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O poder sutil
Paulo Nassar
De São Paulo
As relações públicas e a propaganda são um tipo de poder
sutil, que dobra ou constrói resistências. Suas
estratégias, mensagens e performances dispensam as armas
das guerras convencionais, quando estas acontecem é
porque a persuasão e outras formas comunicacionais
falharam.
O envio de tropas suplementares norte-americanas e
européias ao Afeganistão é uma demonstração de que
Barack Obama não teve tempo de dominar e parar a máquina
de guerra herdada de George W. Bush - que tinha apenas
30% de aprovação, em agosto de 2008, segundo pesquisa da
CNN/Opinion Research Corporation Poll - e impor o poder
brando das palavras e da retórica.
Um tipo de poder que o professor de Harvard, Joseph Nye,
chamou, no início dos anos 1990, de soft power, uma
forma de influenciar os outros por meio da cultura, do
entretenimento e da ideologia. Nye, ainda sob a
influência da derrota americana, no Vietnã, da
aproximação sino-americana e da détente
soviético-americana, ambas promovidas por Richard Nixon,
e, também, da queda do Muro de Berlin e da dissolução da
União Soviética, reciclou as idéias de Max Weber sobre o
poder exercido por personalidades carismáticas, entre
elas, os políticos e religiosos.
O que Nye conceituou como soft power institucionalizou e
valorizou ainda mais aquilo que a diplomacia tem como o
seu maior atributo, o diálogo, a abertura de canais de
comunicação. Além de legitimar as ações da propaganda e
das relações públicas, no ambiente da democracia
contemporânea.
Ações que são profissionais, planejadas e veiculadas por
mídias poderosas, baseadas no velho carisma e na
persuasão. O professor Roberto Porto Simões, da
Pontíficia Universidade Católica do Rio Grande do Sul,
informa que as relações públicas como pensamento "abarca
o conhecimento científico que explica, prevê e controla
o exercício de poder no sistema organização-públicos".
O poder da narrativa
Dentro de um contexto em que as relações públicas e a
propaganda são um poder bacana e suave, que faz o
serviço elegante de influenciar sem derramamento de
sangue, muitas vezes, os jornalistas de todos os rincões
transformam os seus jornais, revistas e sites em
repositórios de opiniões e certezas ideológicas.
Os trabalhadores do soft power, comunicadores e
relacionadores, sabem da importância dos ritos, rituais,
mitos, heróis e anti-heróis. Estes últimos para serem
usados e abusados como modelos dentro de narrativas que
serão espalhadas pelo mundo, para o bem ou para o mal,
para as decisões de compra e de voto.
Como elemento de uma narrativa produzida pelos seus
inimigos, Manuel Zelaya, o presidente deposto de
Honduras, com o seu bigodão e o seu inseparável chapéu,
facilmente pode ser identificado como um Saddam Hussein
tropical.
Hitler produziu sua propaganda por meio de documentários
com o objetivo de transformá-los em representação exata
de uma sociedade que pretendia vender como ideal,
perfeita e grandiosa. O nazismo, sem abrir mão do hard
power, tinha o seu soft power comandado por Leni
Riefenstahl, diretora de Day of Freedom - Our Fighting
Forces (1935), Triumph of the Wil (1934/1935) e Olympia:
the festival of beauty, the festival of the people
(1936/1938). Para criar e fortalecer as relações entre
os nazistas, o exército e a sociedade alemã, os heróis e
os modelos de comportamento apresentados nestes filmes
de Riefenstahl procuravam exaltar a competência e a
beleza daqueles que mantinham o regime, o ideal de raça
pura e a pátria germânica.
O soft power brasileiro ainda não massificou um tipo de
herói nacional usando a literatura e o cinema. O máximo
que se conseguiu foi Macunaíma (1969), filme dirigido
por Joaquim Pedro de Andrade, inspirado em obra homônima
de Mário de Andrade. Macunaíma, como se sabe, é um herói
sem caráter, sem causa, sem trabalho, sem terra, sem
escola e sem cota racial (é um negro que virou branco).
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