região favoreceu o estabelecimento de uma povoação dada à agricultura e à vida pastoril. Os habitantes deram o nome de Curral del Rei, por causa do cercado ou curral ali existente, em que se reunia o gado que havia pago as taxas do rei, segundo a tradição corrente. O arraial contava com umas 30 ou 40 cafuas cobertas de sapé e pindoba, entre as quais foi erguida uma capelinha situada à margem do córrego Acaba-Mundo (onde hoje se encontra a catedral), tendo à frente um cruzeiro e ao lado um rancho de tropas.

Algumas poucas fábricas, ainda primitivas, instalaram-se na região, donde se produzia algodão e se fundia ferro e bronze. Das pedreiras, extraía-se granito e calcário, e frutas e madeiras eram comercializadas para outros locais. Das trinta ou quarenta famílias inicialmente existentes, a população saltou para a marca de 18 mil habitantes.

Em 1750, por ordem da Coroa, foi criado o distrito de Nossa Senhora da Boa Viagem do Curral, então sede da freguesia do mesmo nome instituída de fato em 1718 em torno de capela ali construída pelo Padre Francisco Homem, filho de Miguel Garcia Velho. Elevado à condição de freguesia em 1780, mas ainda subordinado a Sabará, o Curral del Rei englobava as regiões (ou curatos) de Sete Lagoas, Contagem, Santa Quitéria (Esmeraldas), Buritis, Capela Nova do Betim, Piedade do Paraopeba, Brumado, Itatiaiuçu, Morro de Mateus Leme, Neves, Aranha e Rio Manso. No centro do arraial, os devotos ergueram a Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem. Com a extinção dos curatos, a jurisdição do Curral del Rei viu-se novamente reduzida ao primeiro arraial, com sua população de 2.500 habitantes, que chegou a 4.000 moradores já ao fim do século XIX.

Vilarejo de Belo Horizonte de 1930


O seguinte trecho do relatório enviado à Cúria de Mariana pelo vigário Pe. Francisco de Paula Arantes, conservada a ortografia, relata a paisagem característica da região à época:

A Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem de Curral del Rei está situada em campos amenos na extensa planície de sua serra donde manão imensas fontes de cristalinas e saborosas águas; o clima da região he temperado; a atmosphera he salutifera; está circulada de pedras e mais materiais onde se podem fazer soberbos edifícios; a natureza criou este logar para sua formosa e linda cidade, si algum dia for auxiliada esta lembrança.


O Arraial de Curral del Rei (1896).Porém, enquanto Vila Rica, Sabará, Serro Frio e outros núcleos mineradores se constituíam em centros populosos e ricos, Curral del Rei e sua vocação para o comércio do gado sertanejo estacionou em seu desenvolvimento, não oferecendo lucro que fixasse ao solo uma população como a de outros lugares. O apogeu de Ouro Preto perdurou até o fim do século XVIII, quando as jazidas esgotaram-se e o ciclo do ouro deu lugar à pecuária e agricultura, criando novos núcleos regionais e inaugurando uma nova identidade estadual.
 

Belo Horizonte 1930


A região de montanhas negras que vai de Ouro Preto à região do Curral del Rei, com uma área de aproximadamente 7.160 km² e reservas próximas a 29 bilhões de toneladas de minério de ferro, formam o local conhecido como Quadrilátero Ferrífero. Para entrar na era que então se anunciava, deixando para trás o passado monárquico, os sócios do Clube Republicano do arraial propuseram a mudança de seu nome para Belo Horizonte. Assim, em 1890, o arraial do município de Sabará tornou-se Belo Horizonte.

A então capital de Minas Gerais, a cidade de Ouro Preto, não apresentava alternativas viáveis ao desenvolvimento físico urbano, o que gerou a necessidade da transferência da capital para outra localidade. Com a República e a descentralização federal, as capitais tiveram maior relevo: ganhava vigor a ideia de mudança da sede do governo mineiro, pois a antiga Ouro Preto era travada pela topografia.


Comissão Construtora no campo de obras.O governador Augusto de Lima encaminhou ao Congresso Mineiro a questão, que reunido em Barbacena, em sessão de 17 de dezembro de 1893, indicou pela lei n. 3, adicional à Constituição Estadual, a disposição de que a mudança da capital ocorresse para local que reunisse as condições ideais. Cinco localidades foram sugeridas: Juiz de Fora, Barbacena, Paraúna, Várzea do Marçal e Belo Horizonte. A comissão técnica, chefiada pelo engenheiro Aarão Reis, julgou em igualdade de condições Belo Horizonte e Várzea do Marçal, decidindo-se ao final pela última localidade. Voltou o Congresso a se pronunciar, e depois de novos e extensivos debates, institui-se que a capital fosse construída nas terras do arraial de Belo Horizonte.


Inauguração de Belo Horizonte, em 12 de dezembro de 1897.O local escolhido oferecia condições ideais: estava no centro da unidade federativa, a 100 km de Ouro Preto, o que muito facilitava a mudança; acessível por todos os lados embora circundado de montanhas; rico em cursos d'água; possuidor de um clima ameno, numa altitude de 800 metros. A área destinada à nova capital parecia um grande anfiteatro entre as Serras do Curral e de Contagem, contando com excelentes condições climatológicas, protegida dos ventos frios e úmidos do sul e dos ventos quentes do norte, e arejada pelas correntes amenas do oriente que vinham da serra da Piedade ou das brisas férteis do oeste que vinham do vale do Rio Paraopeba. Era um grande vale cercado por rochas variadas e dobradas, com longa e perturbada história geológica, solos rasos, pouco desenvolvidos, de várias cores, às vezes arenosos e argilosos, com idade aproximada de 1 bilhão e 650 milhões de anos.

