Obama discute segurança e anuncia fim
de Guantánamo e prisões da CIA
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deve
assinar ordens executivas nesta quinta-feira exigindo
que a CIA (Central de Inteligência Americana) feche
todas as prisões secretas onde mantém suspeitos de
terrorismo e que pare de utilizar métodos coercivos em
seus interrogatórios. Em um dia dedicado a temas de
segurança nacional, Obama deva assinar ainda decreto que
fechará a prisão de Guantánamo no prazo máximo de um ano
e outro que proíbe o uso de tortura.
As medidas demonstram não apenas um esforço de Obama de
encerrar o legado criticado do republicano George W.
Bush na área dos direitos humanos, mas é o
reconhecimento de que os EUA utilizam práticas ilegais
em sua "guerra ao terror".
Shane T.McCoy/11.jan.2002/AP

Imagem mostra prisioneiros de Guantánamo vendados,
amarrados e mantidos ajoelhados por soldados dos EUA
As ordens executivas devem ser anunciadas nesta
quinta-feira, após reunião de Obama com sua secretária
de Estado, Hillary Clinton, e os principais assessores
de segurança nacional, no Departamento de Estado. No
encontro, Obama deve debater como restaurar a imagem dos
EUA no cenário internacional após algumas políticas
controversas do seu antecessor, como as prisões secretas
da CIA e Guantánamo.
Se efetivadas, as medidas do terceiro dia do governo
Obama reescreverão as regras da luta contra o
terrorismo, moldadas pelo governo Bush em meio ao temor
generalizado criado após os ataques de 11 de Setembro
--quando tudo era permitido para que os responsáveis
fossem caçados e punidos.
Segundo o jornal americano "The New York Times", as
ordens executivas de Obama contém instruções para a CIA
encerrar o programa no qual mantém suspeitos de
terrorismo em custódia secreta por meses ou até mesmo
anos, uma prática que, assim como a prisão improvisada
em Guantánamo, Cuba, foi duramente criticada pela
comunidade internacional e organizações de direitos
humanos.
Supostamente, as prisões secretas tiveram início em
2002, pouco depois dos ataques terroristas de 11 de
Setembro, para abrigar e interrogar líderes da Al Qaeda,
rede que assumiu a autoria dos ataques. Apesar disso,
relatos divulgados pela imprensa europeia já acusavam a
CIA de capturar e transportar prisioneiros de forma
ilegal e secreta muito antes: isto ocorreria desde a
Guerra da Bósnia (1992-1995), de acordo com informações
divulgadas em 2006 pelo site do jornal alemão "Tageszeitung".
Em 2007, o Parlamento Europeu acusou Reino Unido,
Alemanha, Itália e outros países europeus de serem
cúmplices dos voos secretos da CIA que transportariam de
forma ilegal suspeitos de terrorismo. Segundo o
relatório do comitê de investigação do Parlamento
Europeu, mais de 1.200 voos da CIA utilizaram o espaço
aéreo europeu entre 2001 e 2005 com esta finalidade.
Não se sabe ao certo quando suspeitos foram detidos
nestas prisões, mas, em 2006, após firme condenação do
Congresso, Bush ordenou que os 14 prisioneiros restantes
fossem levados a Guantánamo e julgados em tribunais
militares.
Tortura
As ordens também proibiriam, segundo o "NYT", que a CIA
use métodos coercivos de interrogatório e exigiriam que
a agência seguisse as mesmas regras dos militares ao
interrogar suspeitos de terrorismo.
A agência já foi centro de um escândalo, em 2006, quando
denúncias de organizações de direitos humanos apontaram
que a CIA levava clandestinamente suspeitos de
terrorismo até países onde podiam ser interrogados sem
controle da Justiça ou qualquer respeito às leis
internacionais. Alguns dos presos afirma inclusive ter
sofrido tortura, informa o jornal espanhol "El Pais".
Assim, a lista de ordens executivas de Obama deve
incluir uma clara proibição ao uso de métodos coercivos,
considerados tortura, como a asfixia simulada, técnica
que Bush defendeu recentemente como prática legalizada e
que salvou muitos vidas.
As novas ordens estipulam, segundo fontes do governo,
que a CIA use as mesmas técnicas de interrogatório que o
Exército. Contudo, aponta o "NYT", as ordens executivas
permitem que Obama reinstaure as operações de detenção e
interrogatório usadas atualmente pela CIA, por ordem
presidencial, caso Osama bin Laden ou outro grande líder
terrorista seja preso.
Mesmo assim, afirma o jornal, a ordem executiva deve ser
recebida com ceticismo pela agência, que por anos
defende que as técnicas de interrogatório usadas pelo
Exército --e aprovadas pelos grupos de direitos
humanos-- não são suficiente para obter informação de
membros da Al Qaeda ou Taleban.
Guantánamo
Obama deve assinar também nesta quinta-feira uma ordem
executiva exigindo o fechamento, no prazo máximo de um
ano, da prisão da base naval americana de Guantánamo, em
Cuba. O democrata se comprometeu, durante a campanha
presidencial, a fechar o controverso presídio em Cuba
para suspeitos de terrorismo.
O rascunho da ordem executiva sobre Guantánamo indica,
sem apresentar mais detalhes, que serão usados "meios
legais" para tratar os detentos que não possam ser
transferidos para outros países ou julgados em tribunais
americanos.
Segundo as agências internacionais de notícias, que
citam funcionários ligados ao presidente, Obama dedicará
seu segundo dia na Sala Oval para assinar outros dois
decretos: um proibindo o uso de tortura e outro
ordenando uma revisão nos processos de detenção para
presos em Cuba.
Nesta terça-feira (20), em suas primeiras horas como
presidente, Obama pediu a suspensão, por 120 dias, dos
julgamentos de prisioneiros do controverso centro de
detenção. O pedido foi acatado pelos dois juízes
militares responsáveis por seis processos em andamento e
permite que o governo Obama revise as políticas e
condições de detenção na prisão.
A decisão foi muito bem recebida pela organização de
direitos humanos Human Rights Watch (HRW), que disse ser
um sinal da alta prioridade que é para o novo presidente
a reforma da estratégia americana contra o terrorismo.