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Cientistas encontram
padrão nas correntes marinhas
Suponha que uma bolha de pesticidas ricos em dioxina tenha sido
lançada à baía de Monterey. Ela poderia se dispersar rapidamente no
Oceano Pacífico. Mas, horas depois, um derramamento de toxinas da
mesma dimensão e no mesmo ponto poderia circular perto da costa,
representando grave perigo para a vida marinha.

As bravias águas de superfície da baía se movimentam de maneira tão
caótica que uma pequena variação de lugar ou horário para uma bolha
de petróleo, boia ou ser humano que entre na água pode ditar a
direção em que será lançada - para o oceano aberto ou rumo à costa?
Mas os resultados não são imprevisíveis. Uma equipe de cientistas
que estuda a baía de Monterey desde 2000 descobriu que há uma
estrutura que orienta os padrões de dispersão de suas correntes
aparentemente aleatórias, e que essa estrutura muda com o tempo.
Com a ajuda de um radar de alta frequência que acompanha a
velocidade e direção das águas, e de computadores capazes de
executar milhões de cálculos rapidamente, os cientistas descobriram
que um arcabouço oculto determina se os objetos são conduzidos ao
oceano ou ficam na baía.
Ao longo dos 10 últimos anos, os cientistas realizaram grandes
avanços em sua capacidade de identificar e criar imagens dos
mecanismos subjacentes ao fluxo do ar e da água, e de prever a
maneira pela qual os objetos se moverão em meio a esses fluxos.
Auxiliados por instrumentos capazes de acompanhar em detalhe o
movimento de pacotes de fluidos e por computadores de baixo custo
mas capazes de calcular grande volume de dados rapidamente, os
cientistas identificaram estruturas ocultas além da baía de Monterey,
e essas estruturas explicam por que aviões enfrentam turbulências
inesperadas, por que o fluxo de ar em torno de um carro torna
arrasto e como o sangue flui dos ventrículos cardíacos.
Em dezembro, a revista Chaos vai publicar os resultados da pesquisa
em curso para rastrear os esqueletos que se movem por sob os fluxos
complexos, conhecidos como "estruturas coerentes de Lagrange".
"Houve uma explosão de interesse por esse campo", disse David
Campbell, editor chefe da Chaos, físico e diretor administrativo da
Universidade de Boston. "O motivo para que o campo tenha atraído
interesse é que os cientistas experimentais agora podem observar o
surgimento dessas estruturas".
Os padrões de fluxo fascinam os pensadores há séculos. No século
XVI, Leonardo da Vinci desenhou os vórtices que via nas águas dos
rios e os vórtices de sangue que imaginava existir na válvula
aórtica. Da mesma maneira que os padrões visíveis de fluxo mudam
rapidamente, de forma que escapa à nossa capacidade de prever os
objetos neles aprisionados, as estruturas de fluxo ocultas também se
movimentam e se alteram ao longo do tempo.
O conceito dessas estruturas surgiu como parte da teoria de sistemas
dinâmicos, um ramo da matemática usado para compreender fenômenos
complicados que mudam com o tempo. A descoberta de estruturas em
ampla gama de casos reais demonstrou que elas desempenham papel
chave nos complexos e caóticos fluxos da atmosfera e do oceano.
As estruturas são invisíveis porque em muitos casos existem apenas
como linhas divisórias entre porções de um fluxo que se movem em
velocidades e em direções diferentes. No oceano, o percurso de uma
gota de água em queda de um lado de uma estrutura como essa pode
divergir do percurso de gota semelhante do lado oposto; elas
tenderão a se afastar cada vez mais, com a passagem do tempo.
"Não se trata de algo que possa ser tocado", disse Jerrold Marsden,
professor de engenharia e matemática no Instituto de Tecnologia da
Califórnia, sobre as estruturas. "Mas tampouco se pode defini-las
como puras abstrações matemáticas".
Marsden propõe, como analogia, a linha que divide a porção de uma
cidade que foi atingida pelo surto de uma doença daquela que não
foi. A linha não é uma rua ou uma cerca, mas ainda assim representa
uma barreira física. E, à medida que o surto se expande, a linha
muda de posição.
Para localizar as estruturas, os cientistas precisam acompanhar o
fluxo mas não pela observação de seu percurso; o necessário é
observá-lo da perspectiva das gotículas de água ou moléculas de ar
que se movem como parte dele. "É mais ou menos como praticar surfe",
diz Campbell. "É preciso encontrar a onda e se mover com ela".
Os estudiosos que pesquisam a baía de Monterey identificaram uma
estrutura coerente de Lagrange que age como uma crista móvel que
separa a região da baía que envia poluentes rumo ao oceano daquela
que os reconduz à baía. Eles observaram suas mudanças de posição
durante 22 dias, e concluíram que, se computadas em tempo real,
essas tendências poderiam ser usadas para determinar janelas de um
dia de duração nas quais os poluentes causariam menos danos ao meio
ambiente da baía.
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