Animais marinhos possuem "cola" e
pode acabar com ponto cirúrgico
No laboratório do doutor Russell J. Stewart, na
Universidade de Utah, há um tanque de água
salgada contendo um estranho objeto: um bloco
duro como pedra, do tamanho de uma bola de
futebol e cheio de pequenos buracos.

Ele tem a aparência de algo do espaço sideral,
mas sua origem é terrena, as águas intertidais
da costa da Califórnia. O bloco é um tipo de
lar, ocupado por uma colônia da espécie
Phragmama californica, também conhecida em
inglês como "sandcastle worm" (verme do castelo
de areia). Na verdade, é mais um condomínio
residencial. Cada buraco é a entrada de um tubo
separado, cada um construído sobre o outro por
diferentes vermes.
A P. californica faz um excelente trabalho de
construção em seu tubo, um abrigo do qual ela
nunca sai, usando apenas grãos de areia e
pequenos pedaços de concha. Mas o animal não
passa tanto tempo cimentando a obra quanto um
operário de construção. Ao invés disso, ele usa
um órgão especializado em sua cabeça, que produz
uma quantidade microscópica de cola, pronta para
ser colocada na estrutura existente. Depois,
outro grão é disposto sobre o local e o animal
espera firmar.
O mais extraordinário - e a razão de esses
animais estarem no laboratório de Stewart, longe
de seu habitat nativo - é que tudo isso é feito
debaixo d¿água. "Adesivos feitos pelo homem são
muito impressionantes", disse Stewart, um
professor associado de bioengenharia da
universidade. "É possível colar aviões com eles.
Mas esse animal cola coisas debaixo d¿água há
centenas de milhões de anos, algo que ainda não
conseguimos fazer."
Stewart é um dos vários pesquisadores ao redor
do mundo desenvolvendo adesivos que funcionam em
condições úmidas, usando vermes, mexilhões,
cirrípedes e outras criaturas marinhas como seus
guias. Embora existam muitas possíveis
aplicações - a Marinha americana, por exemplo,
tem um interesse natural na pesquisa e financia
parte dela -, o maior objetivo é criar colas que
possam ser utilizadas no ambiente úmido
fundamental: o corpo humano.
É cedo demais para declarar que o trabalho dos
pesquisadores é um sucesso, mas eles estão
testando adesivos em ossos animais e outros
tecidos, e estão otimistas de que suas
abordagens irão funcionar. "Já teria passado a
estudar outra coisa se não acreditasse nisso",
disse o doutor Phillip B. Messersmith, professor
da Universidade Northwestern que está
desenvolvendo adesivos com base nas substâncias
produzidas por mexilhões e testando se eles
podem ser usados para reparar rupturas em sacos
amnióticos e outras aplicações.
Embora colas de pele - a maioria da variedade
cianocrilato, ou supercola - já existam no
mercado, sua efetividade é limitada. Elas muitas
vezes não podem ser usadas, por exemplo, em
incisões em que a pele é repuxada ou esticada,
ou devem ser usadas acompanhadas de suturas ou
grampos. Adesivos fortes o bastante para colar a
pele sob tensão, ou reparar um osso ou outros
tecidos internos - sem convidar o ataque do
sistema imunológico - ainda não foram obtidos
pelos pesquisadores.
A natureza mostra que isso é possível, disse o
doutor J. Herbert Waite, professor da
Universidade da Califórnia, Santa Barbara, que
fez a maior parte do trabalho inicial de
identificar os adesivos que os mexilhões usavam
para aderir a rochas e outras superfícies. Mas
os pesquisadores deveriam ver a abordagem da
natureza como um guia geral, afirma ele, e não
como um caminho exato.
"Na minha opinião sobre pesquisas ou materiais
de inspiração biológica, quase sempre acredito
não ser seguro se apegar submissamente à
substância química específica", Waite disse,
"mas sim extrair os conceitos importantes que
podem ser reproduzidos."
Assim, o objetivo desses pesquisadores não é
duplicar os adesivos naturais que funcionam bem
debaixo d'água, mas imitá-los e criar colas que
sejam ainda mais adequadas a humanos. "Queremos
pegar elementos de adesivos criados por químicos
e combiná-los a elementos únicos que a natureza
usa", Stewart disse.
Adesivos sintéticos podem não só funcionar
melhor, mas também podem ser produzidos em
grandes quantidades. Organismos marinhos
fabricam suas colas em quantidades muito
pequenas - a gotícula típica produzida pela P.
californica, por exemplo, é da ordem de 100
picolitros. Mesmo se a substância pudesse ser
coletada antes de secar, seriam necessárias 50
milhões de gotículas para preencher uma colher
de chá.
"No fim das contas, a maior razão para a
pesquisa é tentar conseguir uma quantidade maior
da substância", disse o doutor Jonathan Wilker,
professor associado de química inorgânica da
Universidade Purdue, que trabalha em análogos
dos adesivos dos mexilhões e estuda também
ostras, cirrípedes e outros organismos.
Mas existem vários empecilhos para a produção de
colas que funcionem debaixo d'água, Wilker
disse. "Um deles é que sempre que a superfície é
muito molhada, a cola adere à camada de água, e
não à superfície em si. Por isso, ela desgruda."
