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Ao menos 70% das espécies da Terra são desconhecidas
Pesquisador da Unicamp estipula que outras 12
milhões de espécies ainda precisam ser descobertas
Embora o conhecimento sobre a biodiversidade do
planeta ainda esteja muito fragmentado, estima-se
que já tenham sido descritos aproximadamente 1,75
milhão de espécies diferentes de seres vivos –
incluindo microrganismos, plantas e animais. O
número pode impressionar os mais desavisados, mas
representa, nas hipóteses mais otimistas, apenas 30%
das formas de vida existentes na Terra.
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“Estima-se que existam outros 12 milhões de
espécies ainda por serem descobertas”, disse
Thomas Lewinsohn, professor do Departamento
de Biologia Animal da Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp), durante a
apresentação que deu início ao Ciclo de
Conferências 2013 organizado pelo programa
BIOTA-FAPESP. |
Mas como avaliar o tamanho do desconhecimento sobre
a biodiversidade? “Para isso, fazemos extrapolações,
tomando como base os grupos de organismos mais bem
estudados para avaliar os menos estudados. Regiões
ou países em que a biota é bem conhecida para
avaliar onde é menos conhecida. Por regra de três
chegamos a essas estimativas”, explicou.
Técnicas mais recentes, segundo Lewinsohn, usam
fórmulas estatísticas sofisticadas e se baseiam nas
taxas de descobertas e de descrição de novas
espécies. Os valores são ajustados de acordo com a
força de trabalho existente, ou seja, o número de
taxonomistas em atividade.
“No entanto, o mais importante a dizer é: não há
consenso. As estimativas podem chegar a mais de 100
milhões de espécies desconhecidas. Não sabemos nem a
ordem de grandeza e isso é espantoso”, disse.
Lewinsohn avalia que, para descrever todas as
espécies que se estima haver no Brasil, seriam
necessários cerca de 2 mil anos. “Para descrever
todas as espécies do mundo o número seria parecido.
Mas não temos esse tempo”, disse.
Algumas técnicas recentes de taxonomia molecular,
como código de barras de DNA, podem ajudar a
acelerar o trabalho, pois permitem identificar
organismos por meio da análise de seu material
genético. Por esse método, cadeias diferentes de DNA
diferenciam as espécies, enquanto na taxonomia
clássica a classificação é baseada na morfologia dos
seres vivos, o que é bem mais trabalhoso.
“Dá para fazer? Sim, mas qual é o custo?”,
questionou Lewinsohn. Um artigo publicado
recentemente na revista Science apontou que seriam
necessários de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão por
ano, durante 50 anos, para descrever a maioria das
espécies do planeta.
Novamente, o número pode assustar os desavisados,
mas, de acordo com Lewinsohn, o montante corresponde
ao que se gasta no mundo com armamento em apenas
cinco dias. “Somente em 2011 foram gastos US$ 1,7
trilhão com a compra de armas. É preciso colocar as
coisas em perspectiva”, defendeu.
Definindo prioridades
Muitas dessas espécies desconhecidas, porém, podem
desaparecer do planeta antes mesmo que o homem tenha
tempo e dinheiro suficiente para estudá-las. Segundo
dados apresentados por Jean Paul Metzger, professor
do Instituto de Biociências da Universidade de São
Paulo (USP), mais de 50% da superfície terrestre já
foi transformada pelo homem.
Essa alteração na paisagem tem muitas consequências
e Metzger abordou duas delas na segunda apresentação
do dia: a perda de habitat e a fragmentação.
“São conceitos diferentes, que muitas vezes se
confundem. Fragmentação é a subdivisão de um habitat
e pode não ocorrer quando o processo de degradação
ocorre nas bordas da mata. Já a construção de uma
estrada, por exemplo, cria fragmentos isolados
dentro do habitat”, explicou.
Para Metzger, a fragmentação é a principal ameaça à
biodiversidade, pois altera o equilíbrio entre os
processos naturais de extinção de espécies e de
colonização. Quanto menor e mais isolado é o
fragmento, maior é a taxa de extinção e menor é a de
colonização.
