Ação humana prejudica evolução e pode condenar espécies
Ações humanas estão aumentando a taxa de mudança
evolutiva em plantas e animais de maneiras que podem
prejudicar suas chances de sobrevivência no longo prazo,
cientistas relatam. Caça, pesca comercial e algumas leis
de conservação, como limites mínimos de tamanhos de
peixes, podem todas ser nocivas à saúde das espécies.
A idéia de que espécies-alvo evoluem em resposta à ação
predatória não é nova. Por exemplo, pesquisadores
relataram há muitos anos que após décadas de pesca
intensiva, o bacalhau do Atlântico havia evoluído,
passando a se reproduzir em idade precoce e tamanho
menor.
As novas descobertas são ainda mais abrangentes. Com
base na análise de estudos anteriores de 29 espécies - a
maioria peixes, mas também alguns animais e vegetais,
como o carneiro selvagem Ovis canadensis e a planta
ginseng, - pesquisadores de diversas universidades
canadenses e americanas descobriram que as taxas de
mudança evolutiva eram três vezes maiores em espécies
sujeitas à "seleção predatória" do que em outras
espécies.
Escrevendo na edição atual do periódico The Proceedings
of the National Academy of Sciences, pesquisadores
disseram que os dados analisados sugeriam que o tamanho
durante a maturidade reprodutiva de espécies sob pressão
havia diminuído em 30 anos ou 20%, e que os organismos
estavam alcançando a idade reprodutiva cerca de 25% mais
cedo.
Em Alberta, Canadá, por exemplo, onde a lei restringe a
caça do carneiro selvagem a animais grandes, o
comprimento médio dos chifres e a massa corporal dos
animais diminuíram, disse Paul Paquet, biólogo da
Universidade de Calgary, que participou da pesquisa. E
como as pessoas apanham ginseng das florestas, "a
robustez e o tamanho da planta estão declinando", disse.
Pesquisadores disseram que a reprodução em idade precoce
e tamanho menor permite que os organismos deixem
descendentes antes de serem pegos ou mortos. Mas alguns
indícios sugerem que eles podem não se reproduzir com a
mesma eficiência, disse Chris Darimont, que faz
pós-doutorado em estudos ambientais na Universidade da
Califórnia, Santa Cruz, e que liderou o estudo.
Em entrevista, ele explicou que o peixe estudado está se
reproduzindo precocemente, "em média põe muito menos
ovos do que aqueles que esperam um ano a mais e crescem
alguns centímetros extras". Darimont disse não saber se
as características voltariam ao normal, caso a ação
predatória fosse reduzida, nem quanto tempo isso
levaria.
Os pesquisadores também observaram que a ação predatória
humana, como caça ou colheita, tem um padrão de
eliminação oposto ao que ocorre na natureza ou até mesmo
na agricultura. Os predadores tipicamente levam "os
recém-nascidos ou os moribundos", segundo Darimont.
Para os predadores, caçar adultos saudáveis pode ser
perigoso, e alguns peixes predadores não conseguem
sequer abrir suas bocas o suficiente para apanhar uma
presa adulta. Animais criados em fazendas são
tipicamente abatidos quando jovens e os fazendeiros e
criadores ficam com os adultos mais robustos e férteis
para montar rebanhos.
No entanto, redes de pesca comercial e outros
equipamentos em conformidade com leis ambientais prendem
os peixes grandes, deixando os menores escaparem. A caça
esportiva costuma ir atrás dos animais maiores. Em
algumas áreas, cerca de 50, 60, ou até mesmo 80% do
cardume chega a ser apanhado todos os anos.
"Caçar adultos grandes em idade reprodutiva, levando
tantos de uma população em um dado ano cria a receita
ideal para uma rápida mudança de características",
analisou Darimont. Alguns cientistas explicaram em seus
estudos que os cardumes não mostram uma correlação entre
a intensidade da pesca e as taxas de crescimento. Outros
conservacionistas da fauna selvagem questionam a idéia
de que a caça possa prejudicar as espécies.
Paquet disse que embora tivesse confiança em suas novas
descobertas, sabia que haveria questões sobre os métodos
analíticos utilizados por ele e pelos demais
pesquisadores. "Isso é esperado. É assim que a ciência
procede", destacou.
O biólogo havia previsto que o trabalho seria
"controverso" para a caça esportiva. "Essencialmente,
estamos dizendo, 'você não deveria fazer isso porque
está causando efeitos que até mesmo você pode não
gostar'", estimou.
Daniel Pauly, que dirige o Centro de Pesca da
Universidade da Colúmbia Britânica, considerou que as
novas descobertas "fazem sentido". Embora Pauly não
tenha visto o novo estudo, ele se recordou de mudanças
similares na tilápia de queixo preto, um peixe de água
salobra. Ele havia estudado a espécie há mais de 30
anos, quando era aluno de pós-graduação realizando um
trabalho de campo em Gana.
Após décadas de pesca intensiva, o tamanho do peixe
adulto típico diminuiu de 15 para 10 cm. Mas na época,
ele contou que não percebeu o que estava acontecendo.
Alguns gerentes de pesqueiros já estão sugerindo que a
regulamentação ambiental deve ser mudada para incluir os
peixes maiores de espécies protegidas. "Muitas pessoas
defendem isso porque os grandes são os mais férteis,"
afirmou Pauly. Segundo ele, os clientes dos mercados
pesqueiros geralmente preferiam peixes grandes. Se os
pescadores não tiverem permissão de ficar com os
exemplares maiores, "vão precisar caçar quantidades
enormes para obter uma boa tonelagem", completou.