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Variedade mais mortal da malária cria resistência a
drogas
As aflições da empobrecida nação do Camboja estão em sua
forma mais evidente na região oeste: garotas procurando
emprego na frente de restaurantes, sujas estradas
esburacadas e abundantes sinais de "Perigo, Minas!" Mas
o que chama a atenção é um problema potencialmente mais
grave, especialmente para os que são de fora. O parasita
que causa a forma mais mortal da malária está mostrando
os primeiros sinais de resistência à melhor droga
existente contra a doença.
Nos últimos anos, a combinação de tratamentos com
artemisina, uma droga antimalária extraída de uma planta
usada na medicina tradicional chinesa, tem sido
considerada a maior esperança para a erradicação da
malária na África, onde mais de duas mil crianças morrem
pela doença por dia.
Agora uma série de estudos, como um recentemente
publicado no New England Journal of Medicine e outro
prestes a sair, consolidou um consenso entre
pesquisadores que a artemisina está perdendo sua
potência e que maiores esforços são necessários para
evitar que a variação da malária resistente à droga saia
da região e se espalhe pelo mundo.
"Isso é algo que não dá para esconder debaixo do
tapete," disse R. Timothy Ziemer, almirante aposentado
da Marinha americana que chefia a Iniciativa do
Presidente dos EUA contra a Malária, um programa lançado
pelo governo Bush há três anos para cortar as mortes da
doença pela metade nos países mais afetados.
Mês passado, Ziemer se encontrou com os governos
tailandês e cambojano para tratar do problema da
resistência, que afeta as drogas usadas pela iniciativa
na África.
"Acredito que precisamos chamar muita atenção para o
caso: gente, isso é importante," ele disse.
Embora os dois estudos mostrem sinais preliminares da
resistência à artemisina, os medicamentos foram
considerados ineficazes em apenas dois pacientes no
estudo já publicado. E, ao final, eles acabaram sendo
curados.
Mas especialistas da doença alertam que essa área da
fronteira tailandesa-cambojana já foi no passado a
origem de variedades resistentes da malária, começando
nos anos 1950 com a droga cloroquina.
Introduzida imediatamente após a Segunda Guerra Mundial,
a cloroquina foi considerada uma cura milagrosa contra a
malária falciparum, o tipo mais mortal. No entanto, o
parasita evoluiu, a variedade resistente se espalhou e a
cloroquina é hoje considerada praticamente inútil contra
a malária falciparum em muitas partes do mundo,
inclusive na África subsaariana.
Levou décadas para essa forma resistente se espalhar
pelo mundo, portanto, espera-se que as drogas com base
na artemisina ainda sejam eficazes por muitos anos.
Como precaução contra a resistência à artemisina,
autoridades de saúde globais tentam assegurar que seja
vendida apenas uma pílula da droga combinada a outros
remédios antimalária que ficam mais tempo no sangue,
garantindo o extermínio de quaisquer parasitas
resistentes à artemisina.
Os dois testes recentes foram feitos em comprimidos que
não tinham outras drogas combinadas. Mas se a
resistência se disseminar, não existem novas drogas para
substituir as combinações de artemisina e nenhuma
perspectiva de que existirão tão cedo.
"Isso pode se espalhar em qualquer direção; precisamos
garantir que isso não aconteça," disse Pascal Ringwald,
coordenador para malária da Organização Mundial de Saúde
que há três anos liderou um estudo sobre a resistência à
droga no Camboja e é um dos autores do estudo a ser
publicado. "Sabemos que ainda não chegou ao Bangladesh,"
disse. "Nem à Índia."
Documentos científicos mostram como nos anos 1950 os
parasitas da malária resistentes à cloroquina se
espalharam pela Tailândia, Burma, Índia e África, onde
ocorre a vasta maioria do um milhão de mortes anuais
relacionadas à doença.
Para evitar a repetição de tratamentos com artemisina,
os Estados Unidos deixaram de lado diferenças políticas
e aprovaram a criação de um centro de monitoramento da
malária sob o regime militar de Mianmar, ex-Burma. A
Bill and Melinda Gates Foundation, grande financiadora
de pesquisas sobre malária, está doando US$ 14 milhões
aos governos tailandês e cambojano para ajudá-los a
custear um programa de contenção.
Esse programa inclui o fornecimento de telas
antimosquito, um programa de exames para os habitantes
de áreas afetadas e visitas de acompanhamento por
agentes de saúde para averiguar a efetividade das
drogas, disse o doutor Duong Socheat, diretor do Centro
Cambojano contra a Malária. Do lado tailandês da
fronteira, o governo possui "microscopistas sobre
motocicletas" que coletam amostras de sangue de
habitantes e trabalhadores migrantes, as analisam no
local e fornecem os remédios.
Mas alguns especialistas gostariam de ver uma abordagem
ainda mais agressiva.
