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Telescópio vê surgimento de estrela supermagnética



Um grupo de astrônomos americanos anunciou na semana passada ter conseguido observar um fenômeno totalmente inesperado pela física. Enquanto monitoravam uma estrela de nêutrons --estrela "queimada", que explodiu após queimar todo seu combustível nuclear--, cientistas a flagraram se transformando em um "magnetar", o tipo de objeto cósmico com o campo magnético mais forte que se conhece.

"Estamos vendo um tipo de estrela de nêutrons literalmente se transformar em outro, bem na frente dos nossos olhos", diz o astrofísico Fotis Gavriil, do Centro Goddard da Nasa (agência espacial americana), de Greenbelt (EUA), em comunicado à imprensa. Gavriil e colegas relataram sua descoberta na última sexta-feira, em estudo no site revista "Science".

Gonzalez/Gavriil/Slane/Nasa/CXC

Fotografia dos destroços da explosão estelar que gerou o astro

A estrela de nêutrons que o grupo do cientista estava observando com o RXTE (telescópio espacial Rossi, detector de raios X) era do tipo "pulsar", que gira extremamente rápido. A transformação era inesperada pelos cientistas porque pulsares e magnetares são tipos de estrelas de nêutrons com comportamentos bem diferentes.

Um pulsar tem esse nome porque emite pulsos de ondas de rádio. É como observar um farol giratório em uma ilha distante; cada vez que o feixe de luz passa por nossos olhos, vemos sua torre acender e apagar. Um pulsar, porém, tem uma taxa de giro muito mais rápida --dando dezenas ou centenas de voltas por segundo-- e emite ondas de rádio em vez de luz.

Já um magnetar é uma estrela de nêutrons bem diferente, que não possui rotação tão rápida nem emite ondas de rádio no mesmo padrão observado pelos pulsares. Sua característica mais distinta é a abundante emissão de raios X e raios gama --tipos de radiação extremamente energética--, propelidos por um campo magnético incrivelmente forte.

Enquanto uma estrela como o Sol tem um campo magnético de cerca de 0,001 tesla (unidade de medida para magnetismo), o campo de um magnetar possui algo da ordem de 1 bilhão de teslas.

A descoberta de Gavriil foi importante porque os cientistas não sabiam muito bem como um magnetar surge.

"Magnetares são, na verdade, objetos muito raros", explica a astrofísica Victoria Kaspi, da Universidade McGill, de Montreal (Canadá), que também participou do estudo. "A existência deles só ficou estabelecida nos últimos dez anos, e nós conhecemos apenas um punhado deles em toda a galáxia."

Enquanto o número de pulsares catalogados está na casa dos 1.800, o número de magnetares não passa de 12. Segundo Kaspi, a observação do RXTE que identificou uma fonte de raios X em um pulsar fornece o primeiro indício de que há uma relação estreita entre magnetares e pulsares.

Evolução estelar

"Essa fonte pode estar evoluindo para se tornar um magnetar, ou pode estar apenas exibindo propriedades similares às de um magnetar", diz a astrofísica. "Só que ainda não sabemos. Estamos muito ansiosos para descobrir."

A estrela de nêutrons na qual o RXTE detectou o estranho comportamento, a 20 mil anos-luz da Terra, ainda não foi batizada. É identificada pelo código "PSR J1846" e fica no meio dos restos de uma supernova --explosão estelar-- registrada com o código Kes 75. O que os cientistas acharam estranho é que seu campo magnético era baixo demais para que ela estivesse se transformando num magnetar.

Kaspi afirma que será importante a partir de agora acompanhar com zelo o comportamento desta e de outras estrelas de nêutrons para ter certeza se os magnetares nascem a partir dos pulsares ou se apenas apresentam comportamento hipermagnético de vez em quando.

"O campo magnético de PSR J1846 pode ser muito mais forte do que apontou a medição, sugerindo que muitas estrelas de nêutrons jovens classificadas como pulsares possam ser magnetares disfarçados", diz.


 

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