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Precisamos de educação
diferente de acordo com a classe social
Gustavo Ioschpe
NASCE UMA LEI - A sugestão que fiz em VEJA recebeu
grande acolhimento e deu origem a dois projetos de
lei, de autoria dos deputados Edmar Arruda e Ronaldo
Caiado, que já chegaram à Comissão de Educação da
Câmara, na qual serão relatados por Lelo Coimbra (Eraldo
Peres/AP).
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A
MISTIFICAÇÃO de que, para o aluno pobre, o
objetivo principal é estar na escola e de
que aprender é um bônus precisa ser
combatida.
No fim do artigo do mês passado, lancei aos
nossos congressistas uma sugestão: que façam
uma lei determinando que toda escola pública
coloque uma placa de boa visibilidade na
entrada principal com o seu Ideb. A lógica é
simples. |
Em primeiro lugar, todo cidadão tem o direito de
saber a qualidade da escola que seu filho frequenta.
Hoje, esse dado está "escondido" em um site do
Ministério da Educação. É irrazoável achar que um
pai que nem sabe o que é o Ideb vá encontrar esse
site. Já que o dado existe e é de grande relevância
para a vida do aluno e de sua família, não vejo
nenhuma razão pela qual ele não seja divulgado para
valer.
Em segundo lugar, acredito que essa divulgação pode
colaborar para quebrar a inércia da sociedade
brasileira em relação às nossas escolas. Essa
inércia está ancorada em uma mentira: a de que elas
são boas. Os pais de nossos alunos, tanto das
instituições públicas quanto das particulares, acham
(em sua maioria) que a escola de seus filhos é muito
melhor do que ela realmente é (em outra oportunidade
falarei sobre as escolas particulares).
Não é possível esperar uma mobilização da sociedade
em prol da educação enquanto houver esse engano.
Ninguém se indigna nem se mobiliza para combater
algo que lhe parece estar bem. E não acho que seja
possível a aprovação de qualquer reforma importante
enquanto a sociedade não respaldar projetos de
mudança, que hoje são sempre enterrados pelas
pressões corporativistas.
A sugestão desencadeou dois movimentos rápidos,
enérgicos e antagônicos. Por um lado, houve grande
acolhimento da ideia entre os reformistas. Ela deu
origem a dois projetos de lei no Congresso, dos
deputados Edmar Arruda e Ronaldo Caiado, que já
chegaram à Comissão de Educação da Câmara, na qual
serão relatados por Lelo Coimbra.
Já foi aprovada como lei municipal em Teresina, em
projeto de Ronney Lustosa, e tramita como lei
estadual no Piauí e em Mato Grosso. Está em
discussão em outras cidades, entre elas São Paulo,
onde o vereador Floriano Pesaro e o secretário de
Educação, Alexandre Schneider, desenvolvem o projeto
de lei.
Depois que lancei a ideia nas páginas de Veja,
vários veículos de mídia já a apoiaram: a Folha de
S.Paulo, o Grupo RBS, o Grupo ORM e o jornal O Globo.
Nizan Guanaes cedeu o talento do seu Grupo ABC para
trabalhar na formatação gráfica e na normatização da
placa.
Ao mesmo tempo, a proposta vem sofrendo resistências.
As críticas são interessantes: escancaram uma visão
amplamente difundida sobre os nossos problemas
educacionais que não podemos mais ignorar ou tentar
contornar. Precisam ser endereçadas. São
compartilhadas por gente em governos, na academia,
por jornalistas e ongueiros. É uma mistificação
inclusiva, que acolhe pessoas de todas as idades,
geografias, níveis de renda e intelectual.
Disporia essa visão em três grupos, que postulam o
seguinte: 1. para o aluno pobre, o objetivo
principal é estar na escola; se aprender, é um bônus;
2. a finalidade da escola deve ser o bem-estar do
professor; 3. é impossível esperar que o aluno pobre,
que mora na periferia e vem de família
desestruturada, aprenda o mesmo que o de classe
média ou alta. Claro, ninguém diz isso abertamente,
mas é o corolário do seu pensamento. Vejamos
exemplos.
Grupo 1: o secretário da Educação do Rio Grande do
Sul, José Clovis de Azevedo, declarou, em evento
oficial em que falou como palestrante, a respeito de
uma escola que tem o mais baixo Ideb de uma cidade
da Grande Porto Alegre, que "o importante dessa
escola não é o Ideb, mas o fato de ser uma escola
inclusiva", pois recebe alunos de áreas de baixa
renda etc.
