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'Haussmann", o artista da destruição
Consideraram-no um dos maiores prefeitos de todos os tempos.
George-Eugène, barão de Haussmann, um homem que viera de Var, do sul da
França, nomeado prefeito do departamento do Sena por Napoleão III, em
1853, tornou-se o maior modernizador urbano que se conheceu até agora no
Ocidente imprimindo seu nome para sempre numa das mais belas cidades do
mundo.
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A determinação pela reforma
Diziam que Charles-Louis Napoleão Bonaparte, sobrinho do imperador,
desembarcara em Paris, em 1848, cidade da qual pouco sabia, com um
mapa das futuras reformas urbanas que nela pretendia fazer. Seu
antepassado ilustre, Napoleão I, tivera ambiciosos planos para
mudá-la, mas as sucessivas guerras e as custosas campanhas militares
que o levaram à conquista de boa parte da Europa absorveram parte
substancial dos recursos que ele imaginara investir.
O desejo dele era fazer da
metrópole dos franceses uma nova Roma, tão majestosa como fora
outrora a sede dos Césares. Exemplo disto foi Bonaparte ter mandado
iniciar o Arco do Triunfo, depois da vitória em Austerlitz, em 1805,
que até hoje é um dos símbolos mais famosos da capital. |
Dois fatores foram determinantes na ordem de Napoleão III em dar começos
às obras. O primeiro deles era evitar que no futuro um levante
revolucionário tivesse sucesso - entre 1827 e 1849, por oito vezes foram
levantadas barricadas na cidade -, situação que ele tivera que enfrentar
em dezembro de 1851, quando houve reação armada da esquerda e dos
operários da cidade contra o desejo dele de continuar à cabeça do poder
executivo francês através de um golpe de estado, desta feita não mais
como presidente (ele fora eleito diretamente nas eleições da Segunda
República, proclamada em 1848), mas como imperador dos franceses.
Levante este que foi duramente sufocado pelas guarnições militares
chamadas a intervir.
O outro fator foi à erupção de uma segunda epidemia de cólera (a de 1832
matara 20 mil moradores) que varreu a cidade na esteira das desordens
provocadas pela Revolução de 1848 e que redundou em 19 mil vítimas. A
grafia da Paris da época, especialmente o miolo da cidade - casas
amontoadas, ruas estreitas e vielas lúgubres, sistema de esgotos a céu
aberto, higiene clamorosamente falha, ar puro inexistente e luz do sol
insuficiente - faziam com que o centro super povoado da Vieux Paris
fosse uma ameaça permanente à integridade dos seus habitantes e monturo
mal-cheiroso de onde invariavelmente se expandiam as pragas ao tempo que
servia de abrigo ao tifo e ao tétano.
Os horrores causados pela insalubridade e pela má vida que se levava
então, particularmente entre as classes proletárias, já haviam sido tema
da literatura, tanto de Victor Hugo (Les miserables) como de Eugene Sue
(Les mystères de Paris), que sistematicamente denunciaram a sordidez da
existência dos moradores pobres da capital.
Pouco, bem pouco, havia mudado da Paris medieval até a metade do século
XIX. Desde o século XVIII o Iluminismo provocara uma significativa
alteração nas mentalidades e conhecimentos, mas o que ainda imperava no
traçado urbano da capital era o arcaico enredado labiríntico herdado dos
tempos góticos.
Napoleão III, quando estivera em Londres, se encantara com os avanços
que a capital britânica fizera no sentido de limitar os efeitos que as
epidemias causavam. Investimentos públicos significativos haviam sido
feitos pela municipalidade em obras preventivas nos arredores das
margens do rio Tamisa para suprimir com os miasmas e águas putrefatas
que eram as fomentadoras dos surtos infecciosos que, de tanto em tanto,
assolavam a grande urbe dos britânicos.
Paris tinha que seguir-lhe no exemplo. Foi assim que o barão de
Haussmann recebeu carta branca do imperador para travar sua guerra
contra o passado e implantar a metrópole iluminista às margens do rio
Sena.