“Cada espécie tem uma quantidade mínima de habitat
que precisa para sobreviver e se reproduzir. Não
conhecemos bem esses limiares de extinção”, alertou.
Metzger acredita que esse limiar pode variar de
acordo com a configuração da paisagem, ou seja,
quanto mais fragmentado estiver o habitat, maior o
risco de extinção de espécies. Como exemplo, ele
citou as áreas remanescentes de Mata Atlântica do
Estado de São Paulo, onde 95% dos fragmentos têm
menos de 100 hectares.
“Estima-se que ao perder 90% do habitat, deveríamos
perder 50% das espécies endêmicas. Na Mata Atlântica,
há cerca de 16% de floresta remanescente. O esperado
seria uma extinção em massa, mas nosso registro tem
poucos casos. Ou nossa teoria está errada, ou não
estamos detectando as extinções, pois as espécies
nem sequer eram conhecidas”, afirmou Metzger.
Há, no entanto, um fator complicador: o período de
latência entre a mudança na estrutura paisagem e
mudança na estrutura da comunidade. Enquanto as
espécies com ciclo curto de vida podem desaparecer
rapidamente, aquelas com ciclo de vida longo podem
responder à perda de habitat em escala centenária.
“Cria-se um débito de extinção e, mesmo que a
alteração na paisagem seja interrompida, algumas
espécies ficam fadadas a desaparecer com o tempo”,
disse Metzger.
Mas a boa notícia é que as paisagens também se
regeneram naturalmente e além do débito de extinção
existe o crédito de recuperação. O período de
latência representa, portanto, uma oportunidade de
conservação.
“Hoje, temos evidências de que não adianta restaurar
em qualquer lugar. É preciso definir áreas
prioritárias para restauração que otimizem a
conectividade e facilitem o fluxo biológico entre os
fragmentos”, defendeu Metzger.
Colhendo frutos
Ao longo dos 13 anos de existência do BIOTA-FAPESP,
a definição de áreas prioritárias de conservação e
de recuperação no Estado de São Paulo foi uma das
principais preocupações dos pesquisadores.
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Os resultados desses estudos foram usados pela
Secretaria Estadual do Meio Ambiente para embasar
políticas públicas, como lembrou o coordenador do
programa e professor do Instituto de Biologia da
Unicamp, Carlos Alfredo Joly, na terceira e última
apresentação do dia.
“Atualmente, pelo menos 20 instrumentos legais,
entre leis, decretos e resoluções, citam
nominalmente os resultados do BIOTA-FAPESP”, disse
Joly.
Entre 1999 e 2009, disse o coordenador, houve um
investimento anual de R$ 8 milhões no programa. Isso
ajudou a financiar 94 projetos de pesquisa e
resultou em mais de 700 artigos publicados em 181
periódicos, entre eles Nature e Science.
A equipe do programa também publicou 16 livros e
dois atlas, descreveu mais de 2 mil novas espécies,
produziu e armazenou informações sobre 12 mil
espécies, disponibilizou e conectou digitalmente 35
coleções biológicas paulistas.
“Desde que foi renovado o apoio da FAPESP ao
programa, em 2009, a questão da educação se tornou
prioridade em nosso plano estratégico. O objetivo
deste ciclo de conferências é justamente ampliar a
comunicação com públicos além do meio científico,
especialmente professores e estudantes”, disse Joly.
A segunda etapa do ciclo de palestras está marcada
para 21 de março e terá como tema o “Bioma Pampa”.
No dia 18 de abril, será a vez do “Bioma Pantanal”.
Em 16 de maio, o tema será “Bioma Cerrado”. Em 20 de
junho, será abordado o “Bioma Caatinga”.
Em 22 de agosto, será o “Bioma Mata Atlântica”. Em
19 de setembro, é a vez do “Bioma Amazônia”. Em 24
de outubro, o tema será “Ambientes Marinhos e
Costeiros”. Finalizando o ciclo, em 21 de novembro,
o tema será “Biodiversidade em Ambientes Antrópicos
– Urbanos e Rurais”.
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