Essa é apenas uma manifestação mais tosca e
descarada de um sentimento que você já deve ter
encontrado em uma roda de conversa quando, por
exemplo, alguém defende a escola de tempo integral
porque tira a criança da rua ou do contato com seus
amigos e familiares. É como se os pobres fossem
bárbaros e a função da escola fosse civilizar a
bugrada.
O próprio MEC utiliza o
conceito de "qualidade social" da educação, em
contraposição a "qualidade total", esta última
representada pelo apren-dizado dos alunos. Não
conheço nenhuma definição acurada e objetiva do que
seria essa "qualidade social", então utilizo a de um
site da UFBA:
"A Qualidade Social da Educação Escolar, para o
contexto capitalista global em que se encontram
nossas escolas, diz respeito ao seu desempenho
enquanto colaboradora na construção de uma sociedade
mais inclusiva, solidária e justa".
A minha visão de educação é de que a inclusão social
se dará justamente por meio do aprendizado dos
conteúdos e das competências de que esse jovem
precisará para ter uma vida produtiva em sociedade:
todas as pesquisas indicam que gente mais (e bem)
instruída recebe maiores salários, e é através desse
ganho de renda que as populações marginalizadas se
integrarão aos setores não marginalizados da
sociedade e romperão o ciclo secular de pobreza e
exclusão.
Acho criminoso contrapor essa "qualidade social" ao
aprendizado ou usá-la como substituição deste,
porque sob nenhuma condição o ignorante e
despreparado poderá triunfar no mundo real. Muitos
educadores acham que seu papel é suprir as carências
- de afeto, higiene, valores de vida etc. -
manifestadas pelos alunos.
Podem não conseguir alfabetizá-los ou ensinar-lhes a
tabuada, mas "a educação é muito mais que isso", e
há uma grande vantagem: o "muito mais que isso" não
é mensurável e ninguém pode dizer se a escola está
fracassando ou tendo êxito nessa sua autocriada
missão.
Outra secretária, Rosa Neide, de Mato Grosso, é boa
representante do grupo 2. Ao comentar a proposta de
lei em palestra recente, Rosa afirmou ser contrária
a ela, pois sua aprovação traria grande dificuldade
à secretaria, que se veria atolada de pedidos de
alunos de escolas ruins querendo ir para escolas
boas, e também causaria grande estigma aos
professores das escolas ruins.
É uma visão ecoada por muita gente boa que, sempre
que ouve alguma medida da área educacional, se
pergunta como isso impactaria seus profissionais.
Parte das pessoas que pensam assim o faz por cálculo
político: quer ficar "bem na foto" com os "coitados"
professores, ou pelo menos não tomar as bordoadas
destinadas àqueles que não se submetem à sua
cartilha.
Parte o faz por reflexo espontâneo: a discussão
sobre o tema no Brasil foi de tal maneira dominada,
nas últimas décadas, pelas corporações de seus
profissionais que eles se tornaram nossa preocupação
número 1.
Ouvimos a todo instante sobre a necessidade de "valorizar
o magistério" e "recuperar a dignidade do
professor", que é um adulto, que escolheu a
profissão que quis trilhar e é pago para exercê-la.
Apesar de o aluno ser uma criança e de ser obrigado
por lei a cursar a escola, nunca vi ninguém falando
na valorização do alunado ou na recuperação de sua
dignidade. Por isso, faz-se necessário dizer o óbvio:
a educação existe para o aluno.
O bom professor (assim como o diretor e os demais
funcionários) é uma ferramenta - importantíssima -
para o aprendizado. Mas ele é um meio, não um fim em
si. Se o professor estiver satisfeito e motivado e o
aluno ainda assim não aprender, a escola fracassou.
O lócus das nossas preocupações deve ser, em
primeiro lugar, o aluno. Em segundo, o aluno. E em
terceiro, aí sim... o aluno.
Mas sem dúvida a oposição mais comum vem dos membros
do grupo 3, que usam a seguinte palavra mágica:
contextualizar. Escreve Pilar Lacerda, secretária da
Educação Básica do MEC: "Divulgar o Ideb é
necessário.
Mas o contexto onde está a escola faz muita
diferença nos resultados. Por isso é perigoso (sic)
uma comparação ‘fria’ dos resultados". Quer dizer:
não é possível avaliar a escola de alunos pobres e
ricos da mesma maneira.