Em 1893, o arraial foi elevado à categoria de município e capital de Minas Gerais, sob a denominação de Cidade de Minas. Em 1894, foi desmembrado do município de Sabará. No mesmo ano, os trabalhos de construção foram iniciados pela Comissão Construtora da Nova Capital, chefiada por Aarão Reis, com o prazo de 5 anos para o término dos trabalhos. Em maio de 1895, Aarão Reis foi substituído pelo engenheiro Francisco de Paula Bicalho. Ao 12 de dezembro de 1897, em ato público solene, o então presidente de Minas, Crispim Jacques Bias Fortes, inaugurou a nova capital. A cidade, que já contava com 10 mil habitantes em sua inauguração, custou aos cofres estaduais a importância de 36 mil contos de réis. Em 1901, a Cidade de Minas teve seu nome modificado para o atual, em virtude da dualidade de nomes, já que o distrito e a comarca se chamavam Belo Horizonte.

O projeto de Aarão Reis
Projetada pelo engenheiro Aarão Reis entre 1894 e 1897, Belo Horizonte foi a primeira cidade brasileira moderna planejada. Elementos chaves do seu traçado incluem uma malha perpendicular de ruas cortadas por avenidas em diagonal, quarteirões de dimensões regulares e uma avenida em torno de seu perímetro, a Avenida do Contorno.

Trecho do relatório escrito por Aarão Reis, engenheiro-chefe da Comissão Construtora da Nova Capital, sobre a planta definitiva de Belo Horizonte, aprovada pelo Decreto nº 817 de 15 de abril de 1895:

Foi organizada, a planta geral da futura cidade dispondo-se na parte central, no local do atual arraial, a área urbana, de 8.815.382 m², dividida em quarteirões de 120 m x 120 m pelas ruas, largas e bem orientadas, que se cruzam em ângulos retos, e por algumas avenidas que as cortam em ângulos de 45º.
Às ruas fiz dar a largura de 20 metros, necessária para a conveniente arborização, a livre circulação dos veículos, o trafego dos carros e trabalhos da colocação e reparações das canalizações subterrâneas. Às avenidas fixei a largura de 35 metros, suficiente para dar-lhes a beleza e o conforto que deverão, de futuro, proporcionar à população (…)''



Planta geral da cidade de Belo Horizonte (1895).Entretanto, Aarão Reis não queria a cidade como um sistema que se expandiria indefinidamente. Entre a paisagem urbana e a natural foi prevista uma zona suburbana de transição, mais solta, que articulava os dois setores através de um bulevar circundante, a Avenida do Contorno, bastante flexível e que se integrava perfeitamente na composição essencial. A concepção do plano fundia as tradições urbanísticas americanas e europeias do século XIX. O tabuleiro de xadrez da primeira era corrigido por meio das amplas artérias oblíquas, e espaços vazios, uma preocupação constante com as perspectivas monumentais que provinha do Velho Mundo, com marcadas influências de Haussmann.

Belo Horizonte surgia como uma tentativa de síntese urbana no final do século XIX. O objetivo de se criar uma das maiores cidades brasileiras do século XX era atingido. Porém, o plano de Belo Horizonte pertencia a sua época, seu conceito estava embasado em fundamentos do século anterior.

O projeto da cidade foi inspirado no modelo das mais modernas cidades do mundo, como Paris e Washington. Os planos revelavam algumas preocupações básicas, como as condições de higiene e circulação humana. A cidade foi dividida em três principais zonas: a área central urbana, a área suburbana e a área rural.


Praça Sete e Avenida Afonso Pena.A área central urbana receberia toda a estrutura urbana de transportes, educação, saneamento e assistência médica, e abrigaria os edifícios públicos dos funcionários estaduais. Ali também deveriam se instalar os estabelecimentos comerciais. Seu limite era a Avenida do Contorno, que à época se chamava 17 de Dezembro. A região suburbana, formada por ruas irregulares, deveria ser ocupada mais tarde e não recebeu de imediato a infraestrutura urbana. A área rural seria composta por cinco colônias agrícolas com inúmeras chácaras e funcionaria como um cinturão verde, abastecendo a cidade com produtos hortigranjeiros.

Para a concretização do projeto, o arraial de Curral del Rei foi completamente destruído, com a transferência de seus habitantes para outro local. Sem condições de adquirir os terrenos valorizados da área central, os antigos moradores foram empurrados para fora da cidade, principalmente para Venda Nova. Acreditava-se que os problemas sociais seriam evitados com a retirada dos operários após a conclusão das obras, o que na prática não ocorreu. A cidade foi inaugurada às pressas, ainda inacabada. Os operários, em meio às obras, não foram retirados e, sem lugar para ficar, formaram favelas na periferia da cidade juntamente com os antigos moradores do Curral del Rei.