"Muitos de nós acham que isso deveria ser tratado da
mesma forma que o SARS," disse o coronel Alan J. Magill,
pesquisador do Instituto do Exército Walter Reed de
Pesquisa, em Maryland. "Isso deveria ser uma emergência
global abordada de forma global." O SARS, doença
respiratória que se espalhou rapidamente pela Ásia e
outros lugares em 2003, matou mais de 700 pessoas.
O parasita falciparum é um dos quatro tipos de malária e
de longe o mais virulento. Ele entra na corrente
sangüínea por picada de mosquito e, após incubação de
cerca de duas semanas, se multiplica e assume o controle
das células vermelhas do sangue. Então, causa febre,
calafrios, dores de cabeça e náusea, entre outros
sintomas. Se não tratada, as células infectadas podem
bloquear os vasos sanguíneos e fatalmente cortar o
suprimento de sangue a órgãos vitais.
Os estudos recentes mostram que as drogas com base na
artemisina estão se tornando menos efetivas na remoção
do parasita da corrente sangüínea. Enquanto há alguns
anos eram necessárias 48 horas para limpar o sangue dos
parasitas, agora o processo pode levar 120 horas.
"O que nosso estudo demonstra é que o tratamento não
funciona em alguns pacientes - a malária vai embora e
depois retorna," disse o tenente-coronel Mark M. Fukuda,
médico do Exército americano cujo estudo foi publicado
no New England Journal of Medicine em dezembro.
Regiões diferentes utilizam combinações diferentes de
artemisina. O governo cambojano recomenda que a
artemisina seja combinada à mefloquina, desenvolvida por
militares dos Estados Unidos e conhecida comercialmente
como Lariam. O artemeter, um derivado da artemisina, é
normalmente combinado a outra droga antimalária, a
lumefantrina. Recentemente, essa foi considerada a
combinação mais efetiva em um estudo com crianças em
Papua-Nova Guiné.
O mosquito responsável pela transmissão da malária ainda
é endêmico nos Estados Unidos. Mas moradias modernas,
melhor acesso ao sistema de saúde e o uso de inseticidas
praticamente erradicaram a doença nos países mais ricos.
Em Tasanh, um vilarejo 32 quilômetros a leste da
fronteira tailandesa, Fukuda e uma equipe de
pesquisadores trabalham no que chamam eufemisticamente
de ambiente mais desafiador. Tasanh é abastecido por uma
estrada de terra, não tem água corrente, nem
fornecimento público de eletricidade.
Em uma clínica pequena e simples, Chet Chen, um paciente
de 18 anos com malária, se deita indiferente sobre uma
cama com armação de metal perto de uma amostra de sua
urina em uma garrafa de água. O enfermeiro que examina
amostras de sangue está do lado de fora ajudando a
consertar o cortador de grama.
Em um anexo pequeno e mais novo da clínica, Fukuda e
seus pesquisadores trabalham em um ambiente trilíngüe -
khmer (cambojano), tailandês e inglês - o que às vezes
gera confusão.
Os americanos na clínica recentemente riram quando um
pesquisador tailandês descreveu em inglês um paciente
com "corpo quente" - uma tradução literal da expressão
tailandesa para "febre," mas que acaba evocando imagens
de clubes noturnos.
Fukuda chama essa região do Camboja como o "canário na
mina de carvão" da resistência a drogas, ou um sinal de
perigo.
No passado, trabalhadores migrantes em plantações e
minas de pedras preciosas ajudaram a espalhar para o
oeste a variedade resistente à droga. Um histórico de
agitação civil, drogas falsas e um governo fraco e
subfinanciado tornou o controle da malária difícil. No
caso da cloroquina, o uso preventivo da droga - que
chegou a ser adicionada ao sal para proteger a população
- pode ter levado à resistência ao remédio, afirmam
Fukuda e outros.
Apenas nos anos 1990, a mefloquina, a droga do Exército
americano, foi combinada à artemisina, desenvolvida a
partir de uma erva chinesa.
As combinações baseadas em artemisina se mostraram
rápidas e aparentemente desaceleraram a transmissão da
doença, disse o doutor John MacArthur, especialista em
doenças infecciosas da Agência Americana para o
Desenvolvimento Internacional, em Bangcoc, Tailândia.
MacArthur e outros afirmam que a resistência às drogas
contra a malária é uma conseqüência natural do uso
disseminado do medicamento. "No caso da malária, é o
darwinismo do parasita," disse. "Ele gosta de
sobreviver."
Entretanto, alguns pesquisadores temem passar a mensagem
errada ao público a respeito da eficácia das drogas
baseadas em artemisina.
"Não é a sentença de morte da artemisina," disse o
doutor Nicholas White, especialista em malária que é o
presidente de um programa de pesquisa conjunto entre a
Universidade Oxford e a Universidade Mahidol, na
Tailândia. "As drogas ainda funcionam no Camboja, embora
não tão bem quanto costumavam."
Mas dado o histórico de fracassos médicos da região,
parece haver um consenso sobre a solução. "Se livrar de
toda malária do Camboja," disse White. "Erradicá-la.
Eliminá-la."
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