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Japão evitou 'via
europeia' e driblou crise com mais gastos
Há vinte anos, o Japão
teve de enfrentar uma situação de crise bancário
semelhante à que a Europa e os EUA estão tentando
contornar agora, mas não apelou para duras medidas
de austeridade para resolver a situação.
Nos anos seguintes, o Japão viveu uma de suas piores
crises, mas evitou o colapso vislumbrado por algumas
economias europeias. As ruas de Tóquio não foram
palco de manifestações violentas, o desemprego
permaneceu baixo e a economia continuou a crescer,
embora lentamente.
Como o Japão evitou o "caminho europeu"?
Para simplificar: o governo japonês tomou uma série
de medidas para aumentar seus gastos e o nível de
consumo na economia.
Painéis solares
Exemplos dessas medidas são visíveis pelo país. Em
uma rua estreita, no sul de Tóquio, um grupo de
jovens descarrega novos painéis solares de uma
caminhonete para instalá-los no telhado de uma casa.
Hideharu Terasawa, dono da loja que vende os painéis,
diz que as vendas só têm se mantido em níveis
razoáveis graças a subsídios do governo.
O telhado pertence a uma jovem dona de casa que tem
um bebê de um ano de idade. Motoyoshi pagaria pelos
painéis US$ 25 mil (R$ 50,9 mil). Mas, em Tóquio,
até metade dos custos são cobertos por esses
subsídios governamentais.
"Quando ouvi que os subsídios poderiam acabar,
decidi que era hora de instalar os painéis", diz
Motoyoshi.
O esquema faz parte do mais recente plano do governo
japonês para estimular o consumo.
A loja de produtos elétricos de Terasawa fica no
norte de Tóquio e ele conta que os últimos anos têm
sido complicados para os negócios. A venda e
instalação de painéis solares foi uma exceção.
"Sem subsídios, não haveria negócios", diz ele. "Não
sei como vou vender painéis quando a ajuda acabar."
Não há dúvidas, portanto, que o esquema é bom tanto
para Motoyoshi quanto para Terasawa. Mas talvez não
seja tão interessante para o filho de Motoyoshi, Ko
Chan. Com um ano, ele já deve US$ 100 mil (R$ 203,5
mil) - a sua parte da dívida nacional japonesa.
A quantidade de recursos que o governo japonês
gastou nos últimos 20 anos para impulsionar a
economia é impressionante.
Só na década de 90, foram gastos cerca de US$ 2
trilhões (R$ 4 trilhões) em obras de infra-estrutura,
rodovias, estradas, pontes e túneis. E a gastança
continua.
O mais novo anel viário de Tóquio está a uma hora do
centro da cidade e corta imensas montanhas verdes
com túneis que chegam a dois quilômetros de extensão.
Seu custo teria sido de US$ 1 milhão (R$ 2 milhões)
por metro.
Yoshihiro Hashimoto vive em um desses vales que no
passado eram áreas bucólicas, repletas de
tranqüilidade. Hoje são cortados por rodovias.
Para ele, as novas estradas não são apenas
desagradáveis para os olhos, mas também um
desperdício de dinheiro.
Antes da construção, acreditava-se que 50 mil
veículos passariam pelo novo anel viário todos os
dia. Segundo Hashimoto, hoje o número de carros
circulando por essa via não passa de 10 mil.
"O governo está construindo estradas como essa em
todo o Japão", diz ele. "Temos trilhões de ienes em
dívida, mas eles continuam a construir mais e mais.
Estou realmente preocupado com o legado que estamos
deixando para as próximas gerações."
Dívida
O índice de desemprego japonês, de 4,2%, é baixo se
comparado ao da maioria dos países da OCDE e a
economia do país está em expansão. Neste ano, o PIB
deve crescer 2,2% - uma cifra que a maioria dos
países europeus hoje adoraria alcançar.
Mas o Japão também está ficando famoso por sua sede
de concreto. Há pontes que não levam a lugar nenhum
e 70% da costa japonesa já está asfaltada.
Um dos exemplos mais infames de desperdício é um
museu de arte moderna erguido na cidade de Nagoya.
Foram gastos tantos recursos na construção do
edifício que não sobrou dinheiro para comprar as
obras de arte que seriam expostas em suas salas e
corredores.
O lado positivo da gastança é que o Japão não exibe
hoje os traços típicos de uma economia em crise.
Essa é, inclusive, uma das primeiras coisas que os
estrangeiros notam ao chegar em Tóquio. Os carros
são novos, os trens, reluzentes e os edifícios,
modernos.
Mas o custo desse crescimento é grande - a maior
dívida pública do mundo, de US$ 13 trilhões (R$ 26
trilhões).
Tal nível de endividamento pode acabar criando uma
nova crise. E, mesmo se esse risco for evitado, as
contas que terão de ser pagas pela próxima geração
são assustadoras.
Da BBC
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