Outra é que, para aderir, as colas precisam de
um ambiente com pouca ou nenhuma água - elas
precisam secar. A maioria das colas não adere
debaixo d¿água, apenas aquelas que tendem a
secar assim que são expelidas em meio à água.
Além disso, diz Messersmith, como acontece com
toda cola, "a aderência é algo complicado, mesmo
quando parece muito simples."
"Existem processos acontecendo na interface
entre adesivo e superfície, e existe a força do
adesivo em si", disse. "Se temos um, mas não o
outro, não conseguimos nada, porque em algum
lugar, teremos um ponto fraco no sistema e ele
se romperá."
A P. californica resolve seus problemas debaixo
d¿água impecavelmente. As proteínas que são a
base do adesivo contêm grupos de fosfato e
amina, fragmentos moleculares conhecidos por
promoverem a aderência. "Esses cadeias laterais
são provavelmente o que faz a cola aderir à
superfície de imediato", Stewart disse.
O animal produz a cola em duas partes do corpo,
com diferentes proteínas e grupos laterais em
cada. Produzidas em glândulas separadas, as
substâncias se juntam apenas quando secretadas,
como uma resina epóxi. Ao se misturarem, elas
formam um composto que, embora seja à base
d'água, não dissolve.
A cola adere inicialmente em cerca de 30
segundos, um processo provavelmente desencadeado
pela mudança abrupta de acidez - ela é muito
mais ácida do que a água do mar, diz Stewart. Ao
longo das seis horas seguintes, o adesivo
endurece completamente, à medida que ligações
cruzadas se formam entre as proteínas. "Ela se
transforma em um material com a consistência do
couro de sapato", ele disse. "Ela continua
flexível, mas é muito resistente."
Como outros pesquisadores, Stewart decidiu usar
polímeros sintéticos como a estrutura de seu
adesivo, e ignorou muitos outros aspectos da
substância química produzida pela P.
californica. "Quem falou que os aminoácidos
específicos são importantes?", ele disse,
citando um exemplo. "Eles são apenas algo com o
qual o animal convive. ¿Por outro lado, se
decidirmos simplesmente que talvez a parte de
fato importante sejam as cadeias laterais, é
muito simples copiar isso com um polímero
sintético."
O adesivo de Stewart forma o que os químicos
chamam de um complexo coacervado, um tipo de
círculo molecular que barra a água. Portanto,
ele é um líquido injetável e imiscível.
"Perfeito para um adesivo subaquático protegido
da água -, ele disse. Mas diferente da P.
californica, ele pode modificar a substância
química para fazê-la secar com mais ou menos
rapidez, dependendo da aplicação.
Stewart diz que a cola parece ser poderosa o
bastante para consertar fraturas em ossos
crâniofaciais, uma aplicação que ele está
estudando em ratos. Ele também acredita que ela
possa ser útil para reparar incisões na córnea e
para consertar outras fraturas ósseas com mais
precisão, ancorando pequenos pedaços que não
podem ser segurados com pinos ou parafusos. "Mas
não temos nenhuma fantasia sobre colar fêmures",
ele disse.
Stewart trabalha com a P. californica desde 2004
e recentemente começou a estudar outro grupo de
criaturas que constroem tubos, as larvas da
mosca d¿água. Praticantes da pesca com mosca
conhecem esses organismos, que habitam o leito
de riachos de água doce durante a incubação das
moscas.
As larvas constroem os tubos da mesma forma que
a P. californica, mas com uma cola muito
diferente - fios de seda que aderem aos grãos de
areia, unindo-os. Em algum estágio
evolucionário, dezenas de milhões de anos atrás,
as moscas tinham parentesco com o bicho da seda,
por isso, o fato de produzirem seda não é
surpresa. "Com a diferença de que é uma seda
grudenta e subaquática", Stewart disse.
Ele está começando a estudar as características
da seda e entender como as moscas a produzem,
mas o objetivo futuro é o mesmo da P.
californica. "Queremos tentar reproduzir isso
algum dia em breve, e produzir fibras
subaquáticas", ele disse. "Polímeros
subaquáticos protegidos da água que podem ter
alguma aplicação médica."
Uma grande preocupação com qualquer cola
sintética, a despeito de sua similaridade com a
substância de um ser vivo, é a
biocompatibilidade. "Podemos conseguir resolver
os problemas de aderência", Messersmith disse,
"mas então nos deparamos com os problemas
biológicos."
Existem supercolas médicas com uma aderência
poderosa, ele disse, "mas esses materiais são
altamente imunogênicos." Stewart disse que até
agora constatou pouca inflamação nos estudos com
ratos, e pouca ou nenhuma evidência de toxidade
ou inibição da cicatrização óssea.
Mas ele observou que, como o objetivo seria
obter uma cola que acabasse se decompondo, certa
reação do corpo seria necessária.
Com a cola de osso, por exemplo, "é desejável
que ela se decomponha mais ou menos no mesmo
ritmo que o osso cicatriza", ele disse. Por
isso, em versões degradáveis de colas de
polímeros sintéticos, Stewart na verdade
acrescenta de volta algumas proteínas que podem
ser atacadas ou quebradas por células
especializadas. "Não seria desejável ficar com
essa cola plástica nos ossos pelo resto da
vida", ele disse.