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O Nazismo contra o Modernismo
Voltaire Schilling
Durante o Congresso do Partido Nazista em Nüremberg, em 1933, Hitler
citou a si próprio utilizando-se de uma passagem do Mein Kampf referente
à opinião que tinha sobre a arte contemporânea. Considerava-a obra de
loucos e degenerados, parecer não muito distante do público comum
perante os experimentos estéticos dos cubistas e dos expressionistas que
vinham desde o período anterior à Grande Guerra de 1914-1918. Era o
começo de uma guerra contra o Modernismo.
Rosemberg entra em ação
Walter Laqueur, estudioso da cultura alemã daquela época, indica que os
nazistas não tiveram inicialmente participação muito ativa nas polêmicas
sobre a arte e a estética moderna que inundavam as revistas e semanários
alemães dos anos vinte. Todavia isto não demorou a mudar.
Foi devido à atuação pessoal de Alfred Rosenberg, o ideólogo oficial do
partido nazista, que a luta contra o modernismo se materializou. Em
1927, ele publicou uma série de ensaios no jornal Völkische Beobachter
sob o título geral de "Der Sumpf" (O pântano), em que acusava a estética
do seu tempo de ser uma doença da alma, do desequilíbrio, da alienação,
do resultado do capitalismo (dominado pelo mamonismo, isto é, pelo
dinheirismo) em conjugação com o coletivismo, a cultura de massas
manobrada por comunistas.
Tratava-se, segundo ele, de retirar as críticas à arte moderna feitas em
nichos intelectuais reacionários ou elitistas e transformá-la numa luta.
Em vista de tal propósito, Alfred Rosenberg associou-se, em 1928, a Paul
Schultze-Naumburg, pintor e arquiteto, para lançar-se numa campanha
organizada contra a chamada Entartete kunst, a "arte degenerada", no
periódico Weltkampf.
Em 1929, os dois aliaram-se para estruturar a Kampfbund für Deutsche
Kultur, a Liga para a Defesa da Cultura Alemã, que seria um instrumento
de combate do partido nazista e voltado contra a arte do seu tempo,
contra o que chamavam de Kulturbolchevismus, a cultura bolchevista.
Fixaram então os motivos para uma aberta condenação ao movimento
estético que predominava até então na Cultura de Weimar: em Emil Nolde
denunciaram ser sua obra uma aberta blasfêmia contra Deus; na de Otto
Dix viram uma apologia pacifista-marxista; em Max Beckmann,
recriminaram-no por retratar a vida dos bordéis e outras casas
suspeitas, condenando sua imoralidade; em Paul Gauguin viram uma posição
simpática às raças inferiores; em Ernst Ludwig Kirchner criticaram o
favorecimentos ao trafico humano e sintomas de doença neuro-psíquica; na
arte abstrata em geral, viram um comportamento embotado, além de ser uma
arte feita por gente de raça inferior ( judeus, ciganos, eslavos, etc.).
Pode-se dizer que poucas vezes na história da cultura, a arte foi objeto
de tanta polêmica, ódio e difamação como durante os anos vinte e trinta
na Alemanha. Parte deste destempero deveu-se aos próprios artistas que,
desde os tempos do futurismo não paravam de lançar manifestos arrogantes
em que insultavam o mau gosto da gente comum e jogavam no opróbrio
aqueles que se lhes opunham ou simplesmente não os entendiam,
englobando-os todos sobre a palavra infamante de "filisteus".
Em 1911, Vassily Kandinsky, em seu tratado Über das geistige in der
Kunst, (Sobre o espiritual na arte), afirmou que as grandes realizações
da pintura da vanguarda tinham o status de gestos simbólicos de
liberação universal e atendiam as necessidades espirituais de uma
humanidade pressionada pelas exigências excessivas de uma era
materialista. Alertou para a existência de uma "mão negra", o mal, o
princípio negativo, que procurava limitar a liberdade dos artistas com
seu espírito medíocre e conservador. A isto contrapunha o "raio branco",
o espírito livre, construtivo, capaz de sozinho demolir os preconceitos
dos reacionários e do público medíocre em geral contra as inovações
apresentadas pelos vanguardistas.
A tragédia que se abateu sobre a arte moderna alemã (e de certo modo
sobre parte considerável da arte moderna de outros países) foi que ela
se difundiu num momento de desgraça nacional. A estreita relação
histórica entre sua complexidade, abstração, niilismo, deformação
propositada, com a decadência socioeconômica ocorrida na Alemanha depois
de 1918 e o clima negativista que pairou sobre o país derrotado na
Grande Guerra foi-lhe fatal. A catástrofe e o Movimento Modernista
pareciam andar de mãos dadas. Ela passou a ser vítima dos ataques de
extremistas ultranacionalistas que denunciaram suas tortuosidades e
inquietações como responsáveis pelo ar derrotista e pessimista que
passou a imperar entre os meios culturais alemães nos anos vinte.
Em pouco tempo os grandes nomes da inovação estética dos começos do
século XX, tais como Ernst Nolde, Ernst Ludwig Kirchner, Max Beckmann,
Franc Marc, Oskar Kokoschka, Lyonel Feininger, Paul Klee, Otto Dix,
George Grosz e Vassily Kandinsky, entraram na lista daqueles a serem
ideologicamente execrados.
