|
|
|
Médico vê pouca eficiência em esforços para driblar poluição de Pequim
RAFAEL REIS
da Folha Online
A cartilha distribuída pelo COB (Comitê Olímpico Brasileiro) aos atletas que
defenderão o país nos Jogos de Pequim não será suficiente para protegê-los dos
riscos da poluição da capital chinesa. Essa é a opinião do chefe do laboratório
de patologia neuromuscular da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Beny
Schmidt.
Segundo o médico, que trabalhou com alguns integrantes da delegação paraolímpica
do país, os esforços da entidade são ineficientes para preservar a saúde dos
atletas, que serão expostos a um ar com 80 microgramas/m³. O índice de poluição
é considerado alto quando está acima de 50 microgramas/m³.
"O que os médicos podem fazer é muito pouco. Hidratar os atletas, mudar o tipo
de alimentação, evitar que eles treinem em condições inadequadas. Mas a medicina
não tem uma atitude medicamentosa específica para um determinado momento. A
cartilha é paliativa, cuida dos possíveis sintomas que os atletas podem
enfrentar", disse Schmidt.
O médico contestou a escolha de Pequim como sede da Olimpíada e disse que a
decisão do COI "manchou a carta olímpica" ao colocar a saúde dos atletas abaixo
dos interesses financeiros.
"Pequim é uma cidade poluída de tal forma que sua poluição é cerca de 2,5 vezes
superior à do pior dia da pior região da cidade de São Paulo. O atleta novamente
está sendo tratado como uma mercadoria. A carta olímpica está manchada pela
avidez ao dinheiro", afirmou o médico.
O manual de orientações, elaborado pelo Cenesp (Centro de Excelência Esportiva)
da Unifesp em parceria com o COB, faz uma série de recomendações aos
competidores olímpicos, como suplementação alimentar com ômega-3, treinamento
muscular inspiratório e monitoração da rotina das vias respiratórias, que
servirão de referência para detecção de eventuais alterações provocadas pela
qualidade do ar.
O diretor do Cenesp, Antônio Carlos da Silva, admitiu que o quadro de Pequim é
grave e perigoso para a saúde dos atletas, mas disse que os riscos podem ser
controlados por meio das dicas presentes na cartilha e de uma medicação
adequada.
"O quadro da qualidade de ar de Pequim em termos de riscos de morte súbitas ou
eventos sérios do ponto de vista de saúde realmente é maior do que se os Jogos
Olímpicos acontecessem em outro lugar. Por isso, indivíduos com histórico
clínico de doenças cardiovasculares, hipertensão, doenças relacionadas com a
coagulação sangüínea devem estar devidamente medicados", afirmou.
Primeira delegação brasileira a chegar na Vila Olímpica, o remo treina na
capital chinesa desde terça-feira e já enfrenta os efeitos da poluição, mesmo
que até agora eles sejam mais visuais do que sintomáticos.
"A camada de poluição é bem forte, não dá nem para ver o sol direito. Mas, por
enquanto, não senti nada enquanto estava remando. Vamos ver quando o treino for
mais forte", avaliou Fabiana Beltrame, que irá competir no single skiff
feminino.
Para tentar melhorar a qualidade do ar da capital chinesa e, assim, minimizar os
riscos para os atletas, o governo chinês instituiu um rodízio mais rígido de
automóveis, a retirada de 300 mil veículos poluidores e o fechamento de várias
fábricas situadas nas imediações de Pequim. |
|
|