Comissão Construtora da Nova Capital.A inauguração da cidade encerrava um período mais do que iniciava outro. Mostrava preocupações com a pesquisa urbanística, arquitetônica e construtiva bastante excepcionais para a sua época. Sem dúvida indicou uma tendência promissora para o urbanismo no Brasil. As novas construções se opunham ao barroco colonial, tentando apagar as lembranças do passado. O Brasil independente buscava seu estilo no ecletismo desse tempo. Os primeiros conjuntos urbanos se definiam. A Praça da Liberdade aparecia como grande paço municipal, com as Secretarias de Estado e o Palácio do Governo. O Parque Municipal, embora com seu traçado inicial modificado, se implantava no local previsto. A Praça da Estação, a Avenida Santos Dumont, a Rua da Bahia e a Avenida Afonso Pena faziam parte de diversas imagens de época que contavam a trajetória da cidade.

A expansão urbana extrapolou em muito o plano original. Quando foi iniciada sua construção, os idealizadores do projeto previram que a cidade alcançaria a marca de 100 mil habitantes apenas quando completasse 100 anos. Em 1997, ano do centenário, a cidade possuía mais de 2 milhões de pessoas. Essa falta de visão se repetiu em toda a história da cidade, que jamais teve um planejamento consistente que previsse os desafios da grande metrópole que se tornaria.

Aos poucos, pequenas fábricas instalaram-se, a energia elétrica ampliou-se, as obras foram retomadas, os transportes melhoraram e começaram a surgir praças e jardins que deram uma nova paisagem. O número de empregos cresceu, chegaram novos habitantes, a vida social e cultural começou a se agitar. A indústria ganhou impulso na década de 1920 e inauguraram-se grandes obras, surgiram novos bairros sem planejamento e, com eles, sérios problemas urbanos.

A expansão

Vista parcial do centro de Belo Horizonte no início da década de 1930. Em primeiro plano, a avenida Afonso Pena.A nova capital foi o maior problema do governo do Estado no início do regime: construída após vencer muitos obstáculos, ela permaneceu em relativa estagnação devido à crise financeira. Ligações ferroviárias com o sertão e o Rio de Janeiro puseram a cidade em comunicação com o interior e a capital do país. O desenvolvimento foi mínimo até 1922.

Pelas proclamadas virtudes de seu clima, a cidade tornou-se atrativa, especialmente para o tratamento da tuberculose: multiplicaram-se os hospitais, pensões e hotéis, mas até 1930 exerceu função quase estritamente administrativa. Foi também na década de 1920 que surgiu em Belo Horizonte a geração de escritores de raro brilho que iria se destacar no cenário nacional. Carlos Drummond de Andrade, Ciro dos Anjos, Pedro Nava, Alberto Campos, Emílio Moura, João Alphonsus, Milton Campos, Belmiro Braga e Abgar Renault se encontravam no Bar do Ponto, na Confeitaria Estrela ou no Trianon para produzir os textos que revolucionaram a literatura brasileira.

Nos anos 1930, Belo Horizonte se consolidava como capital, não isenta de críticas e de louvores. Deixava de ser uma teoria urbanística para ser uma conquista humana, algo para ser não somente visto, mas para ser vivido também. Nesta época o município já contava com 120.000 habitantes e passava por problemas de ocupação, gerando uma crise de carência de serviços públicos. Necessitava de um novo planejamento para que se recuperasse a cidade moderna.


Praça Raul Soares em meados da década de 1930.As construções que mais marcaram este período são o Cine Brasil, de 1931; o Edifício Chagas Dória, de 1934, do arquiteto Alfredo Marestrof; o Edifício Ibaté, de 1935, de Ângelo Murgel; o Edifício Sulacap, de 1941, de Roberto Capello, com sua interessante articulação com o Viaduto de Santa Teresa; o Edifício Acaiaca, de 1943, de Luís Pinto Coelho; a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, de 1935; o Hospital da Santa Casa, de 1946, e o Edifício do Banco do Brasil, de 1942, ambos de Raffaelo Berti.

Estas obras representavam um primeiro momento do modernismo na cidade. Abandonava-se o ecletismo dos anos 1920 em função de um racionalismo temperado com elementos da art-déco, da Bauhaus, ou mesmo elementos decorativos de origem indígena, como no Edifício Acaiaca. Contraditoriamente, Ouro Preto, a cidade espontânea, apresentava contínuos urbanos muito bem definidos, e Belo Horizonte, a cidade planejada, se articulava através de seus volumes soltos.

No início da década de 1940, a cidade dobrou sua população, bem mais do que o previsto pela Comissão Construtora e passou por uma grande modernização. Consolidava-se a verticalização de sua área central. Esboçavam-se planos diretores no sentido de reorganizar a expansão da cidade. Abriam-se novas avenidas de fundo de vale. Tentava-se cadastrar a cidade. Reconhecia-se a crise habitacional como grave problema social.


Vista noturna da avenida Afonso Pena em fins da década de 1950.A década de 1940 trouxe o avanço da industrialização, além da criação do Complexo Arquitetônico da Pampulha, inaugurado em 1943 por encomenda do então prefeito Juscelino Kubitschek. O conjunto da Pampulha reuniu os maiores nomes do modernismo brasileiro, com projetos de Oscar Niemeyer, pinturas de Portinari, esculturas de Alfredo Ceschiatti e jardins de Roberto Burle Marx. Ao mesmo tempo, o arquiteto Sílvio de Vasconcelos também criou muitas construções de inspiração modernista, notadamente as casas do bairro Cidade Jardim, que ajudaram a definir a fisionomia da cidade.

