Brasileiros descobrem inseto
que faz predador ser guarda-costa
Pesquisadores da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp) descobriram que os insetos
herbívoros da espécie Guayaquila xiphias -
"parentes" próximos das cigarrinhas e dos
pulgões - enganam formigas para garantir sua
defesa contra outros predadores. De acordo com
os cientistas, os insetos atraem as formigas com
uma substância açucarada e depois utilizam uma
camuflagem química para evitar o ataque das
novas defensoras, conhecidas por serem os
insetos mais agressivos da floresta. As
informações são da agência Fapesp.

O estudo fez parte da pesquisa de mestrado de
Henrique Silveira no Instituto de Biologia da
Unicamp, feita sob orientação dos professores
José Trigo e Paulo Sérgio de Oliveira. De acordo
com a agência, as formigas são abundantes em
folhagens de ecossistemas tropicais e seus
principais interesses são a busca de açúcar e a
predação de outros insetos.
"Para um inseto herbívoro que vive nas
folhagens, o risco de ser atacado pelas formigas
é muito grande. Uma das formas que eles
encontraram para minimizar esse risco é produzir
gotículas de secreções açucaradas que induzem as
formigas a mantê-los como fonte de alimento, em
uma relação semelhante a que temos com o gado de
leite", disse Oliveira à agência.
Segundo o pesquisador, assim como um criador de
gado está interessado não apenas no leite, mas
também na carne, as formigas também costumam
matar esses insetos para se alimentar. "Além do
açúcar, as formigas estão interessadas em
proteínas. Queríamos saber o que impede que as
formigas ataquem os insetos herbívoros depois de
consumir o açúcar que eles produzem", afirmou.
A pesquisa indica que essa espécie desenvolveu,
ao longo da evolução, uma secreção para atrair
as formigas e uma camuflagem para essas não a
reconheça como presas. Assim, os insetos
conseguiram que o inseto mais agressivo de todos
fosse seu guarda-costas.
"Normalmente, quando pensamos em uma camuflagem,
tendemos a imaginar um recurso visual, como uma
mariposa disfarçada pela semelhança de suas asas
com a casca de árvores. Mas o universo sensorial
das formigas não é visual como o nosso - é
predominantemente químico. Elas reconhecem o que
tateiam com suas antenas", disse o pesquisador.
Testes
A camuflagem química dos insetos faz com que sua
superfície fique quimicamente semelhante à
superfície de uma planta. "Ao consumir a
substância secretada pelos herbívoros, as
formigas os percebem como se fossem glândulas da
planta secretando o açúcar", afirmou.
Durante a pesquisa, os cientistas compararam o
perfil químico da superfície desse inseto e o da
superfície da planta em que vivem e constataram
plena semelhança. Os pesquisadores ainda
testaram colocar as formigas e o outro inseto em
outra planta sem semelhança química com eles, e
o resultado foi desastroso, para o inseto.
Os cientistas ainda "vestiram" uma larva,
normalmente comida pelas formigas, com a
camuflagem química do Guayaquila xiphias e
constataram que o animal não foi atacado. "A
camuflagem química já havia sido levantada na
literatura, mas pela primeira vez demonstramos
que um inseto herbívoro que atrai formigas
consegue se proteger dos ataques delas por meio
desse recurso", disse o pesquisador.