Os artistas, estavam numa situação deveras perigosa. Ao afirmarem
enfaticamente o primado expressionista, cujo princípio básico era a
pureza dos sentimentos sobre todo o resto, terminavam por retratar em
seus quadros e gravuras uma sociedade dilacerada, desmoralizada pelos
efeitos punitivos do Tratado de Versalhes, atormentada pela inflação e
depressão econômica e por violentas convulsões políticas (como a
rebelião espartaquista de 1919, o putsch Kapp, de 1920, e o levante
nazista de 1923, em Munique, demonstravam). Não havia nada de belo a ser
levado em consideração, ou que fosse digno de merecer uma visão otimista
na Alemanha no tempo deles.
Nas ruas de Berlim, Hamburgo , Frankfurt, e de tantas outras,
espalhavam-se os mendigos, os mutilados, os desempregados, os deserdados
e desamparados de uma guerra em que a nação, outrora orgulhosa,
resultara vencida.. Ao serem fiéis aos seus sentimentos e honestos na
sua maneira de olhar a realidade circundante, mostrando aos alemães uma
pátria deformada e dissoluta, os artistas atraíram para si o rancor dos
extremistas da direita que os acusaram de produzir uma arte
Volksverbunde (inacessível ao povo). As cores predominantes deles eram o
preto e o cinza. O líder nazista os estigmatizou por isso. Para Hitler,
os modernistas ou eram loucos ou charlatães:
"Se cada coisa a que deram à luz foi resultado de uma experiência
interior, então eles são um perigo público e devem ficar sob supervisão
médica ... se era pura especulação, então deviam estar numa instituição
apropriada para o engano e a fraude", disse ele.
ADOLF HITLER, sobre o artista moderno, 1933
As exigências ideológicas
Outros elementos, por igual, pesaram na perseguição que se desencadeou
sobre eles. Nunca como até então as ideologias que irromperam no após
Primeira Guerra Mundial utilizaram-se tão abertamente da arte para
atingir seus objetivos políticos. Vivia-se na época da polit-art, quando
a arte foi partidariamente aparelhada, transformando-se em instrumento
de uma monumental propaganda política, ocorrendo à restauração do
naturalismo idealizado como a forma mais adequada e ajustada a serviço
da política de estado.
Esperava-se do artista que, ao invés de concentrar-se em abstrações
complicadas, descrevesse um mundo idílico, clássico, radioso, virtuoso,
que imperaria no futuro não muito distante, desde que grande causa,
fosse ela qual fosse, vencesse as suas rivais. Havia um imenso abismo
entre os expoentes máximos da arte de vanguarda daquela época e as
ambições estéticas feitas pelas ideologias dominantes em vários estados
europeus nos anos vinte e trinta.(*)
A consagração histórica daqueles que foram então perseguidos, todavia,
terminou se dando por meios transversos. Para afirmar a magnitude da
arte nacional-socialista sobre a cultura "degenerada", Hitler orientou
Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda e Cultura do Reich, que
realizasse uma exposição concorrente na recém inaugurada Haus der
Deutschen Kunst, em Munique, em julho de 1937. O desejo do Führer era
confrontar a ¿arte verdadeiramente alemã¿ com a ¿arte degenerada¿ para
destacar o processo de purificação que ele desencadeara na Alemanha
desde sua ascensão em 1933. Ocorre que nos dias de hoje praticamente
nenhum daqueles artistas que se tornaram obedientes soldados da estética
nacional-socialista são lembrados, ocorrendo o contrário com aqueles que
os nazistas perseguiram ou desterraram. Os nomes de Kokochka, Marc,
Kandinsky , Klee, e tantos outros, tidos como degenerados, foram
universalmente consagrados no transcorrer do século XX.
(*) A posição dos comunistas soviéticos e alemães em relação às
vanguardas artísticas ou ao Movimento Expressionistas não era um tanto
diferentes das dos nazistas. Em 1938, pelas páginas do periódico Die
Wort (A Palavra), jornal editado em alemão em Moscou, G.Lukács,crítico
eminentes e grão-sacerdote da estética stalinista, atacou o
expressionismo defendido pelo filósofo Ernst Bloch e seu parceiro Hanns
Eisler,exilados nos Estados Unidos, considerando-o anti-realista e,
portanto, contra os princípios progressistas do Realismo Socialista
(desde 1934 política cultura oficial da Rússia Stalinista). Anna Seghers,
romancista comunistas não-dogmática, mulher culta, enfrentou Lukács por
carta, remitida em 29 de julho de 1938, questionando-lhe os conceitos de
¿decadência¿ e mesmo de ¿realismo¿, defendendo a pluralidade artística
como a mais adequada para expressar a época em que se vive (ver Essays
über Realismus de G. Lukács). Alexander Abusch, um dirigente comunista,
por sua vez, foi muito claro em afirmar que a defesa que faziam dos
artistas perseguidos pelos nazistas não significava nenhum voto de
simpatia do partido em favor do expressionismo ou das vanguardas em
geral.
Bibliografia
Backes, Klaus: Hitler und die bildenden Künste. Kulturverständnis und
Kunstpolitik im Dritten Reich. Colônia: Verlag Dumont, 1988
Haffmann, Werner ¿ Banned and Persecuted: dictatorship of Art under
Hitler.Colônia; DuMont Buchverlag,1986.
Kandinski, Vassily ¿ Do espiritual na Arte. São Paulo: Martins Fontes,
2000.
Laqueur, Walter - Weimar, a Cultural History, 1918-1933, Londres:
Weidenfeld and Nicolson, 1974. Laqueur, Walter ¿ Weimar: 1918-1933.
Paris. Laffont, 1978. Lukács, Georgy ¿ Materiales sobre el realismo.
Barcelona; Ediciones Grijalbo, 1977.
Richard, Lionel ¿ Le nazisme & la culture. Paris: Frnaçois Maspero,
1978.
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