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Um futuro melhor para
os animais sem a crueldade do uso em laboratórios
Computadores e tecidos
cultivados em laboratórios estão, aos poucos,
substituindo os animais nas pesquisas científicas.
Desde sábado, o site de VEJA publicou uma série de
entrevistas com especialistas que discutiram os prós
e os contras do uso de animais em pesquisas
científicas. Steven Wise, professor de direito dos
animais em Harvard, defende que alguns animais
tenham os mesmos direitos que protegem os humanos; o
médico Ray Greek tenta provar cientificamente que
usar animais não vale a pena; Michael Conn,
pesquisador e autor do livro The Animal Reserch War;
e Marcelo Morales (em uma entrevista feita na 25ª
reunião anual da FeSBE e publicada anteriormente
pelo site), presidente da comissão de ética com
animais da UFRJ, argumentam que sem a pesquisa com
animais a medicina não teria avançado. Com esta
matéria, encerramos a série.
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Talvez esse debate não faça sentido daqui a
cem anos — ou até menos. O uso de animais
para esse tipo de pesquisa hoje é uma
necessidade que pode desaparecer com a
evolução de modelos que simulam os efeitos
dos remédios em computadores e em tecidos
humanos cultivados em laboratório. Mas, por
enquanto, todos os remédios que estão nas
prateleiras das farmácias foram testados em
animais. Se vivemos mais e melhor, devemos
muito às pesquisas com animais. Foto;
(Photodisc) |
Talvez um
dos casos mais emblemáticos seja a descoberta dos
antibióticos, usado como exemplo tanto por
defensores e detratores do modelo de pesquisa com
animais. Em 1928, Alexander Fleming notou que a
bactéria staphylococcus não proliferava em uma
cultura contaminada com o fungo Penicillium notatum.
A partir daí, foram 12 anos até que houvesse
penicilina suficiente para testes científicos. Em
1940, dois cientistas ingleses infectaram oito
camundongos com uma dose letal de bactéria e, uma
hora depois, injetaram penicilina em quatro deles.
Os que não foram tratados morreram. Mas a quantidade
de penicilina necessária para tratar humanos era
3.000 vezes maior do que em camundongos.
Para os detratores, a diferença de escala revela a
falta de precisão do modelo animal. Já os cientistas
argumentam que, sem esses testes iniciais, a
penicilina não teria sido mais estudada. O método
revolucionou o tratamento de infecções bacterianas
que, até então, causavam centenas de milhões de
mortes.
Outros avanços semelhantes, atribuídos à
experimentação animal pelos cientistas que a
defendem, são a transfusão de sangue, a cura da
tuberculose, o tratamento da asma, o transplante de
rim, o tratamento do câncer de mama - e a produção
de todos os medicamentos atualmente comercializados.
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Certas pesquisas
beneficiam tanto humanos quanto os próprios
animais. Na USP, a geneticista Mayana Zatz
conduz atualmente uma pesquisa com células
tronco em busca da cura da distrofia muscular de
Duchenne (DMD). Essa doença, que só atinge
meninos e causa a degeneração dos músculos, pode
fazer com que uma criança perca a capacidade de
andar aos 10 anos — a partir daí a situação
piora. Há alguns anos, um pesquisador americano
descobriu que cães da raça golden retriever
também desenvolvem a distrofia muscular. No
intuito de descobrir um tratamento para seres
humanos, a equipe liderada por Mayana busca a
cura da doença nos cães. Até então, as pesquisas,
com células-tronco, eram desenvolvidas em
camundongos. “Se conseguirmos tratar esses cães,
estaremos a um passo do tratamento em humanos”,
afirmou a geneticista. Depois da pesquisa, os
cães serão treinados para ajudar cadeirantes.