Na década de 1950, a população da cidade dobrou novamente, passando de 350 mil para 700 mil habitantes. Como resposta ao crescimento desordenado da cidade, o prefeito Américo René Gianetti deu início à elaboração de um Plano Diretor para Belo Horizonte.

Na década de 1960, muitas demolições foram feitas, transformando o perfil da cidade, que passou, então, a ter arranha-céus e asfalto no lugar de árvores. Belo Horizonte ganhou ares de metrópole. A conurbação da cidade com municípios vizinhos se ampliou.

Ainda na década de 1960, a cidade atingiu mais de 1 milhão de habitantes. Nessa época, os espaços vazios do município praticamente se esgotaram, e o crescimento populacional passou a se concentrar nos municípios conurbados a Belo Horizonte, como Sabará, Contagem, Betim, Ribeirão das Neves e Santa Luzia. Na tentativa de resolver os problemas causados pelo crescimento desordenado, foi instituída a Região Metropolitana de Belo Horizonte e foi criado o Plambel, que desencadeou diversas ações visando a conter o caos metropolitano.

A história recente

A Praça do Papa.
Praça da Liberdade.A década de 1980 foi marcada pela valorização da memória da cidade, com a alteração na orientação do crescimento. Vários edifícios de importância histórica foram tombados. Foi iniciada a implantação do metrô de superfície. Iniciada em 1984 e concluída em 1997, a canalização do Ribeirão Arrudas pôs fim ao problema das enchentes ao centro da capital. Contudo, vários problemas surgiram e alguns permaneceram. Um deles foi a degradação da Lagoa da Pampulha, um dos principais cartões-postais da cidade, que se tornara uma lagoa praticamente morta devido à poluição de suas águas.

Em 1980, aproximadamente 850.000 pessoas tomaram a então Praça Israel Pinheiro (conhecida como Praça do Papa) para receber o próprio Papa João Paulo II. Diante da multidão de fiéis e da vista privilegiada da cidade, o papa ali exclamou: "Pode-se olhar as montanhas e Belo Horizonte, mas sobretudo quando se olha para vocês, é que se deve dizer: que belo horizonte!", o que provavelmente colaborou para que a praça ficasse conhecida hoje por este nome.

A cidade foi palco ainda de grandes manifestações visando a queda da ditadura militar no Brasil, sob a liderança de Tancredo Neves, na época governador do estado. A fisionomia urbana foi novamente alterada com a proliferação de prédios em estilo pós-moderno, especialmente na afluente Zona Sul da cidade, graças à influência de um grupo de arquitetos liderado por Éolo Maia. Na mesma década, a cidade também passou a ser servida pelo Aeroporto Internacional de Confins, localizado no município de Confins, a 38 km do centro da capital.


A cidade moldada pela Serra do Curral.A década de 1990 foi marcada pela valorização dos espaços urbanos e pelo reforço da estrutura administrativa do município, com a aprovação em 1990 da Lei Orgânica do Município e do Plano Diretor da cidade, em 1996. A gestão municipal se democratizou com a realização anual do Orçamento participativo. O desafio ainda em curso diz respeito ao fortalecimento da gestão integrada da Região Metropolitana de Belo Horizonte, que reúne 34 municípios que devem cooperar entre si para a resolução de seus problemas comuns. Espaços públicos como a Praça da Liberdade, a Praça da Assembleia e o Parque Municipal, que se encontravam abandonados e desvalorizados, foram recuperados e a população voltou a frequentá-los e a cuidar de sua preservação.

Nesta primeira década do século XXI, Belo Horizonte tem se destacado pelo desenvolvimento do setor terciário da economia: o comércio, a prestação de serviços e setores de tecnologia de ponta (destaque para as áreas de biotecnologia e informática). Alguns dos investimentos recentes nesses setores são a implantação do Parque Tecnológico de Belo Horizonte, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do Google para a América Latina e do moderno centro de convenções Expominas. O turismo de eventos, com a realização de congressos, convenções, feiras, eventos técnico-científicos e exposições, tem fomentado o crescimento dos níveis de ocupação da rede hoteleira e do consumo dos serviços de bares, restaurantes e transportes. A cidade também vem experimentando sucesso no setor artístico-cultural, principalmente pela políticas públicas e privadas de estímulo desse setor, como a realização de eventos fixos em nível internacional e o crescimento do número de salas de espetáculos, cinemas e galerias de arte. Por tudo isso, a cada ano a cidade se consolida como um novo polo nacional de cultura.

Fonte: Wikipedia



Mais historia

Como nasciam as antigas cidades coloniais brasileiras e por que as Igrejas Matriz eram tão significativas para os povoamentos? A Igreja Matriz da Boa Viagem de Curral de El-Rey era o centro de um antigo arraial que foi desmantelado para a construção de Belo Horizonte. O edifício foi inicialmente preservado, mas alguns anos após a inauguração da nova capital de Minas sofreu significativas alterações, tendo sido finalmente demolido em 1932, assim como nas décadas seguintes seria demolida a quase totalidade dos belos exemplares com que os vários estilos arquitetônicos foram presenteando a cidade.

