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Diabos-da-tasmânia ganham esperança contra
câncer letal
Eles são bem pretos, têm orelhas pontudas,
pelagem espessa e, de um modo bastante feroz,
são bonitinhos. E, em maio deste ano, foram
adicionados à lista australiana de espécies
animais ameaçadas.
Os diabos-da-tasmânia, animais que usualmente
levam vidas solitárias, só se reúnem para se
banquetear com carniça e para o acasalamento em
cópulas curtas mas passionais durante as quais
se machucam seriamente a unhadas.

Os gritos apavorantes que emitem - uma seqüência
de ladridos, rosnados e grunhidos - servem para
evocar visões satânicas desde que os primeiros
colonizados europeus chegaram à ilha da
Tasmânia, mais de um século atrás.
"Os pais costumavam dizer aos seus filhos que
eles não saíssem pelo mato porque o demônio os
apanharia", relembra o Dr. Greg Woods, professor
associado de imunologia no Instituto Menzies de
Pesquisa, em Hobart, a capital tasmaniana.
Mas nos últimos 10 anos os demônios da Tasmânia
se viram aprisionados em um purgatório muito
peculiar à espécie. Desde 1996, uma forma
mortífera de câncer, a doença dos tumores
faciais, vem atacando a população de
diabos-da-tasmânia.
O número de animais registrado na ilha caiu de
150 mil para menos de 50 mil, desde então, de
acordo com o Dr. Hamish McCallum, cientista
sênior do programa de combate à doença dos
tumores faciais em diabos-da-tasmânia na
Universidade da Tasmânia.
A situação dos animais se tornou muito precária.
Mas à medida que o conhecimento acumulado sobre
a doença aumenta, surgem novas esperanças. Os
cientistas deram início a um programa
experimental de vacinação e, este ano, Woods
identificou um diabo-da-tasmânia que conseguiu
montar resposta ao tumor com base em seus
anticorpos.
O animal em questão, Cedric, um macho de três
anos capturado no oeste da Tasmânia diversos
meses atrás, e seu meio-irmão, Clinky, estão
sendo usados em experiências.
Woods inoculou os dois espécimes, que não tinham
a doença quando capturados, com células
irradiadas - ou seja, mortas - da doença de
tumores faciais. Ainda que tenham a mesma mãe,
Cedric e Clinky são filhos de pais diferentes.
Woods repetiu a vacinação por três vezes.
Depois, administrou células vivas de tumor a
ambos. Cedric conseguiu montar uma resposta do
sistema imunológico e sobreviveu. Clinky não
desenvolveu a resposta imunológica e sucumbiu ao
câncer. A herança genética do pai de Clinky o
tornava mais parecido com os animais encontrados
no leste da Tasmânia.
Todos os sistemas imunológicos de mamíferos
dependem de certas células para reconhecer
invasores. A demarcação da "alteridade" no nível
celular é executada em uma parte do genoma dos
mamíferos conhecida como grande complexo de
histocompatibilidade, ou MHC.
A capacidade de um animal para combater doenças
depende desse grupo de genes. O MHC é
responsável pelos marcadores celulares que
diferenciam entre células que formam parte do
ser e células que não o integram. Mas o MHC do
tumor é que o torna mortífero para os
diabos-da-tasmânia .
"O tumor não porta marcadores celulares que o
identifiquem como externo", disse a Dra.
Katherine Belov, cientista do Grupo de Genômica
da Fauna da Australásia, na Universidade de
Sydney.
"Caso o tumor se desenvolva em um
diabo-da-tasmânia, o sistema imunológico do
animal deveria ser capaz de marcar essas células
como externas. Isso não acontece porque as
células do tumor são parecidas com as células do
animal".
Belov comparou o processo à busca genética de
compatibilidade em transplantes de órgãos. "É
preciso ter os mesmos genes que um doador no MHC;
caso exista diferença, o órgão transplantado
termina rejeitado".
Se o tumor fosse um órgão de que necessitassem,
os diabos-da-tasmâniaseriam receptores
perfeitos. Em outras palavras, o MHC dos
diabos-da-tasmânia é idêntico ao do tumor. Por
não reconhecer a célula como externa, o sistema
imunológico não cria anticorpos.
O tumor facial dos animais foi revelado pela
primeira vez em uma foto obtida por um holandês
que fotografa animais selvagens, Christo Baars,
em uma visita ao Monte William, no norte da
Tasmânia.