Não se pode esperar que pobres aprendam o mesmo que
ricos, por causa da influência do meio sobre o
aprendizado. De forma que colocar uma placa com o
aprendizado em uma escola sem atentar para o
contexto social em que ela está inserida seria dar
uma falsa impressão da verdadeira qualidade daquela
escola e do esforço de seus profissionais.
Essa visão é caudatária de um mal que acomete grande
parte dos nossos compatriotas: o de achar que o
esforço importa mais que o resultado. Ela pode dar
algum conforto para os tropeços que alguém sofre em
sua vida pessoal, mas na vida pública de um país,
especialmente quando lidamos com gente com
dificuldades, acho que devemos ser radicais: o
esforço é absolutamente irrelevante, só o que
importa é o resultado.
Nesse caso, o aprendizado dos alunos. Tanto para o
aluno quanto para o país. Porque aquele aluno,
quando sair da escola e for buscar um emprego, não
vai poder dizer: "Eu não sei a tabuada, não falo
inglês nem sei o que é o pretérito imperfeito, mas o
senhor deveria me contratar, porque eu nasci numa
favela, meu pai me abandonou quando eu tinha 2 anos".
Da mesma forma, se exportarmos um produto mais caro
e de menor qualidade que seus concorrentes, não
poderemos esperar que o consumidor final decida
comprar o nosso produto por ele conter uma etiqueta
que diga: "Atenção, produto fabricado em país que só
aboliu a escravidão em 1888 e foi vitimado por
secular colonialismo predatório".
O que importa é aquilo que o aluno aprende. É mais
difícil fazer com que esse aluno, nesse contexto,
aprenda o mesmo que outro de boa família? Sem dúvida!
Mas o que precisamos fazer é encarar o problema e
encontrar maneiras de resolvê-lo. O problema dessas
escolas não é como os seus resultados ruins são
divulgados, se serão servidos frios, quentes ou
mornos: o problema são os resultados!
E, quando começamos a querer escamotear a realidade,
a aceitar desculpas, quem sofre é o aluno. Dados do
questionário do professor da penúltima Prova Brasil
tabulados pelo economista Ernesto Faria para a
revista Educação mostram que mais de 80% dos mestres
dizem que o baixo aprendizado "é decorrente do meio
em que o aluno vive".
Mais de 85% dos professores também apontam "o
desinteresse e a falta de esforço do aluno" como
razões para o insucesso da escola. A China mostra
que a ideia de que não pode haver educação de alto
nível em cenário de pobreza é balela: no último
Pisa, o teste de educação mais conceituado do mundo,
sua província de Xangai, que tem nível de renda per
capita muito parecido com o brasileiro (11 118
dólares versus 10 816 dólares no Brasil), apareceu
em primeiro lugar em todas as disciplinas estudadas,
enquanto o Brasil não ficou nem entre os cinquenta
melhores.
Relatório recente da OCDE (disponível em
twitter.com/gioschpe) mostra que nosso país também
fica na rabeira na recuperação de seus alunos pobres:
aqui, só 22% dos alunos de baixa renda têm
performance alta, enquanto na média dos países da
OCDE esse número é de 31%, e na China é de 75%.
Nosso problema não é termos alunos pobres: é que
nosso sistema educacional não sabe como ensiná-los,
e está mais preocupado em encontrar meios de
continuar não enxergando essa deficiência do que em
solucioná-la.
Por isso eu digo: precisamos, sim, de ensino e
padrões diferentes para ricos e pobres. Mas é o
contrário do preconizado pela maioria: precisamos
que a escola dos pobres ensine mais do que a dos
ricos. É difícil? Muito.
Mas deve ser a nossa meta. Porque, se não for, não
estaremos dando igualdade de oportunidades a pessoas
que já nascem com tantos déficits em sua vida. E, se
o Brasil como um todo não melhorar seu nível
educacional, jamais chegará ao Primeiro Mundo.
Esse é o non sequitur desse pensamento dos "contextualizadores":
seria necessário nos tornarmos um país de gente rica
para que pudéssemos dar educação de qualidade a
todos. Mas a verdade é que o salto da educação
precisa vir antes:
sem educação de qualidade, não teremos
desenvolvimento sustentado. Podemos nos enganar com
um crescimento econômico puxado pela alta de valor
das commodities, mas em algum momento teremos de
encarar a realidade: um país não pode ser melhor,
mais rico e mais bem preparado do que as pessoas que
o compõem.
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