O Arraial de Curral de El-Rey

Em 1701 O bandeirante João Leite da Silva Ortiz teria chegado à Serra das Congonhas, correspondente à atual Serra do Curral, marca da paisagem atual de Belo Horizonte. Em 1711 este bandeirante paulista obteve Cartas de Sesmarias, que lhe davam direitos sobre uma grande porção do atual município de Belo Horizonte, onde estava organizando uma fazenda de engorda de bois, chamada Cercado. Nas suas terras também crescia um arraial, ou seja, um pequeno povoamento, que era denominado, em 1707, de Curral de El-Rey, pois próximo dali existia também um registro onde se pagavam taxas reais e era controlado o deslocamento do gado.

Rua Marechal DeodoroEm 1718 o povoado de Curral de El-Rey foi elevado a freguesia e ao fim do século dezenove, próximo à sua destruição, era conhecido como "Bello Horisonte". Era ainda um distrito da cidade de Sabará e tinha uma população de aproximadamente 2.650 pessoas. Em 1893, depois de desapropriar e demolir todo o arraial, o engenheiro Aarão Reis construiu ali a primeira cidade projetada do Brasil, que inicialmente recebeu o nome de Cidade de Minas, até que em 1901, quatro anos após sua inauguração, passou a ser denominada de Belo Horizonte, como fora o antigo arraial.

A fotografia acima mostra um trecho da Rua Marechal Deodoro, posicionada aproximadamente como a atual avenida Afonso Pena. Ve-se a parte posterior da Matriz da Boa Viagem, e ao fundo a Serra do Curral. Abaixo, em outra foto, uma vista privilegiada da Praça da Matriz, centro do arraial, como se apresentava em 1894. Sobre a impressão que naquele ano tinha-lhe causado uma visita ao lugarejo, escreveu o arquiteto Alfredo Camarate, membro da equipe de construção da nova capital:

Praça da Matriz da Boa Viagem"Ao cabo de quatro horas de viagem (...) divisamos a povoação de Belo Horizonte, incrustada numa mata verde-negra e densíssima dentre a qual emergiam os campanários da igreja, construída nas primitivas simplicidades da arquitetura. Mas a viagem começa a apresentar uma feição absolutamente diferente. Enveredamos por uma rua extensíssima, muito larga, muito parecida com alguns caminhos de certas povoações da África Ocidental. Umas casas muito humildes com aparências de cubatas e, nos intervalos das casas, longos muros de barro vermelho, assombreados por árvores frutíferas. Mas tudo aquilo muito limpo, muito alinhado e sempre da mesma forma e com o mesmo encanto se chega a Belo Horizonte; um belo horizonte na realidade!"

A rua extensíssima a que ele se referia era certamente a Rua Sabará, que correspondia, em parte, à atual Rua Niquelina em Santa Efigênia. A Rua Sabará, a principal do arraial, na realidade era um grande caminho que cortava longitudinalmente quase todo o arraial e desembocava no Largo da Matriz, onde atualmente existe a Catedral da Boa Viagem. O centro principal do arraial consolidado ao redor do Largo da Matriz, era o ponto de convergência dos principais caminhos que cruzavam aquele agrupamento de casas. Eram estradas de chão que prosseguiam do arraial para outros povoamentos de maior importância, existentes nas redondezas, como Sabará, Venda Nova, Villa Nova de Minas, e também para as sedes das grandes propriedades rurais que se formaram e circundavam o núcleo urbano.

Planta do arraial de Curral d'El ReyA planta do primitivo núcleo urbano tinha um traçado irregular, típico das pequenas vilas surgidas durante o período colonial: ruas compridas e tortuosas, como caminhos ao longo dos quais se assentava o casario. O poeta Olavo Bilac em artigo no Minas Gerais de 25 de agosto de 1916 escrevia:

"Era ao cair de uma tarde de janeiro de 1894. Depois de viajar algumas léguas do sertão mineiro (...) cheguei a estas planícies esplêndidas (...). A imensa arena brava abria-se para o oriente, encostada ao sul, à lombada do Curral e ao norte à da Contagem. O sol deixara no céu o cruor do seu holocausto. Um dobre de sino embalava a tarde. Uma doce melancolia enfeitiçava o ar. E, com as primeiras sombras, entrei no povoado, estirando no centro do chapadão a haste longa e as traves curtas de sua edificação em T, pequeno burgo de cem fogos. As ruas rudimentares eram quatro: a de Sabará, a de Deodoro, a do Capão e a de Congonhas. Uma praça larga, mal achanada, com um alto cruzeiro de madeira, rasgava em frente à igreja tosca. Perto, à volta da aldeia, algumas culturas e alguns curtumes, testemunhando o trabalho da gente simples; e, longe, moldura imensa, os matagais brenhosos, os montes ásperos, Santa Cruz, Lagoa Seca e o acaba Mundo..."

Também Charley Lachmund, em Vozes de Petrópolis de maio-jun de 1946 registrou a seguinte descrição do arraial:

(...)Ao centro desse vale monótono e abandonado pela cultura, uma pequena igreja com duas torres, no estilo característico dos jesuítas, rodeada dum complexo de casas modestas de tijolo e cobertas de telha: a igreja e a cidadezinha de "Nossa Senhora de Boa Viagem" no arraial de "Curral d'El Rei", o berço de Belo Horizonte."

As cidades coloniais brasileiras surgiam e desenvolviam-se sem um planejamento prévio, condicionadas, quase sempre, pelas características topográficas do sítio. No arraial de Curral de El-Rey a forma do tecido urbano era decorrente tanto da topografia, como da existência do Rio Arrudas com sua bacia e os vários cursos d'água que a ela afluíam. A forma espontânea como a cidade desenvolvia-se emprestava-lhe grande graça.

