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Tédio é ferramenta de separação de informações inúteis
 

Até mesmo as mais fabulosas e movimentadas vidas podem ocasionalmente enfrentar períodos de entorpecimento, momentos em que as velas afrouxam em meio a uma calmaria.

Astros de cinema têm de enfrentar filas para renovar suas carteiras de motorista. Primeiros-ministros esperam com sorrisos gélidos no rosto pelo fim de eventos formais intermináveis.

Os mais exagerados dos astros do rap de vez em quando passam uma tarde de agosto sem coisa alguma a fazer, e caminham à toa por suas mansões, verificando a geladeira, observando ociosamente a vida pela janela, ouvindo a narrativa do jogo de beisebol que o rádio oferece. Imaginando: a que horas exatamente chega o correio?

Os cientistas, exatamente como todas as pessoas, sabem muito sobre o tédio, ainda que mais como resultado do estudo atento de resmas de dados sem significado do que por meio de estudos quanto a esse estado mental em si.

Boa parte das pesquisas científicas conduzidas quanto a esse tópico se concentraram nas más companhias em que ele tende a se manifestar, da depressão e consumo excessivo de alimentos ao fumo e uso de drogas.

Mas o tédio é mais que uma perda temporária de interesse ou um precursor de futuras traquinagens que trarão complicações àqueles que o sentem. Alguns especialistas dizem que as pessoas desconsideram certas coisas por bons motivos e que, com o passar do tempo, o tédio se torna uma ferramenta de separação de informações - e um filtro de informações inúteis mais e mais sensível.

Em diversos campos de pesquisa, entre os quais a neurociência e a educação, pesquisas sugerem que a queda a uma espécie de transe obnubilado permite que o cérebro redesenhe o mundo exterior de maneiras que podem ser criativas e produtivas pelo menos com a mesma freqüência com que podem ser prejudiciais ou perturbadoras.

Em estudo recente publicado pelo Cambridge Journal of Education, Teresa Belton e Esther Priyadharshini, da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, revisaram décadas de pesquisas e teorias sobre o tédio, e concluíram que é hora de o tédio "ser reconhecido como uma emoção humana legítima, que pode ocupar posição central para o aprendizado e a criatividade".

Psicólogos em geral costumam estudar o tédio usando um questionário de 28 perguntas que solicita que os participantes avaliem com que precisão uma lista de sentenças descreve o seu estado: "O tempo sempre parece estar passando devagar demais", por exemplo, é uma das afirmações com as quais eles devem expressar concordância ou discordância.

Quem apresenta correlações elevadas nesses testes tende a apresentar igualmente indicadores elevados quanto a depressão e impulsividade. Mas não se sabe ao certo o que vem primeiro - a inclinação ao tédio, ou os problemas de humor e de comportamento.

"É a diferença entre a espécie de pessoa que consegue olhar para uma poça de lama e encontrar algo de interessante a observar e a pessoa que encontra dificuldades para ficar absorta diante de qualquer estímulo", disse Stephen Vodanovich, psicólogo da Universidade do Oeste da Flórida, em Pensacola.

O tédio como estado temporário é outro assunto, e em parte reflete o óbvio: que o cérebro concluiu não haver nada de novo ou interessante que ele possa aprender de um dado ambiente, pessoa, evento ou parágrafo. Mas essa atitude está longe de ser um passivo equivalente neural a alguém que dê de ombros diante da vida.

Usando recursos de captura de imagens cerebrais, os neurocientistas constataram que o cérebro mantém elevado nível de atividade mesmo quando está desligado, e consome apenas 5% a menos de energia em seu 'estágio de repouso' padronizado do que quando envolvido na realização de tarefas rotineiras, de acordo com o Dr. Mark Mintun, professor de radiologia na Universidade Washington, em St. Louis.

Essa ligeira redução pode fazer uma grande diferença em termos de percepção do tempo. Os segundos em geral parecem passar de maneira mais lenta quando o cérebro está ocioso do que quando ele está absorto. E esses segundos distendidos não são empregados de maneira 'viver o momento', ou em meditação, tampouco. Representam momentos frustrados, inquietos.

Essa combinação, argumentam os psicólogos, torna o tédio um estado que exige alívio - se não por meio de um cochilo ou bate-papo, então por meio de alguma forma de jogo mental.

"Quando as condições internas e externas são corretas, o tédio oferece a uma pessoa a oportunidade de uma resposta construtiva", afirmou Belton, co-autora da resenha publicada pela revista de Cambridge, em uma mensagem de e-mail.

Alguns indícios quanto a isso podem ser percebidos em comportamentos semiconscientes, como quando as pessoas rabiscam em meio a uma aula chata, mexem nos cabelos, dobram as páginas de seus cadernos em formatos estranhos.

Devaneios também podem ser uma espécie de entretenimento construtivo, em forma de diversão que a pessoa empreende sozinha, dizem os psicólogos, especialmente nos momentos em que a mente está tentando lidar com um problema.

Em experiências conduzidas durante os anos 70, psiquiatras demonstraram que os participantes que estavam realizando tarefas de associação de palavras logo se cansavam da brincadeira, assim que as respostas óbvias eram dadas, como se o tédio "tivesse o poder de exercer pressão sobre os indivíduos para que expandissem sua capacidade de invenção", disse Belton.

Nos últimos anos, uma equipe de médicos canadenses teve a coragem de examinar o nevoeiro do tédio enquanto ele se adensava diante de seus olhos (entreabertos). Enquanto assistiam a palestras sobre demência em eventos científicos, os médicos - Kenneth Rockwood, David B. Hogan e Christopher J. Patterson - mantiveram registros sobre o número de participantes que caíam no sono em meio à sessão.

Constataram que em uma palestra de uma hora à qual 100 médicos estivessem presentes, em média 16 membros da platéia cochilavam em algum momento. "Escolhemos esses método porque contagens são científicas", escreveram os autores em seu pioneiro relatório sobre o trabalho, publicado em 2004 pelo Canadian Medical Association Journal.

Os pesquisadores analisaram as apresentações a que estavam assistindo e constataram que um tom monótono apresentava a mais forte correlação com episódios de 'cochilo durante a palestra' (CDAP).

O segundo fator indutivo de sono era um palestrante que usasse paletó de tweed.

Em entrevista por telefone, Rockwood, professor de medicina geriátrica na Universidade Dalhousie, em Halifax, Nova Escócia, disse que, quando o conteúdo apresentado é conhecido, como costuma ser o caso de boa parte das palestras, o desempenho do palestrante passa a ser vital. "As coisas se resumem a isso, na verdade", ele disse. "Se o cara ficar resmungando lá, a platéia morre de tédio".

Rockwood e seus co-autores seguiram esse estudo com dois outros relatórios relacionados, e atribuem a inspiração para continuar com o projeto a Patterson.

Logo no começo de uma daquelas primeiras palestras sobre demência, ele caiu em sono profundo.

 

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