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Pais de crianças diabéticas têm
dificuldades com a escola dos filhos
Medir o índice de glicemia, aplicar insulina, controlar
a dieta. A essa rotina, pais de crianças com diabetes
precisam acrescentar um desafio: encontrar uma escola ao
mesmo tempo preparada e disponível para lidar com um
aluno com doença crônica.
É no ambiente escolar que as crianças passam grande
parte do dia, e muitas vezes a instituição não está
preparada para socorrê-las em uma crise de hipoglicemia
ou adaptar-se a uma rotina que inclui injetar um remédio
e sair da sala frequentemente para comer e urinar.
Isabella Rodrigues, 5, tem diabetes tipo 1 e é
acompanhada pela mãe na escola; ela leva lanche e fica o
tempo todo com a menina
Isso faz com que muitos pais enfrentem uma longa busca
até achar uma escola adequada, e alguns chegam a
abandonar o emprego para acompanhar o filho durante as
aulas.
Outros preferem insistir até entrar em acordo com a
diretoria. Foi o caso da professora universitária Ana
Beatriz Linardi, 44, mãe de Alice, diagnosticada em
julho passado com diabetes.
Aos seis anos, a menina sabe medir a glicemia e aplicar
insulina em si mesma. Seu tratamento, porém, exige o
cálculo das doses de insulina de acordo com cada
refeição --coisa que ela ainda não sabe fazer.
Segundo Ana Beatriz, a escola inicialmente se propôs a
se adaptar. Mas, dias depois, foi chamada pelo advogado
da instituição. "Ele disse que não era responsabilidade
deles e que, se quiséssemos, poderíamos contratar um
técnico."
Hoje, um funcionário do local faz, voluntariamente, a
ponte entre Alice e os pais. "Ele verifica o que ela
comeu, me telefona e fazemos juntos o cálculo. Vem
funcionando", diz Ana Beatriz. "Quando uma escola fala
em colaboração, não pode ficar só no discurso. Tem que
ir para a realidade", completa.
Legislação
Apesar de não haver legislação específica sobre o
assunto, nenhuma escola pode negar a matrícula a um
aluno --aquela que fizer isso estará ferindo o direito à
educação, assegurado pela Constituição.
Caso isso aconteça, os pais podem entrar com uma ação na
Justiça ou recorrer ao Ministério Público, ao Conselho
Tutelar ou ao Procon. "A escola pode ser obrigada a
pagar uma multa, a fazer a matrícula ou a indenizar os
pais por danos morais", diz o advogado Arthur Rollo,
especialista em direito do consumidor.
O MEC (Ministério da Educação) afirmou por e-mail à
Folha que, apesar de não haver orientação oficial sobre
como agir no caso de alunos com doenças crônicas, as
escolas devem compartilhar responsabilidades com os
pais. "O que deve existir é bom senso [...] e as
adequações que atendam às necessidades do educando."
A advogada Ione Fucs, presidente da ADJ (Associação de
Diabetes Juvenil), acredita que o socorro deve ser
prestado pela escola. "É imprescindível saber quando
chamar o médico ou ligar para a família." Se uma crise
de hipoglicemia não for corrigida rapidamente, pode
levar a coma.
A entidade, que orienta portadores, familiares e
comunidade, incluindo escolas, criou um abaixo-assinado
para apoiar um projeto de lei apresentado em novembro de
2008 pelo deputado estadual Jonas Donizete (PSB-SP).
O texto propõe que todas as escolas paulistas, públicas
ou privadas, tenham um profissional de saúde para
prestar socorro em emergências e atender alunos com
problemas crônicos como diabetes, epilepsia e asma.
Hoje, poucas escolas têm um auxiliar de enfermagem ou um
ambulatório, diz o presidente da Federação Nacional das
Escolas Particulares, José Augusto Lourenço. "Não chega
a 1%."
Ele sugere que as escolas peçam aos pais uma ficha com o
perfil clínico do aluno e diz que restrições alimentares
devem ser respeitadas.
O preenchimento de uma ficha com dados de saúde da
criança está prevista em uma portaria da Secretaria
Municipal da Educação de São Paulo.