A fundação de uma cidade colonial nas minas gerais

Durante o período colonial brasileiro a estreita relação existente entre o Estado português e a Igreja era um fator de significativa importância, que influenciava tanto o desenvolvimento da organização urbana, quanto o caráter da arquitetura, e em especial da sua vertente religiosa. Na faixa litorânea do território brasileiro, eram as grandes ordens religiosas européias, como os jesuítas, franciscanos, carmelitas e os beneditinos que construíam, com recursos próprios, as Igrejas, conventos, monastérios e os grandes colégios. Para tanto, importavam não somente os projetos mas muitas vezes a quase totalidade dos materiais de construção utilizados nos edifícios.

Porém, na região das minas gerais, o processo ocorreu de modo diferente. Cartas Régias emanadas pela Coroa portuguesa em 1711 e em anos posteriores proibiram o estabelecimento das ordens religiosas. Estas ordens permaneceram, portanto, restritas à faixa costeira da Colônia, mas isto não impediu que nas diversas cidades coloniais das minas a arquitetura se manifestasse, através do surgimento, em profusão, de capelas e igrejas, muitas das quais com características bastante criativas.

No entanto, em Minas, como em todo o Brasil colonial, não surgiu uma arquitetura que possa ser caracterizada como totalmente original. O que aconteceu foi uma adaptação do modelo europeu, ao qual se juntou elementos das arte e das técnicas asiáticas e africanas. Na região das minas, a ausência das ordens religiosas foi compensada pela maior operosidade que tiveram as chamadas Irmandades, Confrarias e Ordens Terceiras, que eram associações de caráter religioso e social, congregando determinados grupos de indivíduos que se distinguiam pela classe social, profissão ou cor da pele. Foram estes agrupamentos, através da construção de seus templos, expressando seu desejo de diferenciação e algumas vezes as rivalidades existentes, que favoreceram o desenvolvimento de uma intensa e original atividade artística, com grande grau de criatividade e não restrita somente à arquitetura, mas englobando também a pintura a escultura, literatura e a música.

Inicialmente, quando do nascimento de uma vila, a prioridade era a construção de uma primitiva capela, geralmente em um local que se tornava a praça principal do lugarejo. Este primeiro templo tornava-se a referência para todos os habitantes, que geralmente estavam acomunados pelas mesmas aspirações. Em seguida, o natural crescimento do lugar conduzia a uma evidente diferenciação social e o vigário, ou os chamados "homens bons" do local, ou seja os brancos, ricos, e tidos como de bom caráter, organizavam duas associações religiosas nas quais deveriam-se agrupar os componentes das duas classes que basicamente formavam a população. A primeira associação correspondia aos interesses dos homens ricos e dos portugueses e a outra aos dos pobres e dos negros escravos ou livres. Estas associações eram, portanto, fortemente caracterizadas pela composição social dos seus membros. Às chamadas Irmandades do Santíssimo Sacramento correspondiam sempre as classes sociais mais ricas e influentes e, em oposição, as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário eram dirigidas pelos pobres. Porém, esta composição inicial não era rígida e quando o desenvolvimento da povoação a tornava ainda mais complexa, surgindo novas categorias intermediárias, também novas ordens terceiras ou confrarias nasciam, cada uma almejando afirmar seu prestígio através da construção de templos cada vez mais imponentes e ricos.

As classes sociais de maiores recursos, através da irmandade mais poderosa, geralmente a do Santíssimo Sacramento, promovia a substituição da primitiva capela por uma Igreja maior chamada Matriz. A Irmandade do Santíssimo Sacramento era normalmente dedicada a Nossa Senhora, nas suas diversas manifestações. Acontecia ainda, que outros agrupamentos sociais, enquanto desprovidos de recursos para a construção de seu templo, continuassem, pelo tempo necessário, a freqüentar a Matriz, onde mantinham altares nas laterais da nave, dedicados a seus santos prediletos.

As Igrejas mineiras eram construídas por etapas, assumindo a sua forma definitiva após muitas modificações e acréscimos que ocorriam durante o decorrer dos anos. Os recursos financeiros para as obras vinham tanto de esmolas quanto das associações religiosas, através de seus membros mais generosos. Portanto, era comum que se construísse inicialmente somente a parte correspondente à sacristia e à capela-mor, que eram cobertas, sendo o edifício provisto de uma fachada provisória. A obra continuava pouco a pouco com a construção da nave, a ornamentação do interior, a execução das fachadas, do telhado definitivo, das torres sineiras e de outras obras.

A lenta construção e demolição da Igreja Matriz da Boa Viagem

Em Curral de El-Rey foi erguida, nos primeiros anos, uma primitiva capela dedicada a Nossa Senhora da Boa Viagem, chamada assim porque homenageava a protetora dos tropeiros e viajantes que tinham o local como um posto de descanso, nas suas longas viagens, não raro conduzindo o gado desde o sertão da Bahia até as cidades das minas. Esta capela teria sido demolida em 1755 ou pouco antes, cedendo lugar a uma imponente igreja matriz, que foi completamente terminada somente em 1793, cerca de quarenta anos após o início das obras.

