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Mamíferos chegaram em balsas à Madagascar
Náufragos estão provavelmente por trás da incrível
biodiversidade da ilha de Madagascar. Um novo modelo
fornece forte evidência de que lêmures e outros pequenos
mamíferos chegaram à ilha há milhões de anos, viajando
sobre "balsas" ou troncos africanos que foram levados
pelo mar.

O modelo, publicado na Nature, encerra um longo debate
sobre como se deu a biodiversidade de Madagascar. Ele
também pode dar pistas de como animais pré-históricos se
espalharam para outras partes do globo.
Madagascar é considerada um dos habitats naturais mais
diversos e ameaçados do mundo. Suas florestas são o lar
de mais de 150 espécies só de mamíferos, incluindo o
lêmure-de-cauda-anelada, tenrecídeos e ratos saltadores
gigantes. Mas todos esses mamíferos pertencem a apenas
quatro ordens.
A razão de existirem tantas espécies e tão poucas ordens
é um mistério. Alguns pesquisadores propuseram que
talvez houvesse uma ligação de terra entre Madagascar e
o continente africano há cerca de 20-60 milhões de anos.
Mas a geologia da região mostra poucas provas de tal
ponte. Além disso, uma ponte terrestre permitiria que
mais ordens de animal chegassem à ilha.
Uma hipótese alternativa é que os animais "surfaram¿ até
a ilha. Apresentada pela primeira vez 70 anos atrás pelo
paleontólogo americano George Gaylord Simpson, a ideia é
que pequenos mamíferos foram inadvertidamente arrastados
para o mar por tempestades e flutuaram até a costa de
Madagascar. Os sobreviventes evoluíram por milhões de
anos para povoar os inúmeros nichos do ecossistema da
ilha.
Uma teoria impopular
A ideia de animais atravessando centenas de quilômetros
de mar aberto agarrados a um tronco "soa meio duvidosa",
admite Matthew Huber, paleoclimatologista da
Universidade Purdue, em West Lafayette (Indiana), e
autor do artigo publicado na Nature. "O importante a se
lembrar é que não precisa acontecer sempre." Alguns
poucos lêmures sortudos ao longo de milhões de anos já
bastariam, afirma ele.
Mas seria impossível isso acontecer uma vez em um milhão
de anos sob as condições atuais: as correntes oceânicas
que fluem entre Madagascar e o continente se afastam da
ilha, não o contrário.
Os paleontólogos estavam empacados na problemática
corrente até o coautor de Huber, Jason Ali, geólogo da
Universidade de Hong Kong, na China, pedir a Huber que
investigasse o problema. Em menos de um dia, Huber
decifrou o enigma. Há quase 60 milhões de anos,
Madagascar e o continente africano estavam a cerca de
1.650 km ao sul de suas atuais posições, o que, de
acordo com o modelo de Huber, os coloca em um redemoinho
oceânico diferente. O redemoinho reverte a corrente,
propelindo animais à deriva em direção a Madagascar.
As correntes não só fluíam na direção certa como também
eram bem mais fortes, reduzindo o tempo de viagem de
animais naufragados para 30 dias ou talvez menos,
especialmente se houvesse um forte ciclone tropical na
região.
"Na verdade, é bem direto", afirma Ian Tattersall,
paleontólogo do Museu Americano de História Natural da
cidade de Nova York. Muitos biólogos já privilegiavam a
teoria da jangada, pois ela explicaria a atual
biodiversidade, afirma ele. A nova análise resolve o
último notório problema.
"Para mim, o debate está encerrado", concorda Anne Yoder,
antropóloga evolucionária da Universidade Duke, em
Durham (Carolina do Norte). Yoder acredita que muitos
outros tipos de animais e plantas também chegaram à ilha
por meio de troncos flutuantes.
Dada a simplicidade da solução do problema, pode parecer
impressionante que ninguém o tenha resolvido antes. Mas
Tattersall conta que paleontólogos e ecologistas não
estão equipados para simular correntes oceânicas
antigas. "Isso realmente exige uma especialização
diferente das pessoas que normalmente agonizam em cima
disso."
Huber afirma que, agora que ele ajudou os biólogos,
talvez eles possam ajudá-lo. Pelo estudo dos registros
de fósseis e biodiversidade atuais, diz, ele pode saber
mais sobre como as antigas correntes marítimas fluíam.
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