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Aquecimento pode matar primatas herbívoros
Indigestão induzida pelo aquecimento global pode ajudar
a fazer dos gorilas das montanhas africanos e de outros
primatas fundamentalmente herbívoros alvos fáceis de
extinção, aponta um novo estudo. De acordo com
determinados modelos computadorizados da mudança
climática, as temperaturas anuais médias podem crescer
em até dois graus, até a metade do século. As folhas que
crescem em ar mais quente contêm mais fibras e menos
proteínas digestíveis, o que significa que os animais
herbívoros que se alimentam preferencialmente de folhas
demoram mais tempo para processar o alimento que
consomem.

Além disso, as temperaturas mais elevadas podem forçar
os animais a passar mais tempo descansando na sombra a
fim de evitar superaquecimento. Mudanças como essas
podem forçar algumas espécies de gorilas e macacos a
passar mais tempo imóveis - tempo que elas poderiam
empregar, sob outras circunstâncias, para localizar
alimentos, proteger territórios ou manter elos sociais,
prevê o estudo.
A inação, combinada a alimentos menos nutritivos,
poderia no futuro fazer com que os gorilas das montanhas
e os macacos colombianos da África - uma grande família
de espécies que inclui macacos coloridos - se
extinguirem, prevê o estudo.
"Uma elevação de dois graus na temperatura não é uma
ideia extremamente exagerada", disse Amanda Korstjens, a
diretora científica do estudo, antropologista biológica
na Universidade de Bournemouth, Reino Unido. "Os animais
são capazes de se adaptar... e talvez os primatas
encontrem outra forma de lidar com essas mudanças", ela
acrescentou. Mas "minha expectativa é a de que eles já
estejam no limite de sua adaptabilidade".
Herbívoros flexíveis Korstjens e seus colegas compararam
modelos climáticos a dados anteriormente publicados
sobre o comportamento dos primatas, suas dietas e os
tamanhos dos grupos em que eles costumam viver, em
diversas áreas do mundo.
Com base nesses dados, a equipe criou mapas mundiais que
mostram onde os primatas vivem hoje e também as áreas
nas quais a mudança do clima deve causar extinções.
Os dados revelam que a expectativa de temperaturas mais
elevadas não deve afetar a maioria dos primatas
sul-americanos, que se alimentam de frutas altamente
digestíveis. Além disso, os habitats dos primatas
sul-americanos são menos fragmentados pela agricultura e
pela invasão progressiva de áreas desérticas do que é o
caso dos habitats de primatas africanos, disse Korstjens.
Em todo o mundo, os macacos que se alimentam
primordialmente de frutas ¿como os babuínos e os vervets
(Chlorocebus pygerythrus)- se sairiam melhor. Eles
ocupam uma gama de habitats mais ampla que a dos
herbívoros especializados em verduras, que estão
confinados a uma faixa estreita próxima à linha do
Equador, de acordo com o estudo, publicado pela revista
Animal Behaviour.
Nem tão estáveis quanto imaginado
Os primatas ameaçados poderiam se adaptar às mudanças
causadas pelo aquecimento global por meio de uma mudança
de dieta, mas ninguém sabe ao certo se isso aconteceria.
Os macacos colombianos poderiam comer algumas frutas,
mas seus estômagos altamente adaptados às folhas das
verduras não estariam equipados para uma dieta formada
apenas por frutas.
Essas suposições de falta de adaptabilidade podem ser o
ponto fraco do novo estudo, de acordo com Colin Chapman,
ecologista especializado em primatas na Universidade
McGill, de Montreal, que não participou do estudo."Não
está claro até que ponto (os macacos colombianos) seriam
flexíveis", ele disse.
Mas, "caso as suposições se confirmem", disse Chapman,"¿isso
demonstraria forte potencial de mudança de distribuição
e risco de extinção". Os gorilas das montanhas enfrentam
uma dificuldade especialmente séria, ele afirma. Dispõem
de acesso limitado a frutas frescas, nos habitats de
altitude elevada que ocupam, e estão "instalados nos
s das montanhas, sem alternativas de migração".
Uma África mais quente também poderia representar ameaça
para os esforços de conservação, segundo Chapman.
Parques nacionais bem administrados podem ser capazes de
impedir a caça clandestina e a exploração madeireira,
por exemplo, mas não teriam como se proteger contra uma
mudança de temperatura, afirmou o pesquisador.
"Você imagina que conta com um parque nacional
perfeitamente estável", disse, "mas de repente não é tão
estável quanto você imagina".
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