Marrocos é porta de entrada para iniciantes na cultura
muçulmana
Incrustada no sul do Marrocos e às portas do deserto do
Saara, Marrakech há décadas fascina os viajantes
ocidentais no norte de África. Ex-colônia francesa desde
1956 e com fortes ligações políticas e econômicas com
Portugal e Espanha, o Marrocos serve como excelente
porta de entrada para os iniciantes na cultura
muçulmana.
Boa parte da população urbana fala francês e o inglês
funciona razoavelmente bem. Mais distante do
Mediterrâneo, contudo, Marrakech tem a vantagem de
preservar muito da cultura berbere, as tribos habitantes
do deserto.
Arnaldo Comin/Folha Online

A religião e o comércio de Marrakech giram em torno da
grande mesquita Kutubiyya
Fartamente arborizada por laranjeiras e palmeiras
gigantes, Marrakech parece até uma cidade de praia,
ainda que distante 150 quilômetros do litoral.
Apesar das largas avenidas e uma área nova repleta de
hotéis e prédios de escritórios modernos, é na Medina--
o muro que cerca o centro histórico-- que fica o pulmão
da cidade.
Na cultura islâmica, religião e comércio são duas faces
da mesma moeda. Toda a vida da cidade gira em torno da
espetacular mesquita Kutubiyya, ao lado da praça Djemaa
El-Fna, que dá acesso ao labiríntico mercado tipicamente
árabe.
Embora pareça assustador no começo, a grande diversão de
Marrakech é se deixar perder pelas ruelas repletas de
lojas com tapetes, roupas, louças e artigos de decoração
típicos.
Na hora de fazer negócio, os marroquinos levam ao pé da
letra o versículo do Corão que diz: "Só Alá pode fixar
um preço justo".
Em Marrakech, com exceção dos hotéis e restaurantes,
tudo se negocia. O segredo é perder a vergonha ocidental
e pechinchar. E muito.
Aprendendo a pechinchar
Com muita paciência e jogo de cintura é possível baixar
o preço de uma mercadoria até um terço do valor
original, por isso não convém se empolgar e sair
comprando tudo no primeiro dia.
Viajar pela região não é particularmente barato, já que
o turismo acaba inflacionado pelo fluxo de euros trazido
pelos europeus. Ainda assim, é uma opção acessível. Com
R$ 1 compra-se 3,5 dirhans, a moeda marroquina, e os
gastos com alimentação e transporte são bem razoáveis.
Um taxi do aeroporto até o centro sai por
aproximadamente R$ 30 --barganhando, é claro-- enquanto
um delicioso cuscuz, o clássico da cozinha marroquina,
sai em torno de R$ 20 por pessoa.
Para hospedagem, uma excelente dica são os Riads, casas
tradicionais transformadas em hotéis nos quais os
proprietários normalmente são franceses. Atendimento
simpático, decoração caprichada e preços atrativos fazem
deles a melhor opção de estadia.
Em Marrakech, a separação entre ruas e calçadas é
praticamente uma ficção, para tensão dos turistas
Típica cidade de terceiro mundo, com cerca de um milhão
de habitantes, Marrakech impressiona pelo trânsito
caótico, dominado pelas motocicletas, e o burburinho das
pessoas andando apressadas.
A separação entre ruas e calçadas é praticamente uma
ficção, o que gera certa tensão aos visitantes. Por
outro lado, o povo marroquino é extremamente cordial e
acolhedor. Assaltos e violência também são raros, um
motivo a menos para preocupação.
Embora exista algum assédio ao turista, não é nada se
comparado ao que um estrangeiro sofre no Pelourinho, em
Salvador. No caso das mulheres, é recomendável sair com
o cabelo preso, os braços cobertos e roupas sem decote.
Cidade é famosa pelos jardins e palácios
Infelizmente, os não seguidores do Profeta Maomé estão
proibidos de entrar nas Mesquitas, o que gera alguma
frustração. Quem quiser curtir essa experiência terá de
se deslocar até Casablanca, mais ao norte, onde alguns
templos são abertos aos turistas. Mas isso não faz de
Marrakech pobre em locais de visitação. A cidade tem
vários palácios, que encantam pela arquitetura e o
finíssimo trabalho de azulejaria.
O maior deles, o Palácio Real, onde o rei Muhammad 6º,
cuja foto está em absolutamente todos os lugares
públicos, também é vedado ao público. Há, porém, duas
ótimas opções, os Palácios El-Bahia e El-Badi.
O primeiro foi construído no final do século 19 e chama
a atenção pelos arabescos espalhados por um labirinto de
salões e jardins ornamentados por fontes, laranjeiras e
flores de diversos tipos. O El-Badi, por sua vez, é uma
ruína do século 16, o que não o torna menos
interessante.
A construção reflete um dos períodos áureos do sultanato
marroquino e sua vista da cidade é magnífica. Pode-se
visitar ainda um púlpito de oração construído no século
10 em Córdoba, na Espanha, considerado uma obra-prima do
gênero no mundo muçulmano.
Arnaldo Comin/Folha Online

Jardim Majorelle, desenhado pelo pintor Jacques
Majorelle e comprado pelo estilista argelino Yves Saint
Laurent
Marrakech também oferece ótimos passeios por parques e
áreas verdes. O mais popular é parque no entorno da
Grande Mesquita, onde as mulheres marroquinas costumam
se encontrar para bater papo e relaxar.
O local mais charmoso da cidade, porém, é o Jardim
Majorelle, desenhado pelo pintor modernista francês
Jacques Majorelle, que se estabeleceu em Marrakech por
volta da década de 20. Nos últimos anos o jardim foi
comprado por Yves Saint Laurent, morto em junho de 2008.
Quem quiser dar um último adeus ao estilista poderá
visitar o pequeno memorial onde suas cinzas estão
depositadas.
Além da arquitetura tradicional, a cidade permite ainda
conhecer um pouco do moderno urbanismo árabe,
concentrado na região do Guéliz, seu bairro mais
cosmopolita.
Há muitos edifícios novos, hotéis, bares e restaurantes
que atraem a elite local e turistas europeus. A
construção mais chamativa é a novíssima estação de trem,
que mistura com bom gosto a funcionalidade ocidental e a
estética muçulmana.

Nova e moderna, a estação de trem de Marrakech é uma das
construções mais chamativas da cidade