O número de diabo-da-tasmânia afetados pela
doença - que deforma lábios e mandíbulas e
obscurece narizes e olhos com feridas supuradas
- continuou a crescer, especialmente nas porções
leste e norte da ilha.
A doença é sempre fatal. Os animais morrem de
fome e desidratação quando os tumores nas
gargantas e mandíbulas tornam impossível comer e
beber. Até recentemente, os cientistas não eram
capazes de explicar a causa ou modo de
transmissão do câncer.
"Predissemos que eles seriam vulneráveis a
vírus" porque são uma população que procria em
circuito fechado, afirma Woods.
"Que o problema que causou tamanha devastação
tenha sido um câncer apanhou a todos nós de
surpresa". Mas o câncer, constataram Woods e
seus colegas, era diferente de qualquer
modalidade que os pesquisadores tivessem visto
no passado.
"Em todos os demais cânceres, o que acontece é
que as células do corpo se descontrolam,
enquanto no caso desse corpo as células não são
do anfitrião, mas de um animal diferente", disse
McCallum. "O tumor em si é um agente
infeccioso".
O tumor que vem causando tamanhas perdas aos
demônios da Tasmânia é um clone, derivado de um
animal. Quando os animais se mordem no rosto,
como é costume na temporada de acasalamento, as
células do tumor são transmitidas de animal a
animal.
O demônio da Tasmânia tem cerca de 30 cm de
altura e 15 kg de peso, quando desenvolvido, e é
o maior dos marsupiais carnívoros sobreviventes.
O animal está sob proteção oficial desde 1941,
para evitar a caça intensa por colonos e
agricultores, os quais acreditavam que o animal
tomasse seu gado e ovelhas como presa.
Tanto a agricultura quanto o crescimento da
população humana contribuíram para fragmentar o
habitat do demônio da Tasmânia. De 1900 até o
presente, a população humana da Tasmânia quase
triplicou, para pouco menos de 500 mil pessoas.
No passado espalhadas por toda a ilha, as
populações de demônios da Tasmânia se tornaram
mais isoladas, e a procriação passou a ser mais
restrita, gerando semelhanças genéticas.
Cedric foi o primeiro animal a passar por uma
vacinação bem sucedida usando células de câncer
que foram mortas previamente. Woods
posteriormente encontrou um segundo demônio da
Tasmânia que se provou capaz de montar resposta
imunológica ao câncer.
Três outros demônios da Tasmânia do leste da
ilha que foram inoculados com a vacina
desenvolveram a doença ainda assim, o que
sustenta a hipótese de Woods de que os animais
da porção oeste da ilha mantiveram uma maior
diversidade genética.
Salvar o demônio da Tasmânia da extinção se
tornou um imperativo de conservação. De acordo
com McCallum, sem intervenção pesada os animais
estarão extintos em cinco anos.
Woods disse que começaria a busca por demônios
da Tasmânia que resistiram naturalmente à doença
no ano que vem. Ele aposta que a melhor resposta
dos animais à doença pode estar em seu genoma.
Mas mesmo que demônios da Tasmânia com MHC
diferenciado sejam encontrados, Belov acredita
que a corrida armamentista imunológica está
longe de encerrada. Ele já encontrou algumas
indicações de que o tumor esteja se adaptando.
Enquanto anteriormente os tumores encontrados
eram todos clonais, "agora estamos vendo
ligeiras diferenças nos cromossomos". "Eles
começaram a evoluir a partir do clone ou célula
original", ela afirmou.
"Caso venham a desenvolver estratégias de evasão
à resposta imunológica, como por exemplo a
desativação completa do MHC, o tumor tem o
potencial de infectar indivíduos com MHC
diferente. Caso ele consiga regular a ação de
seu MHC superficial, ou seja desligá-lo, o tumor
não só teria o potencial de infectar animais com
MHC diferente mas também poderia cruzar a
barreira entre as espécies".
Caso isso acontecesse, a vítima mais provável
seria o mais próximo parente vivo do demônio da
Tasmânia, o dasyurus de cauda pintada. O
dasyurus, conhecido localmente como quoll, é
mais um marsupial carnívoro natural da Tasmânia.
Do tamanho de um gato doméstico pequeno, ele tem
pelagem marrom avermelhada com manchas brancas,
e já é considerado como espécie ameaçada.
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