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Versão símia da aids reduz número de chimpanzés na África

Pesquisadores demonstraram pela primeira vez que chimpanzés vivendo na natureza contraíram uma versão símia da aids e morreram da doença. A constatação contraria a crença científica dominante de que os chimpanzés, os parentes mais próximos do homem, eram capazes de contrair a aids símia mas sem sofrer efeitos malévolos.

O trabalho também sugere que um surto de aids está contribuindo para o declínio da população africana de chimpanzés, de acordo com a Dra. Beatrice Hahn, da Universidade do Alabama em Birmingham, a diretora da pesquisa.

Ela afirmou que comparações entre os vírus que causam Aids em chimpanzés e seres humanos poderiam resultar em novas percepções sobre as respostas dos sistemas imunológicos em ambas as espécies.

"Nossas descobertas permitem estudar o HIV de um novo ângulo, comparando e contrastando infecções humanas e em chimpanzés", disse Hahn em entrevista. O estudo de sua equipe foi publicado pela revista Nature.

Os pesquisadores conduziram autópsias em chimpanzés e constataram que indícios de danos a órgãos e tecidos semelhantes aos causados pela aids humana em seu estágio terminal. Os chimpanzés infectados apresentavam risco de morte 10 a 16 vezes maior do que o existente entre animais não infectados. As fêmeas infectadas tinham menor probabilidade de engravidar. Caso o façam, têm maior chance de transferir o vírus aos filhotes, e o índice de mortalidade para seus filhotes supera o encontrado entre as fêmeas não infectadas.



Os cientistas realizaram a descoberta ao testar centenas de amostras de dejetos de chimpanzés em um estudo de nove anos de duração sobre três pequenas comunidades de chimpanzés no Parque Nacional de Gombe, Tanzânia, que Jane Goodall tornou famoso. Embora os chimpanzés durmam em árvores à noite, um pesquisador se posicionava por sob eles para apanhar amostras de urina. Os pesquisadores também testaram fezes encontradas no piso da floresta.

O vírus símio, conhecido como SIVcpz, é considerado precursor do HIV-1, que cruzou a barreira entre as espécies em algum momento dos últimos 100 anos.

"Não podemos datar com precisão a primeira infecção de chimpanzés, mas decerto suspeitamos que tenha acontecido há muito mais de 100 anos", disse Hahn. "Nosso palpite é o de que a infecção viral nos chimpanzés não é tão prejudicial quanto a do HIV-1 em humanos. A diferença está na maneira pela qual o vírus danifica tecidos", ela afirmou, "e nos leva a especular que os chimpanzés talvez já estejam um passo adiante na adaptação ao vírus; identificar esse passo poderia se provar importante".

Mais de 40 vírus de imunodeficiência símia que infectam primatas são conhecidos. Os macacos africanos infectados com o vírus da aids símia raramente desenvolvem a doença. Apenas sete chimpanzés infectados naturalmente com o SIVcpz foram estudados em cativeiro, e cinco deles morreram ainda filhotes, de causas desconhecidas.

O único chimpanzé naturalmente infectado com o vírus símio que passou por testes imunológicos e virológicos padronizados não demonstrou os danos típicos da aids, tais como baixa contagem de células CD-4 e danos aos nódulos linfáticos. Dois outros chimpanzés infectados artificialmente com o SIVcpz em cativeiro não demonstraram alterações desse tipo.

Até agora, os cientistas pouco conheciam sobre os efeitos do SIVcpz sobre os chimpanzés que vivem na natureza, porque lhes faltavam meios de identificar e monitorar o comportamento dos chimpanzés nesses casos. Usando testes moleculares e outros recursos desenvolvidos recentemente, a equipe de primatologistas, patologistas, geneticistas e virologistas de Hahn estudou as três comunidades de chimpanzés em Gombe.

Elas ocupam áreas distintas, mas chimpanzés se envolvem em disputas por territórios e as fêmeas tipicamente deixam seu grupo de origem antes de terem seus primeiros filhotes. A partir de 2000, os cientistas acompanharam 94 chimpanzés do parque. A cada dia uma equipe de assistentes de pesquisa seguia um chimpanzé de cada comunidade da manhã à noite.

Testes genéticos de fezes serviram para identificar animais individuais. Foram identificadas infecções por SIVcpz nas três comunidades, e testes virológicos indicaram que as fêmeas migratórias ajudaram a difundir o vírus. Os cientistas encontraram vírus SIVcpz quase idênticos em quatro chimpanzés. Isso sugere que os animais podem ter contraído o SIVcpz de parceiros de acasalamento logo depois que estes foram infectados, o período em que a transmissão do vírus é mais intensa.

Dois filhotes de chimpanzé estavam infectados, um dos quais aparentemente ao ser amamentado, porque o animal não estava infectado ao nascer. Das 30 fêmeas não infectadas, 22 pariram um total de 30 filhotes. Das nove fêmeas infectadas, quatro pariram um total de quatro filhotes, uma diferença estatisticamente significativa. Os chimpanzés infectados morriam ou desapareciam em ritmo mais rápido que os não infectados.
 

 

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