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Seres humanos podem
aprender a "ver" pelo som
Com apenas um estalido da língua, qualquer pessoa poderia aprender a
ver usando sua audição, de acordo com um novo estudo sobre as
possibilidades de uso humano de processos de localização por eco.
Diversos animais, a exemplo de morcegos, golfinhos, baleias e
musaranhos, são usuários conhecidas de técnicas de localização por
eco - ou seja, emitem ondas sonoras que esbarram em objetos e
retornam a eles, permitindo que sintam os objetos posicionados ao
seu redor.

Inspirada pelo exemplo de um homem cego que também consegue se
orientar no movimento por meio de ondas sonoras, uma equipe de
cientistas espanhois encontrou provas que sugerem que a maioria dos
seres humanos poderia aprender a utilizar recursos de localização
por eco. A equipe de pesquisadores confirmou, além disso, que o
chamado clique de palato - um estalido ruidoso produzido quando a
ponta da língua é rebaixada para encontrar o piso da boca -
representa o mais efetivo ruído que uma pessoa poderia empregar para
essa finalidade.
Treinamento para uso de som
Daniel Kish, diretor executivo da World Access for the Blind acesso
mundial para os cegos, uma organização sediada em Huntington Beach,
Califórnia, que trabalha para melhorar a situação dos deficientes
visuais, nasceu cego. Mas ele desenvolveu sozinho, começando quando
ainda pequeno, um método que permite que "veja" utilizando cliques
de palato.
Com o uso de seu método, Kish consegue realizar caminhadas na
natureza, praticar mountain biking e jogar diversos esportes que
utilizam bolas, e tudo isso sem recorrer aos mecanismos tradicionais
de assistência aos cegos.
Para compreender melhor a capacidade que Kish desenvolveu, Juan
Antonio Martinez e seus colegas da Universidade de Alcalá, em Madri,
decidiram utilizar o método desenvolvido pelo americano para treinar
10 universitários sem problemas visuais, ensinando-os a se orientar
com o uso da localização por eco.
"Foi muito difícil persuadir algumas das pessoas que convidamos a
tomar parte da experiência proposta, porque a maioria dos (nossos)
colegas acreditava que a ideia que estávamos testando era absurda",
afirmou Martinez.
Os universitários foram instruídos a fechar os olhos e a produzir
sons, até que aprendessem a distinguir se existiam objetos em torno
deles. Depois de apenas alguns dias de treinamento, todos os
participantes haviam conseguido desenvolver pelo menos um domínio
básico das técnicas de localização por eco, reportaram os cientistas
em estudo publicado na edição de março/abril da revista Acta
Acustica.
A equipe de pesquisadores em seguida gravou os universitários
enquanto eles produziam três sons diferentes: um ruído de "tch",
gerado pela língua; um ruído de "tch" gerado pelos lábios; e o
clique de palato. Depois de estudar a forma das ondas sonoras
geradas por cada um desses ruídos, Martinez e seus colegas
constataram que o clique de palato é o som que oferece o retorno
mais detalhado quanto ao panorama que cerca o seu emissor.
Parcialidade que privilegia a visão
Nos animais que utilizam regularmente as técnicas de localização por
eco, essa capacidade é muitas vezes um recurso essencial à
sobrevivência, e eles dispõem de órgãos especialmente adaptados para
executar essa tarefa, afirma Martinez. No caso dos golfinhos, por
exemplo, eles dispõem de estruturas especiais que fazem parte de
seus narizes e têm a capacidade de emitir cerca de 200 cliques por
segundo. Os seres humanos são capazes de produzir um máximo de três
ou quatro cliques por segundo.
"É um método que parece consideravelmente difícil, e talvez ainda
mais difícil para as pessoas que disponham de capacidade visual,
porque os seres humanos são animais visuais e assim não tendem a
utilizar de forma alguma a capacidade de localização por som, o que
faz com que seja preciso além de tudo superar essa parcialidade que
privilegia a visão ante os demais sentidos", disse Peter Scheifele,
estudioso de acústica biológica na Universidade do Connecticut, que
não esteve envolvido no estudo espanhol.
Uma pessoa comum é capaz de desenvolver capacidades razoáveis de
localização por eco em prazo de cerca de um mês, caso se disponha a
treinar uma ou duas horas por dia. Já as pessoas que sofram de
deficiências visuais têm a possibilidade de aprender a técnica ainda
mais rápido, de acordo com Martinez.
Além de facilitar o deslocamento dos deficientes visuais, a
localização por eco também poderia ajudar equipes de resgate a
localizar pessoas em situações de neblina intensa ou bombeiros a
localizar com mais rapidez os pontos de saída, em edifícios tomados
pela fumaça de um incêndio. Os pesquisadores apontam que os
dispositivos artificiais que podem ser utilizados para localização
por eco, por exemplo, uma pulseira equipada com um apito periódico,
ainda não são capazes de oferecer desempenho superior ao de um
simples estalido com a língua.
"Aparelhos como esses oferecem um desempenho pior em termos de
localização por eco, no momento", afirmou Martinez, "porque eles não
reproduzem totalmente a percepção háptica (táctil) dos ecos".
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