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Escolas podem ensinar alunos a se comportar na
internet
Quando Kevin Jenkins quis ensinar aos seus alunos de quarta série na
Spangler Elementary School, em Milpitas, como usar a internet, criou um
site no qual todos eles podiam postar fotos, desenhos e pesquisas. E os
estudantes logo começaram a usar o recurso.

Mas, para desânimo do professor, algumas das pesquisas postadas eram do
tipo "quem é o aluno mais popular" e "de que colega vocês gostam mais".
Os alunos de Jenkins "apreciaram a oportunidade de se expressar por meio
de um recurso que usam sozinhos, o computador", disse. "Não estavam
considerando que muitas outras pessoas veriam o que disseram".
A primeira onda das preocupações dos pais quanto à internet se
concentrava na segurança e na possibilidade de que predadores adultos
ganhassem acesso às crianças. Mas ela cedeu lugar a preocupações sobre
as atitudes online das crianças com relação a amigos e rivais, e à
impressão que perfis online podem criar em futuros empregadores ou nos
setores de admissão de alunos nas universidades.
Incidentes como o recente suicídio de uma aluna de segundo grau na South
Hadley High School, em Massachusetts, depois que ela sofreu intimidação
online e na escola, reforçaram a impressão de que muitas crianças
continuam inconscientes da maneira pela qual a internet é capaz de
transformar o comportamento adolescente típico - esnobismo de
panelinhas, bazófias de conquista machistas, flertes sexuais, alegações
de uso de bebida alcoólica e drogas - em algo não só público como
permanente.
O caso de South Hadley está levando alguns Estados a reconsiderar suas
leis de combate à intimidação; embora mais de 40 Estados tratem desse
tema em sua legislação, tendem a considerar mais a punição que a
prevenção. Jenkins começou este ano a utilizar lições da Common Sense
Media, que aconselha os alunos a considerar seu comportamento online
antes que encontrem problemas.
Financiada em larga medida por verbas vindas de fundações, a Common
Sense oferecerá currículos gratuitos para as escolas, sobre como ensinar
os alunos a se comportar bem na internet. Nova York e Omaha já optaram
por oferecer os cursos. Denver, Washington, Flórida, Los Angeles, Maine
e Virgínia estão entre os lugares que vão avaliar a possibilidade. "Você
quer que uma pessoa se sinta compelida a agir?", diz Liz Perle, editora
chefe da Common Sense Media. "Basta que um filho dessa pessoa poste
alguma coisa que tem alguma semelhança com crime de incitação ao ódio".
E a internet é um dos caminhos pelo qual as crianças amadurecem. O jovem
médio norte-americano dedica sete horas e meia ao dia ao computador,
televisão e celular inteligente, de acordo com estudo publicado em
janeiro pela Kaiser Family Foundation. Considerando que esse período é
em geral passado fora da escola, o resultado sugere que quase todo o
tempo não curricular dos jovens é dedicado à mídia online.
As aulas da Common Sense Media, baseadas em pesquisas de Howard Gardner,
professor de psicologia e educação na Universidade Harvard, se agrupam
em tópicos que ele define como "fissuras étnicas": identidade (a maneira
pela qual a pessoa se apresenta online); privacidade (o mundo pode ler
tudo que ela escreve); propriedade (plágio, reprodução de obras
alheias); credibilidade (fontes legítimas de informação); e comunidade
(a interação com os outros).
Raquel Kusunoki, professora de sexta série na escola Spangler,
recentemente pediu a Jenkins, hoje especialista em tecnologia da
educação no conselho escolar de Milpitas, que lecionasse o currículo da
Common Sense Media aos seus alunos. Os alunos ouviram enquanto Jenkins
relatava a história de uma menina que se zangou com os pais quando eles
a interrogaram sobre os detalhes de uma história que ela havia narrado
em seu diário online.
Lucas Navarrete, 13, quis saber: "Que direito eles tinham de ler as
coisas pessoais dela?"
"Talvez eles estivessem preocupados", sugeriu Morgan Windham, uma menina
de fala macia. "Mas é material público!", objetou Aren Santos. "Está
bem, mas se fosse o seu diário pessoal e alguém lesse, você gostaria?",
rebateu Lucas. "Eles não têm esse direito, está vendo?"
Jenkins perguntou aos alunos se existia diferença entre um diário
privado em papel ou online. Não houve consenso na resposta. "Eu manteria
o diário em segredo e só contaria sobre ele a pessoas muito chegadas",
disse Cindy Nguyen, depois da aula. "Temos de ter um espaço pessoal,
privado".
A difícil distinção entre espaço público e espaço privado é exatamente o
tema da Common Sense Media. "O senso de invulnerabilidade que um jovem
de segundo grau tende a sentir, acreditando-se capaz de controlar tudo -
bem, isso podia ser verdade antes da internet", disse Ted Brodheim,
vice-presidente de tecnologia da informação no departamento municipal de
educação de Nova York. "Mas não acho que eles compreendam plenamente o
fato ao tomar suas decisões, e não é algo de que possam recuar mais
tarde".
A Common Sense Media baseia todos os seus exemplos em situações reais, e
insiste na participação dos estudantes. "Se você se levantar e proferir
uma palestra sobre propriedade intelectual, não fará sentido para a
garotada", disse Constance Yowell, diretor de educação da John D. and
Catherine T. MacArthur Foundation, uma das organizações financiadoras.
Mas alguns especialistas em mídia afirmam que, ao se concentrar em
questões sociais, a Common Sense Media desconsidera alguns dos problemas
estruturais mais amplos que as crianças enfrentam online.
"Não podemos tornar essa conscientização quanto às questões da Web em
algo centrado no aspecto pessoal ou nos relacionamentos", disse Joseph
Turow, professor da Escola Annenberg de Communicação, parte da
Universidade da Pensilvânia. "As crianças precisam ser informadas sobre
o que é um cookie de internet, ou um vírus, e sobre como as empresas
lucram ao rastrear o comportamento dos consumidores na rede, disse ele".
Em San Francisco, a Sacred Heart Schools opera colégios combinados para
meninos e meninas, e no começo do ano conversou os pais de alunos a
debater o programa da Common Sense Media com a irmã Anne Wachter,
diretora da escola feminina.
"As confusões em que eles se envolvem com amigos, ou entrar em site
alheio para mandar uma mensagem cruel", disse Wachter. "Eles às vezes
não sabem como administrar as questões sociais e emocionais que surgem
disso".
Os pais ouviram o professor Bill Jennings discorrer sobre algumas das
coisas que estava tentando nas aulas. Diante de Wachter e dos pais dos
alunos, ele ofereceu um exemplo de mensagem de rede social que os alunos
poderiam encontrar sobre uma nova colega: "Amy é uma vagaba; a mãe dela
é uma vadia".
Os pais demonstraram susto
"Se me pedissem para propor cinco hipóteses sobre o que minha filha Maya
diria, eu não passaria nem perto disso - chamar a mãe de alguém dessas
coisas", disse Sherila Chatterjee, mãe de uma aluna de sétima série.
"Mas esse tipo de linguagem é o que os alunos encontram", disse
Jennings. "É verdade", concordou Chatterjee.
Shirin Oshidari, que tem um filho na sétima série, disse que a lição
parecia óbvia: "Para mim, a pessoa tem de se comportar online como faz
cara a cara", afirmou. "Tudo que você escreve será lido pela
universidade em que deseja estudar; e o emprego que você pretende
conseguir no futuro também dependerá disso".
Jaime Dominguez, diretor da escola masculina, disse que "a parte
complicada é que, como adultos, nós percebemos isso. Eles não".
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