O artista da destruição
Com brigadas de operários treinados em demolição, com muita pólvora à
disposição e coragem para fazer as incontáveis desapropriações, tendo o
poder do imperador às suas costas, o destemido prefeito rasgou o ventre
da antiga capital em todas as direções. O antigo casario foi posto
abaixo e, em seu lugar, surgiram os amplos bulevares todos com novas
construções padronizadas, apoiadas por serviços de esgoto, gás encanado
e abastecimento de água tratada fornecida por 600 quilômetros de
aquedutos.
No lugar das cento e vinte mil habitações destruídas por Haussmann
surgiram outras 320 mil modernas, em 300 quilômetros de novas vias que
foram sendo construídas nos vinte anos seguintes, cuja altura padrão não
ultrapassava os seis andares.
Além disto, abriu espaços para os parques públicos (Bois de Boulonne e
de Vencenes, além dos parques Monceau e Montsouris) como tratou de fazer
com que os trens vindos do interior desembarcassem dentro da cidade
(Gare Lyon, Gare du Nord, erguidas entre 1855 e 1865).
Havia em tudo um toque da venerada grandeza romana somada a uma paixão
renascentista pela perspectiva e pela proporção que se materializou no
traçado das longas e largas avenidas que partiam da Étoile, adornadas
por amplas calçadas, como é o caso da espetacular Champs Elisées, talvez
a mais famosa do mundo.
Por vezes a cidade parecia ter sido acometida por um terremoto, como se
verifica nas várias fotografias tiradas por Charles Marville, contratado
pela ¿Comissão histórica de Paris¿, em 1860, especialmente para
documentar as obras e que as imortalizou.
Toda a Paris aos poucos foi se tornando uma obra de arte, uma autentica
cidade- luz, sendo que o morango da torta foi a construção da nova Ópera
por Charles Garnier, inaugurada em 1875.
O poeta Baudelaire, um flâneur conhecido e um tanto nostálgico que
adorava passear pelas ruas sem nenhum destino prévio, não tardou a
acusar a dimensão das transformações espetaculares operadas pelo
super-prefeito:
Le vieu Paris n´est plus ( la forme d´une ville Change plus vite, helás!
Que le Coeur d´un mortel)... Paris change! mais rien dans ma mélancolie
N'a bougé! palais neufs, échafaudages, blocs, Vieux faubourgs, tout pour
moi devient allégorie Et mes chers souvenirs sont plus lourds que des
rocs.
A velha Paris não existe mais (a forma de uma cidade muda mais depressa,
ai! Do que o coração de um mortal) Paris muda! Mas nada se moveu em
minha melancolia! Palácios novos, andaimes, blocos, velhos subúrbios,
tudo para mim se torna alegoria, e minhas caras lembranças são mais
pesadas do que rochas
(Baudelaire - Le cygne- 1857)
Ninguém como Haussmann mudou inteiramente a face de uma cidade como
durante sua longa administração (de 1853 a 1870), servindo como modelo e
inspiração para os que mais tarde reformaram tanto Buenos Aires
(Torquato de Alvear), o Rio de Janeiro (Pereira Passos), como Nova York
(Robert Moses).
Bibliografia
Bradbury, Malcon - McFarlane, James - Modernismo.Guia Geral. São Paulo:
Cia das Letras, 1989.
Jones, Colin - Paris, biografia de uma cidade. Porto Alegre: LP&M.2009.
Hussey, Andrew - Paris, the secret history. Londres: Penguin Books,
2007.
Lavedan , Pierre. Histoire de Paris. Paris: Presses Universitaires de
France , 1967.
Moncan Patrice de - Les grands boulevards de Paris. De la Bastille à la
Madeleine. Paris: Les Édition du Mécène, 2002.
Moncan, Patrice de - Charles Marville. Paris photographié au temps d´
Haussmann. Paris: Les Édition du Mécène,2008.
Moncan, Patrice de - Herteux, Claude - La Paris d´Haussmann. Paris: Les
Édition de Mécène, 2002.
Pinkney, David - Napoleon III end the Reconstruction of Paris. Nova
Jersey: Princeton University Press , 1958.
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