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Estrela em disparada faz escultura no céu
RAFAEL GARCIA
Um grupo de cientistas analisando imagens do Telescópio
Espacial Hubble revelou sem querer um fenômeno
astronômico de beleza até então desconhecida: estrelas
mergulhando em alta velocidade dentro de nuvens de gás
cósmico. A descoberta só foi feita porque o clarão
gerado na colisão atraiu a atenção de astrônomos que
procuravam objetos cósmicos completamente diferentes.
JPL/Nasa/ESA

"Estávamos conduzindo uma varredura de imagens com o
Telescópio Espacial Hubble para procurar nebulosas
protoplanetárias [restos de matéria que se formam num
dos estágios da morte de uma estrela]", disse à Folha
Raghvendra Sahai, do Laboratório de Propulsão a Jato da
Nasa, em conversa por e-mail. "Quando olhamos para as
imagens, vimos formas que não lembravam a dessas
nebulosas, e sim estruturas de cometas em forma de
pontas de flecha deixando grandes rastros."
Imagens captadas pelo Hubble mostram clarões e trilhas
formadas no fenômeno da passagem de estrelas jovens em
alta velocidade
O que gera as imagens, explica o cientista, não é a
colisão do gás interestelar com a estrela em si, mas sim
com o seu "vento" estelar --partículas eletricamente
carregadas emitidas pela estrela. São as mesmas
partículas que o Sol emite e provocam o fenômeno das
auroras polares nos céus de alta latitude na Terra.
Apesar de não terem ainda uma estimativa precisa da
velocidade dessas estrelas, os astrônomos estimam que
elas estejam trafegando a até 180 mil km/h, em relação
ao gás. A descoberta foi apresentada pelo grupo de Sahai
ontem no encontro anual da Sociedade Astronômica
Americana, em Long Beach (Califórnia).
Segundo os pesquisadores, ainda não está claro que tipo
de fenômeno faz com que as estrelas observadas atinjam
velocidades tão grandes --cinco vezes as de outras
estrelas de mesma massa e idade das observadas.
Em parte, o grande brilho da colisão se deve ao fato de
as estrelas serem ainda jovens, com alguns milhões de
anos (o Sol tem 4,6 bilhões), com vento estelar forte.
Estrelas como essas podem atingir grande velocidade, diz
Sahai, quando são "cuspidas" de grandes aglomerados
estelares por alguma perturbação gravitacional. Sistemas
binários --duas estrelas, uma orbitando a outra-- também
podem ser a origem do fenômeno, diz. Quando uma estrela
morre, a outra pode ser lançada para longe a grande
velocidade.
Grandes choques de estrelas com nuvens de gás já haviam
sido detectados antes pelo Iras (Satélite Astronômico
Infravermelho), mas só agora com o Hubble foi possível
observá-los em luz comum --o infravermelho é invisível
ao olho humano. As estrelas desenfreadas mostradas agora
pelo Hubble, porém, têm massa muito menor. Segundo Sahai,
isso significa que o fenômeno registrado poucas vezes
pode ser mais comum do que se imaginava.
Para ele, a importância de estudar estrelas desenfreadas
agora é que elas podem afetar a evolução de galáxias ao
bagunçar o gás interestelar, a matéria-prima que a
gravidade usa para formar novas estrelas.
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