Tropeços — Em 1957, um novo remédio chamado
Talidomida chegou ao mercado. A substância,
sedativa e anti-inflamatória, havia sido
exaustivamente testada em cobaias. Os roedores,
que metabolizavam a droga de forma diferente de
humanos, não acusaram problemas. No entanto, as
mulheres grávidas, que tiveram a droga prescrita
para enjoo matinal, tiveram bebês deformados,
com uma condição chamada focomielia, que impede
a formação de braços e pernas. Para quem é
contra o uso de animais em pesquisas científicas,
esse caso mostra que os efeitos observados nos
bichos não servem para prever o que acontecerá
em seres humanos. Quem defende o uso argumenta
que a lição foi aprendida e com o rigor
científico de hoje isso não teria acontecido — o
teste seria feito em roedoras gestantes e o
efeito seria detectado a tempo.
De acordo com um relatório do Conselho das
Organizações Internacionais de Ciências Médicas,
de 2005, mais de 130 produtos farmacêuticos
foram retirados do mercado mundial nos últimos
40 anos por motivo de segurança. Um terço nos
dois primeiros anos de comercialização e 50% em
até cinco anos. Os principais motivos apontados
pelo órgão ligado à Organização Mundial de Saúde
são as reações adversas causadas pelos
medicamentos.
No Brasil, desde fevereiro de 2010 as empresas
são obrigadas a monitorar os medicamentos que
colocam no mercado nacional. Ao mesmo tempo, a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa),
também fiscaliza os remédios usados por
profissionais de saúde, farmácias, hospitais e
organismos internacionais. Nos últimos seis anos,
pelo menos sete classes de remédios foram
retirados do mercado por causar reações adversas
nos pacientes. Entre eles, o Vioxx, em 2004, por
causa de risco cardiovascular, e o Tacrolimos e
a Closapina, em 2009, ambos por falta de
eficácia.
Alternativas — Com a recente decisão da União
Europeia de restringir o uso de animais em
pesquisas médicas e proibir de vez a utilização
de grandes símios em experimentos científicos,
as alternativas científicas ao teste em animais
entraram em evidência.
O projeto Genoma, encarregado de sequenciar todo
o material genético humano, completa 10 anos em
2010. Os resultados alcançados por ele permitem
que modelos computacionais e matemáticos ganhem
força no estudo de novas moléculas criadas pela
indústria farmacêutica - o que antes só era
possível com o teste em animais. Esses modelos,
contudo, não são totalmente seguros e precisam
de validação ulterior para que venham a
substituir as práticas já consagradas.
Pele artificial — Além de computadores, os
cientistas estão apostando em modelos in vitro
com tecidos de seres humanos e cultura de
células. Em 2006, pesquisadores da Unicamp
desenvolveram uma pele humana artificial.
Paralelamente, outros centros brasileiros
desenvolveram pesquisas similares. Os biólogos
Luísa Villa e Enrique Boccardo, do Instituto
Ludwig de Pesquisa Sobre Câncer, recriam a pele
humana e a utilizam para estudos do HPV (vírus
do papiloma humano) no câncer cervical.
Mesmo na controvertida área dos cosméticos,
combatida pelos defensores dos animais, está
ocorrendo avanços. Na Faculdade de Ciências
Farmacêuticas da USP, a equipe formada pelas
biólogas Silvia Berlanga, Carla Brohem, Laura
Cardeal e liderada por Silvya Stuchi Maria-Engler,
desenvolveu um tipo diferenciado de pele humana
artificial que utiliza fragmentos de pele
natural doada em cirurgias plásticas, capaz de
oferecer condições para reproduzir o melanoma,
um tipo de câncer de pele extremamente letal.
Com isso, é possível realizar o teste de novos
medicamentos e cosméticos reduzindo a
participação dos animais na pesquisa.
O passo seguinte é incluir elementos do sistema
imunológico e reproduzir, in vitro, o
envelhecimento da pele artificial. A longo prazo,
outras aplicações serão possíveis, como
cirurgias reparativas para pacientes que
sofreram queimaduras ou cirurgias estéticas com
a produção de “peles customizadas”, geradas com
grau de pigmentação semelhante ao do paciente.
Seja qual for o modelo, a pesquisa científica
caminha para um futuro com um uso cada vez menor
de animais. Mas, no presente, eles ainda são
necessários para continuar a salvar vidas —
humanas e não-humanas. da Veja Abril
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