"Quando a criança toma um remédio [oralmente], o pai tem
que mandar a prescrição médica e uma autorização de como
agir nas crises", diz Maria Cristina Martins, secretária
de assuntos jurídicos do Sinpeem (Sindicato dos
Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São
Paulo).
No entanto, a portaria diz que, "em caso de (...)
complexidade na administração [do remédio]", a diretoria
pode "pedir a permanência da mãe" na escola durante as
aulas.
A mãe de Alice Carrasco (foto), 6, conseguiu que um
funcionário da escola ajude com os cuidados com a
menina, que tem diabetes
Foi o que aconteceu com a assistente hospitalar Helena
da Silva, 39. "Desde março, minha vida se resume a
cuidar da Isabella", diz ela, que adiou os planos de
voltar ao trabalho desde que descobriu que a filha, de
cinco anos, tem diabetes.
Ela precisa acompanhar a menina em uma escola municipal.
"Tenho que levar o lanche e ficar lá o tempo todo. Como
ela não é de comer, tem muitas crises de hipoglicemia, e
a escola não sabe o que fazer."
Mãe de dois diabéticos, Patrícia Lopes, 32, também já
ficou a tarde toda na escola de um deles, Matheus, 6,
para lhe dar lanche e insulina. Ela diz ter tentado
matriculá-lo em duas escolas públicas, que negaram ter
vagas. Foi a uma particular, que alegou não ter
estrutura e, numa outra, encontrou Matheus desmaiado,
com hipoglicemia. "As pessoas achavam que ele estava
dormindo."
Finalmente, encontrou uma escola que o aceitou --a sócia
era diabética. Mas, agora, Matheus concluiu a pré-escola
e Patrícia está novamente em busca de um
estabelecimento.
Cuidados
Os cuidados com a criança diabética na escola não são
poucos. "As dificuldades dependem não só da idade do
estudante mas do momento em que o diabetes foi
diagnosticado, do estímulo da família e da forma como
ela enfrenta a doença", diz Roseli Rezende, enfermeira
da ADJ.
Ela diz que o professor precisa conhecer o aluno para
identificar uma crise hipoglicêmica. "A criança fica
parada, tristonha. Pode ficar pálida, tremer,
transpirar." Afirma, ainda, que é importante
supervisionar o autocuidado do aluno e oferecer uma
alimentação saudável, orientada por nutricionista.
Para Martins, do Sinpeem, as escolas não têm estrutura
para isso. "Não é viável que o professor, com 45 alunos
na sala, assuma uma responsabilidade que não é dele.
Falta estrutura, e o diabetes é uma doença grave. Não dá
para simplesmente aplicar a insulina, pois você pode
aplicar mais que o devido."
Silvia Barbara, vice-presidente do Sindicato dos
Professores de São Paulo, considera "mais honesto" que
uma escola informe que não consegue assumir o cuidado
médico. "Os pais devem buscar uma escola [particular] em
que tenham certeza de que seu filho será tratado
corretamente." Fucs, da ADJ, discorda. "A Constituição
proíbe discriminação. As escolas devem se preparar para
esses alunos e buscar auxílio nos serviços de saúde."
Adolescência
Os problemas não acabam quando a criança consegue se
cuidar sozinha. Thayrine de Moraes, 15, que cursa o
segundo ano do ensino médio, diz que no ensino
fundamental alguns professores não gostavam que medisse
a glicemia nem que fosse ao banheiro.
"O médico explicou que ela teria que sair várias vezes,
mas havia professor que pensava que ela usava a doença
para sair da classe", diz seu pai, o taxista Marco
Aurélio Moraes, 39.
Thayrine chegou a ser expulsa de uma aula após a
professora negar que ela fosse ao banheiro --um sintoma
da hiperglicemia é ter mais vontade de urinar-- e achar
ruim por ela medir sua glicose e aplicar insulina.
"Meu pai reclamou e eles cederam uma sala para que eu
aplicasse insulina." A professora pediu desculpas. "Eu
disse que tudo bem, mas não achei certo o que ela fez."
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