Cientistas criam
"oásis" de energia renovável no deserto
Um "oásis" de energia renovável que deve ser construído em 2010 pode
vir a servir como campo de provas para novas tecnologias cuja função
será criar formas mais ecológicas de viver no deserto.
O centro de pesquisa planejado é parte do Sahara Forest Project -
mas isso não significa que será construído na África. "Sahara" quer
dizer deserto, em árabe, e o centro pretende ser uma versão em
pequena escala dos grandes complexos ecológicos que os idealizadores
do projeto esperam construir em desertos de todo o mundo.

Os especialistas estão agora examinando locais áridos na Austrália,
Estados Unidos, Oriente Médio e África que possam receber a
instalação piloto. "O Sahara Forest Project é uma abordagem
holística para a criação de empregos locais, alimentos, água e
energia, com o uso de soluções relativamente simples que imitam as
formas de design e os princípios da natureza", disse Frederic Hauge,
fundador e presidente da Bellona Foundation, uma organização sem
fins lucrativos norueguesa.
Por exemplo, estufas especiais usariam o ar quente do deserto e água
do mar para produzir água fresca para o cultivo de safras agrícolas,
energia solar seria recolhida para gerar eletricidade e tanques de
algas ofereceriam uma fonte renovável e facilmente transportável de
combustível.
Além disso, plantar árvores perto dos complexos absorveria os gases
atmosféricos causadores do efeito-estufa, como o dióxido de carbono,
bem como restauraria a cobertura florestal perdida devido a secas e
exploração madeireira.
"De minha perspectiva como ambientalista, isso pode mudar o jogo no
que tange à futura produção de biomassa para alimentos e energia e
sobre as futuras fontes de água fresca", disse Hauge. "Jamais estive
tão envolvido e fascinado quanto agora".
Mas nem todos os especialistas demonstram entusiasmo semelhante pelo
projeto. Em termos de planos de reflorestamento, "tentar cultivar
árvores no Saara não é a abordagem mais apropriada", disse Patrick
Gonzalez, ecologista florestal do Centro Florestal da Universidade
da Califórnia em Berkeley. Afinal, ainda que tenha sido literalmente
verde, no passado, o Saara jamais foi uma área de floresta densa.
"Posso imaginar que esse esquema e esse tipo de tecnologia funcionem
em escala limitada, para áreas como Dubai, onde seria usada para
produzir ilhas em formas de palmeiras e prédios de 160 andares", diz
Gonzalez.
Hauge rebate alegando que replantar árvores, mesmo que no deserto, é
uma medida não controvertida para deter a desertificação e combater
a mudança climática.
De fato, plantar árvores é uma das estratégias que a fundação e seus
parceiros estudaram cuidadosamente como parte de seus esforços para
fazer do Sahara Forest Project mais que uma miragem.
Os membros do projeto estão conduzindo estudos de viabilidade em
diversos países, e os primeiros resultados foram apresentados na
conferência de Copenhagen sobre a mudança do clima, em dezembro de
2009. E o centro de testes que deve ser construído em breve
fornecerá ainda mais dados sobre o funcionamento das tecnologias
ecológicas do projeto em condições reais.
As chamadas estufas de água marinha, por exemplo, são obras básicas
e baratas, e isso faria delas peças fundamentais do projeto. O ar
quente do deserto que ingressaria na estufa seria inicialmente
resfriado e umificado pela água do mar. O ar úmido alimentaria
safras dentro da estufa e depois passaria por um evaporador, dentro
do qual fluiria água marinha aquecida pelo Sol. Quando o ar úmido,
agora aquecido, encontra uma série de tubos contendo água marinha
fria, água fresca se condensa na superfície externa dos tubos, de
onde pode ser recolhida.
O processo imita um ciclo natural. A água marinha aquecida pelo Sol
se evapora, forma nuvens e depois cai em forma de precipitação.
Apenas 10% a 15% do ar úmido se condensa em forma de água fresca. O
restante flui para na região em torno do complexo e alimenta
árvores, de modo que "a estufa criará uma grande área que se tornará
verde, em torno de si", de acordo com Hauge.
O centro também testará o uso de energia solar concentrada, com o
emprego de espelhos para direcionar luz solar a canos de água e
caldeiras. A luz concentrada cria vapor superaquecido dentro dos
canos, e isso pode acionar turbinas convencionais a vapor, entre as
quais turbinas geradoras de eletricidade. Qualquer porção da energia
que não seja usada para acionar o complexo será enviada a
comunidades locais.
Da mesma forma, o combustível feito de biomassa pelos reatores
biofotográficos do centro seria fácil de exportar, disse Hauge. Os
tanques cultivariam algas por meio de fotossíntese a céu aberto, em
água rasa e salgada. Os óleos gordurosos das algas poderiam ser
colhidos como fonte de biocombustível de alto teor energético.
As algas criadas em laboratório já demonstraram ser capazes de
produzir 30 vezes mais óleo por hectare do que as demais plantas
usadas para fazer biocombustíveis, de acordo com o Laboratório
Nacional de Energia Renovável dos Estados Unidos. E cultivar algas
em tanques não requer o uso de valiosa terra agrícola, disse Hauge.
Moradores locais terão papel crucial no sucesso do projeto Hauge diz
ter recebido "respostas excelentes" de alguns governos, e espera
construir a primeira instalação em larga escala dentro de dois anos.
Gonzalez, de Berkeley, ressalvou que na África, ao menos, já existem
programas em diversas partes do continente para enfrentar problemas
ecológicos nos desertos, ao oferecer aos moradores locais acesso aos
recursos naturais existentes.
Programas como esses se provaram efetivos na gestão de recursos
sustentáveis e na restauração de ecossistemas - e sem requerer
soluções tecnológicas dispendiosas. Hauge concorda em que o
envolvimento das comunidades locais será essencial, apontando que o
projeto dependerá dos moradores da região em que for instalado para
a manutenção dos complexos.
"O trabalho nos países em desenvolvimento requer tecnologias que as
pessoas locais possam operar com facilidade", disse ele. "Estamos
muito conscientes da maneira pela qual essa questão é abordada, do
ponto de vista das comunidades locais".