Matriz da Boa Viagem no início do séculoA Igreja apresentava planta retangular, tipo basílica. As fotografias da antiga Matriz a retratam composta dos três elementos característicos dos templos mineiros: A nave, a capela-mor e a sacristia. Ao lado da nave, dois outros volumes mais baixos tinham junto de sua parte anterior duas torres sineiras quadradas. A fachada seguia o esquema típico dos templos mineiros: o triângulo invertido formado pela porta principal e pelas duas janelas rasgadas-por-inteiro do coro. O frontão triangular, em que se abria um óculo de formas trabalhadas, coroava a parte superior.

Ao contrário da quase totalidade das construções existentes no antigo arraial, que foram demolidas para a implantação da nova cidade planejada por Aarão Reis, a Matriz foi preservada por um período de trinta e cinco anos, em decorrência da resistência que inicialmente colocou a Arquidiocese de Mariana, ao negar a autorização de demolição dos templos existentes, antes que se construíssem outros novos. O então velho edifício colonial, que por esta decisão burocrática, sobreviveu ao desaparecimento repentino de um inteiro tecido colonial, do qual era o ponto emergente, veio a sucumbir totalmente somente em 1932, estando já iniciada a construção de uma nova Matriz em estilo neo-gótico, que hoje domina a praça da Boa Viagem. No trecho abaixo, as palavras de Pedro Nava em 1985, onde relata o que presenciou e a sensação que sentiu durante o período em que era demolida a antiga Igreja da Boa Viagem:

" Nessa ocasião a primeira (A primitiva Igreja Matriz, em 1911) estava sendo demolida e a recente já em funcionamento, posto que ainda por concluir. Vi com meus olhos, estes olhos que a terra há de comer, o velho já sem telhado e seus arquivos postos fora na sacristia meio derrubada onde o sol e a chuva acabavam com aquela papelada, testemunhos dos casamentos, batizados dos curralenses."

Os idealizadores e construtores de Belo Horizonte sonhavam com uma moderna cidade-capital para Minas, que poderia mesmo vir a transformar-se em capital do próprio Brasil. Veja-se neste sentido o que escreveu Arthur Azevedo em 1901:

" (...)formoso planalto, tão bem escolhido para capital de um grande Estado e que poderia ser - por que não dizê-lo, quando todos o sentem? a própria Capital da República."

Também a este respeito escreveu Machado de Assis:

" Chama-se Belo Horizonte. Eu se fosse Minas, mudava-lhe a denominação. Belo Horizonte parece antes uma exclamação que um nome. ...Quanto à nova capital da República, não é mister lembrar que já está escolhido o território, faltando só a obra de construção e da mudança, que não é pequena."

Matriz da Boa Viagem nos anos 20-30Contudo era em consonância com as idéias de renovação e progresso, de cunho positivista, muito fortes na época, que foi decidida a substituição Matriz, cujo estilo "de primitiva simplicidade", secundo Camarate, se identificava com o precedente período colonial, opondo-se às modernidades da República, da qual era a nova capital o símbolo. Vê-se, na fotografia feita pouco antes do ano de 1911, a Igreja ainda intacta, inserida na malha da nova cidade. Seu entorno já apresentava algumas alterações preanunciando a remodelação do espaço e a total eliminação do edifício. Ao fundo destacam-se os novos edifícios que se iam erguendo e modificando a paisagem colonial.

Arthur Azevedo, em 1901, deixa seu interessante depoimento sobre a destruição do arraial de Curral d'El Rei:

"Ao meu espírito, ao meu temperamento de "touriste", faltava alguma coisa; a vetustez. Era novo, novinho em folha, tudo quanto eu via; as ruas, as casas, os próprios habitantes, pois é raro encontrar-se alí pessoas velhas.(...)
- "Que diabo! façam-me ver alguma coisa velha!" disse aos obsequiosos cicerones.
- Pois bem, vamos fazer-lhe a vontade mostrando a velha matriz da freguesia do Curral d'El Rei. E, é contentar-se com isso; não temos nada mais velho! Dirigimos-nos então à Igrejinha, que alí está, isolada e tristonha, como uma sentinela perdida no passado. (...) Foi pena que destruíssem tudo quanto era o antigo Curral d'El Rei e não ficasse ali um bairro, uma rua, um alpendre do velho arraial, que lembrasse, embora incompletamente, a fisionomia do passado. Pelo que vi das fotografias tiradas pelo sr. Soucasseaux e dos quadros de Emílio Rouède, que se acham na Prefeitura, havia no arraial alguma coisa que merecia ficar.

Certamente, se procurarmos ver a questão sob uma visão atual, de crescente consciência da importância do patrimônio cultural, podemos nos convencer que o edifício poderia ter sido preservado, sem que isto trouxesse qualquer incoveniente de ordem física ou econômica para nova cidade: o uso religioso que se fazia do edifício era a principal garantia para a sua preservação. No entanto, é interessante notar que o forte referencial simbólico que exercia a Matriz e a Praça impediu que o espaço fosse totalmente desprezado. Aarão Reis desenhou e locou a planimetria de Belo Horizonte de modo a preservar a Praça da Matriz, que resultou inserida em um quarteirão inteiro da nova malha urbana.

