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Pesquisa mostra que 95% não sabem se vão concluir
estudos
Só 5% dos alunos da rede pública estadual do Rio têm
certeza de que vão concluir o Ensino Médio. O dado foi
revelado pela pesquisa O Aluno do Ensino Médio Público
Estadual - Percepções, Hábitos e Expectativas, divulgada
pela Secretaria Estadual de Educação (Seeduc). Realizado
entre 2008 e 2009 pelo Instituto Mapear, o estudo também
mostrou que cerca de 20% dos estudantes interromperam os
estudos em algum momento por impedimentos, como trabalho
ou gestação. O número de alunos com filhos é expressivo:
15% das meninas já são mães e 8% dos alunos conhecem os
desafios da paternidade.
Dentro das estatísticas está o ajudante de cozinha
Marcos Vinicius da Conceição, 27 anos, que conta nos
dedos os dias para retomar os estudos. Morador do bairro
do Galo Branco, em São Gonçalo, ele precisou deixar a
sala de aula quando cursava o 1º ano do Ensino Médio
para conciliar dois empregos. Quando pensava em voltar
para a escola, sua mulher engravidou e ele teve que se
preparar para a chegada do pequeno João Victor. "Quando
trabalhava em dois empregos, ficava esgotado e acabei
deixando a escola. Depois minha esposa engravidou, e não
deu para retomar. Agora que meu filho está com 4 anos,
quero voltar a estudar. Faz toda diferença no mercado de
trabalho", acredita.
Marcos está disposto a dividir seu tempo entre o atual
emprego, a família e a escola. "Meu desejo é terminar o
Ensino Médio e fazer cursos de capacitação. Mas, para
quem trabalha, as coisas acabam sendo mais complicadas.
Quero estudar até mesmo para dar exemplo ao meu filho",
conclui.
Após o nascimento de seu primeiro filho, em outubro
passado, Lorraine Cristina Marinho, 14 anos, também
precisou abandonar a escola. Ela cursava o 5º ano do
Ensino Fundamental. "Tive que parar. Pretendo voltar no
ano que vem. Mas não tenho ideia de qual profissão vou
seguir. Depois que o Lorran nasceu eu estou mais com
ele, em casa", conta a adolescente.
Lizandra Rodrigues Lima, 15 anos, conseguiu conciliar a
maternidade com os estudos. Mesmo com o nascimento do
filho Pietro, em setembro, ela concluiu o Ensino
Fundamental. Moradora da Tijuca, Lizandra se prepara
agora para iniciar o Ensino Médio na Escola Estadual
Antonio Prado Júnior. "Às vezes, precisava faltar aulas
durante a gravidez. Mas consegui terminar e passar para
o 1º ano do Ensino Médio", orgulha-se. A adolescente
quer fazer Enfermagem, mas, embora já tenha ultrapassado
diversos obstáculos, não tem certeza se vai concluir o
Ensino Médio. "Chegar até aqui foi um sacrifício. Quero
seguir com os estudos, mas não sei se consigo concluir.
Meu sonho é ser enfermeira", diz.
A subsecretária de comunicação e projetos da Seeduc,
Delânia Cavalcanti, ressalta que, apesar de a maioria
dos estudantes ter respondido que não tem certeza se
concluirá o Ensino Médio, a maior parte dos alunos
considera a educação fundamental. "A pesquisa foi muito
importante porque passamos a conhecer o que pensam e o
que querem os nossos alunos. Havia a necessidade de
traçar esse perfil. Realmente, o percentual dos que não
têm certeza se vai terminar os estudos é alto. Mas eles
querem concluir", observa.
A doutora em Educação Bertha do Valle, da Uerj,
ressalta, no entanto, que muitos alunos só consideram o
Ensino Médio válido para quem pretende ingressar no
Ensino Superior. "Muitos estudantes não chegam a
concluir porque acham que o Ensino Médio só tem valor
para quem vai prestar vestibular. Esses alunos muitas
vezes precisam entrar no mercado de trabalho e, nesse
caso, a capacitação profissional é mais interessante".
A assistente social Denise Auvray, da ONG Abraçar,
explica que é importante o aluno seguir com estudos
mesmo quando ocorre maternidade ou paternidade precoce.
"Uma gravidez precoce traz conflitos, inseguranças,
baixa auto-estima. A escola tem papel fundamental na
acolhida e orientação desses jovens. Esse grupo social
será determinante para a aceitação e decisão de
permanência no convívio escolar".
Atenção especial para a sexualidade dos alunos
A subsecretária Delânia Cavalcanti explica que, com base
nos resultados da pesquisa, estão sendo desenvolvidos
projetos que atendem aos alunos do Ensino Médio. A
sexualidade mereceu atenção especial. "O assunto ainda é
tabu em sala de aula e o percentual de estudantes que
têm filhos é considerável. Desenvolvemos dois projetos
para atender essa demanda. O 'Verdade ou Consequência'
promoveu oficinas e debates em 12 escolas; enquanto no
¿Festival Sem Tabu¿, os alunos assistiam e produziam
curta-metragens de animação sobre sexualidade.
Capacitamos 4 mil professores das redes estadual e
municipal para tratar do tema com os adolescentes",
enumera.
Outro aspecto que tem tratamento especial é a conclusão
dos estudos. "Queremos tornar a escola um espaço
atraente. Estamos trabalhando as linguagens e os meios
que despertam o interesse dos jovens através de sites
como o Orkut e o Twitter. Também está sendo implantado o
Ensino Médio Integrado, no qual o aluno tem a formação
geral e a capacitação profissional", conta.
Poesia para resgatar a autoestima
Uma das constatações da pesquisa é que os alunos da rede
estadual, sobretudo aqueles que moram em comunidades
mais carentes, apresentam problemas de baixa autoestima.
Com o objetivo de reverter este quadro, foi concebido o
projeto 'Levanta a Cabeça', em que atores do grupo Nós
do Morro e a poetisa Elisa Lucinda participaram de
palestras e oficinas direcionadas a 1.200 alunos.
"Trouxemos personalidades que estão na grande mídia para
bate-papos com os alunos. Muitas estudantes não
acreditavam que poderiam vencer", explica Delânia.
Para a poetisa Elisa Lucinda, a experiência foi única.
"Adorei participar e achei a iniciativa fantástica.
Trabalhamos a palavra na construção da cidadania. Meu
objetivo era desmistificar a poesia. Dizia para os
alunos que, dominando a língua, eles poderiam contar a
própria história. A palavra é instrumento, com a palavra
eles podem se proteger; quem tem repertório não tem
medo. A reação dos alunos foi ótima".
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