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Universidade deve punir trote violento,
afirmam reitores
A universidade tem, sim, a obrigação de prevenir e punir
trotes violentos com suspensões e até expulsões. É o que
dizem cinco atuais e ex-reitores, o Conselho de Reitores
de Universidades Brasileiras, dois pesquisadores e a
Abmes (Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino
Superior) --o tema veio de novo à tona com os casos de
queimaduras na caloura grávida Priscilla Muniz, 18, e
coma alcoólico e chicotadas em Bruno Ferreira, 21.
A principal controvérsia é o fato de os casos mais
graves ocorrerem geralmente fora do campus. Nesse ponto,
as opiniões sobre a responsabilidade da universidade
diferem.
"O ideal é trabalharmos pela prevenção, por uma cultura
de paz. Trote é uma palavra da cultura animal. Mas a
punição a casos que acabam com violência às vezes é
necessária e dá exemplo. Na PUC o trote é proibido, mas
ele deve ser punido quando acontece fora, pois a relação
dos alunos está ligada à entidade", diz Hélio
Deliberador, pró-reitor de Cultura e Relações
Comunitárias da PUC.
Em 1998, a universidade expulsou cinco jovens após o
estudante Rodrigo Favoretto Peccini ter fogo ateado em
seu corpo num trote em Sorocaba.
Para o ex-reitor da USP Roberto Lobo, a universidade tem
que se posicionar em casos de violência. Até para dar
exemplos. "Se ela encontrar respaldo jurídico, via
portaria, ou decisão do conselho superior, cabem
punições para atitudes fora." Como reitor (1990-93), ele
proibiu o trote não consentido.
Esse respaldo jurídico poderia vir da lei estadual
10.454, de 1999, que proibiu o "trote violento" em
universidades estaduais, mas é desconhecida da maioria
dos entrevistados.
Naquele ano, foi encontrado morto na piscina da atlética
da Faculdade de Medicina da USP o estudante Edison Tsung
Chi Hsueh.
O ex-governador e ex-reitor do Mackenzie, Cláudio Lembo,
diz que punir violência de fora é difícil, mas que isso
pode se dar pelo próprio estatuto. "Esse documento dizia
que o nome da instituição tinha de ser preservado em
qualquer lugar. Se o aluno fizesse qualquer ato não
civil, poderia ser punido. Cheguei a suspender alunos
após atos decorrentes de bebedeira."
A dificuldade de fiscalizar atos externos e a omissão
dos calouros que temem sofrer repressão dos veteranos
dificultam as punições, segundo a ex-pró-reitora de
graduação da Unifesp Lúcia Sampaio, que defende ações
"solidárias". Na federal, é feita doação de sangue na
semana de recepção, entre outras atividades.
A presença da faculdade em uma festa de boas-vindas
também é apontada pelo ex-reitor da USP José Goldenberg
como alternativa pacífica. Para ele, porém, a
universidade não tem como interferir muito em eventos
externos. "Tem que tratar como um delito civil e chamar
a polícia".
Para a Abmes, a responsabilidade da universidade é
dentro dela e em seus arredores. "Ela não pode se
responsabilizar por coisas que ocorrem longe", diz o
presidente da entidade, Gabriel Carlos Rodrigues. Ele
diz que, apesar de fatos negativos, há muitas campanhas
de solidariedade sendo feitas.
Sobre isso, o Conselho de Reitores de Universidades
Brasileiras afirmou que, embora tenha notado queda da
quantidade de trotes violentos nos últimos anos
--conforme se disseminaram os trotes solidários--, as
exceções chamam atenção pela "violência extrema", em
referência aos episódios das últimas semanas.
Rito de passagem
Apesar da recente polêmica, a violência dos veteranos
não é recente. Os primeiros registros datam do século 14
em Paris.
"Não há uma explicação muito clara porque começaram com
a tradição. Acredito que para descontar em parte o que
recebem na produção do conhecimento, muitas vezes
violenta, marcada por humilhações dos professores",
afirma o pesquisador e professor da UFSCar Antonio Zuin.
No Brasil, o primeiro trote fatal foi em 1831. Um aluno
de direito de Olinda morreu a facadas após recusar-se a
receber o trote, segundo o ensaísta Glauco Mattoso,
autor do seu livro "O Calvário dos Carecas". "Se
proibirem nas universidades, ele pode ocorrer de forma
clandestina e violenta. O ideal seria conscientizar
sobre valores que desincentivem a violência", diz.
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