Naquele período, menos ainda do que atualmente, era muito pouco difusa e valorizada a noção de preservação e valor histórico e cultural dos bens. A este respeito é curioso notar que foi exatamente durante a década de trinta, em que a indiferença generalizada não impediu a demolição do templo, que os legisladores brasileiros dotaram o Brasil de avançadíssimos instrumentos para a defesa dos bens culturais. Uma lei emanada por Minas Gerais em 1925, havia promovido a catalogação dos bens móveis e determinado a preferência a ser dada ao estado para na compra destes bens. Em 1933, pela primeira vez no mundo, uma cidade, Ouro Preto, foi declarada monumento nacional e a constituição de 1934 previa a tutela dos bens, tendo em 1937 sido criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, SPHAN, o que colocou o Brasil entre os países pioneiros neste tipo de legislação.

Matriz da Boa Viagem modificada A descaracterização do edifício da antiga Matriz, tinha começado aos poucos, em 1911, quando Belo Horizonte era ainda uma capital recém-inaugurada. Teriam a Irmandade do Santíssimo Sacramento e o pároco local promovido a demolição da parte frontal do edifício, correspondente às torres sineiras, que estariam em precárias condições estáticas. A fachada principal foi radicalmente modificada, e pelas observações e comparações entre fotografias existentes, nota-se que provavelmente a reforma incluiu a demolição de toda uma parte da edificação. Com certeza foram retiradas as torres sineiras e eliminadas as duas janelas-rasgadas-por-inteiro do coro, substituídas por duas pequenas janelas geminadas. A intervenção criou uma composição nova, que nada tinha das características do colonial mineiro. Na fotografia ao lado, vê-se o aspecto que assumiu o edifício após as modificações feitas na fachada, consonantes com o padrão estético dos novos edifícios que então eram construídos na cidade.

O plano barroco de Aarão Reis para Belo Horizonte, inspirado nas intervenções realizadas em 1853 na Paris de Haussmann, e em exemplos de novas cidades capitais, como a Washington projetada por L'Enfant, perseguia antes de tudo o espaço amplo, a localização privilegiada dos edifícios públicos, e a monumentalidade, usando de recursos como os "efeitos de visibilidade", ou seja, os edifícios de maior importância deveriam ser construídos no cruzamento de grandes avenidas. Em Belo Horizonte a catedral da cidade seria construída no cruzamento das avenidas Contorno com Afonso Pena, local chamado na época "alto do Cruzeiro", hoje Praça Milton Campos. Alfredo Camarate, em 1894, escrevia sobre o andamento das obras da nova capital e a filosofia do plano urbanístico:

Atual Matriz da Boa Viagem"A grande avenida (Avenida Afonso Pena), que parte da base até o alto do Cruzeiro, vai locar-se em breve. E dizem-me que esta locação é definitiva; arrasando-se prédios, cafuas, tudo quanto possa obstar à sua completa instalação no terreno. E como essa avenida venha a ser a 'mestra'. sobre o alinhamento da qual se hão de traçar as demais ruas, a obra vai ser feita com as exatidões meticulosas de um verdadeiro trabalho científico. Que soberba e majestosa deve ficar esta avenida, larga e extensíssima, tendo no vértice do seu ângulo perspectivo o majestoso templo que deve coroar a pequena crista do Cruzeiro."

A atual catedral da Boa Viagem, vista na fotografia ao lado, não foi construída no local pré determinado no plano: o alto do Cruzeiro, mas sobre os escombros da antiga Matriz, que em sua simplicidade arquitetônica e perfeitamente adaptada ao seu entorno, materializava o espírito do lugar ("genius loci").

Atual Matriz da Boa ViagemAté o início dos anos 30, a velha igrejinha ainda resistia "tristonha" no centro do antigo arraial, reforçando a significação do local. Por isto, foi naquela praça transformada em secundária pelo traçado urbano da nova cidade, que identificou-se os elementos espirituais que definiam a identidade do lugar, fatores que naquele momento foram mais fortes que as imposições conceituais do plano urbanístico de Aarão Reis, que elegia os espaços abertos, plenos de "efeitos de visibilidade", como os ideais para a construção de edificações importantes.

Tendo sido reerguida em estilo neo-gótico e apesar de sua beleza, a catedral atual é um templo pequeno, cuja nave, em tamanho, se compara à da antiga Matriz. Visivelmente não é uma edificação que domina seu entorno. Envolvida por frondosas árvores, enormes edifícios e limitada por vias secundárias, não transmite a monumentalidade, própria do gótico. Além disto a leitura do edifício torna-se difícil por inexistir pontos de vista privilegiados.

Outros templos existentes no arraial, foram sumariamente eliminados. A capela de Nossa Senhora do Rosário, pertencente à Ordem Terceira do Rosário dos Negros, situava-se em uma outra praça secundária do Arraial de Curral de El-Rey. Foi demolida em 1897, ano da inauguração da capital de Aarão Reis. Outra pequeníssima capela dedicada a Sant'Ana, foi demolida em 1894.


Engenheiro Arquiteto, pela UFMG e Dottore in Architettura pelo Politecnico di Milano.

(**)O texto é baseado em parte da tese de graduação: Fondazione e crescita della città brasiliana. Milano, Politecnico di Milano, 1993, desenvolvida com a orientação do Prof. Alberto Mioni.
 

Cidade de Minas para Belo Horizonte alterado pela lei estadual nº 302, de 01-07-1901. Continua


Fonte: IBGE www.pbh.gov.br acessado em 1º/09/2008 www.descubraminas.com.br acessado em 1º/09/2008

 

 

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