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Promotor acusa presidente sudanês de
genocídio; ONU pede segurança
da Folha Online
O procurador-chefe do TPI (Tribunal Penal Internacional), Luis Moreno Ocampo,
acusou nesta segunda-feira o presidente do Sudão, Omar al Bashir, de planejar
uma campanha de genocídio em Darfur, com assassinatos, estupros e deportações.
Ocampo pediu a um grupo de três juízes do TPI para emitir uma ordem de prisão
contra Al Bashir para evitar a morte de algumas das 2,5 milhões de pessoas
forçadas a deixarem suas casas em Darfur e que ainda são atacadas pelas milícias
apoiadas pelo governo.
O relatório apresentado hoje foi resultado de sua segunda investigação em Darfur.
Os magistrados do TPI que terão de decidir agora se as provas constituem uma
base razoável para tornar efetiva a ordem de prisão contra o presidente sudanês.
Ocampo fez dez acusações: três por genocídio, cinco por crimes contra a
humanidade e duas por assassinato. Os juízes podem demorar meses para estudar as
evidências antes de decidir se devem ordenar a prisão de Al Bashir.
Estima-se que 300 mil pessoas tenham morrido em Darfur desde o início do
conflito, em 2003, quando tribos locais levantaram as armas contra o governo de
Al Bashir, acusando as autoridades de negligência.
Ocampo disse que as estimativas mais conservadoras afirmam que os mortos no
conflito são 118 mil. Ele estima que cerca de 35 mil deles foram "mortos
diretamente" e o restante morreu indiretamente --como resultado de fome ou
doenças. Cartum fala em 10 mil mortos.
"Genocídio é um crime de intenção --não precisamos esperar até que essas 2,5
milhões de pessoas morram", disse em uma entrevista à Associated Press. "O
genocídio está acontecendo", acrescentou, dizendo que os estupros sistemáticos
são um elemento-chave da campanha. "Mulheres de 70 anos e meninas de 6 são
estupradas", disse.
Uma testemunha citada pelo promotor diz que os estupros acontecem freqüentemente
em Darfur. "Talvez cerca de 20 homens estuprem uma mulher. Essas coisas são
normais para nós em Darfur", disse em seu comunicado. "Eu também vi estupros.
Não importa quem os vê estuprando uma mulher, eles não ligam. Eles estupram
meninas em frente aos seus pais".
Ocampo disse que os estupros estão produzindo uma geração de "bebês janjaweed"
[milícia árabe que promove assassinatos, estupros e 'limpeza étnica' na região
de Darfur] e uma "explosão de infanticídio" entre as vítimas.
ONU
Depois das informações sobre o pedido de prisão do presidente sudanês, o
secretário-geral da ONU, Ban ki-moon, afirmou esperar que o Sudão garanta a
segurança do pessoal das Nações Unidas.
Em um comunicado, Ban Ki-moon afirmou que o TPI "é uma instituição independente
e que as Nações Unidas devem respeitar a independência do processo judiciário".
Afirmando que as operações de manutenção da paz da ONU no Sudão continuarão, o
comunicado acrescentou que Ban "espera do governo do Sudão que continue
cooperando com as Nações Unidas, cumprindo com sua obrigação de garantir a
segurança do pessoal e dos bens da ONU em seu território".
O departamento de Estado dos EUA também afirmou ter dado os passos necessários
para proteger o pessoal da ONU no Sudão, reconhecendo que os esforços
internacionais para prender o presidente sudanês podem causar uma nova onda de
violência.
"Certamente é uma possibilidade", afirmou o porta-voz do departamento de Estado
americano, Sean McCormack, consultado a respeito do risco de violência contra as
tropas internacionais depois do pedido de prisão.
"Acreditamos termos tomado as medidas de segurança adequadas para nosso pessoal
em Juba assim como em Cartum", acrescentou.
Nos últimos dias, organizações de ajuda humanitária aumentaram sua segurança no
Sudão, temendo uma nova onda de violência no país. Poucas dezenas de pessoas
protestaram fora da embaixada britânica e da sede da ONU em Cartum após as
informações sobre o pedido de prisão. Cartum, que nega o genocídio em Darfur,
disse que iria ignorar o anúncio.
Em Cartum, Fathi Khalil, um membro do partido de Al Bashir, denunciou os atos de
Ocampo dizendo que foram feitos sob pressão internacional e que minam a
reputação do promotor pela independência.
O Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) denunciou em
junho a falta de cooperação do Sudão com o TPI --cuja jurisdição o governo
sudanês não reconhece-- e a União Européia ameaçou sancionar Cartum.
O Sudão, a maior nação do continente africano, sofre múltiplas divisões
religiosas, étnicas e sócio-econômicas, acentuadas pelas lutas para se apropriar
das riquezas naturais, desde que em 1978 se descobriu petróleo no sul do país.
Ontem, centenas de pessoas fizeram uma manifestação em Cartum contra o TPI
diante da possibilidade da acusação contra o presidente sudanês. O protesto
ocorreu em frente à sede do Conselho de Ministros, onde os manifestantes
gritaram palavras de ordem contra o promotor-chefe do TPI, Luis Moreno Ocampo, e
em apoio a Al Bashir.
"Adiante Bashir, somos seus soldados" e "Ocampo vergonha" foram algumas das
palavras utilizadas pelas centenas de pessoas reunidas na capital do Sudão.
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