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Argentina suspende impostos móveis sobre exportações agrícolas

da France Presse, em Buenos Aires

Um dia após ter sido derrotado no Senado, o governo da Argentina suspendeu os impostos móveis que incidiam sobre as exportações de matérias-primas agrícolas como a soja, milho, girassol e derivados, anunciou nesta sexta-feira o chefe de Gabinete, Alberto Fernández.

Com voto de minerva do vice-presidente, Julio Cobos, o Senado derrubou ontem o projeto do governo da presidente Cristina Fernández de Kirchner para atribuir impostos às exportações de grãos. A decisão de Cobos foi um duro golpe no governo de Cristina, que sofreu um grande desgaste nos quatro meses de conflito com o setor agrário e viu sua popularidade despencar entre os argentinos.

Os tributos cobrados sobre as exportações desses produtos sobre as vendas externas voltaram a ser de 35% para soja e 28% para o trigo --outras mercadorias também têm um percentual fixo, como era antes de 11 de março, quando o governo tentou impor alíquotas móveis; no caso da soja os tributos foram elevados a 48%, o que provocou a imediata reação dos produtores rurais que organizaram protestos em todo o país para exigir a anulação da medida.

"Traição"

Em sua primeira aparição pública, na noite desta quinta-feira, após a derrota sofrida no Senado, a presidente evitou falar diretamente sobre o tema e não citou o nome do vice-presidente Julio Cobos, cujo voto derrubou o projeto do governo para atribuir impostos às exportações.

Sem citar nomes, ela falou em "traições e deserções" dentro do próprio peronismo e reprovou aqueles que "não entenderam" o que ela disse durante a campanha eleitoral.

Ontem à noite, a presidente falou algumas vezes em um aeroporto, onde inaugurou uma reforma. A visita durou cerca de 90 minutos. Não houve outras reações do governo, em um dia de incertezas sobre o caminho que será tomado após o golpe no Senado.

Em sua primeira fala, a presidente defendeu os "cinco anos com a economia crescendo aos 8% anuais" e criticou "agentes econômicos que acreditam que o país pertence a uns poucos".

A segunda mensagem durou só cinco minutos. "Agradeço a presença de todos, para nos reencontrarmos, olhar nos olhos uns dos outros, homens e mulheres do povo, e saber nunca nos traímos", disse. "Escolhemos um caminho que é irrenunciável", afirmou Cristina.

"Alguns que pertencem a outros partidos têm me acompanhado, e outros que pertencem ao nosso desertaram", afirmou. Pouco depois, ela afirmou que "aos que talvez não tenham entendido o que havíamos falado em outubro, um dia entenderão".

Conspiração

O vice-presidente Julio Cobos desmentiu os rumores entre setores governistas sobre uma suposta conspiração contra o governo e defendeu "virar a página" no conflito que o Executivo enfrenta com o campo e a busca de uma saída pactuada.

"Foi um momento difícil, mas acho que era necessário se unir em torno de algo que tivesse um consenso maior", afirmou hoje Cobos a uma rede de televisão local da cidade de Mendoza, onde descansa após sua polêmica decisão.

Segundo o vice-presidente, a rejeição da proposta do governo no Senado por seu voto "causou certa tranqüilidade e uma moderada alegria" entre os argentinos sobre um assunto que "dividiu o país".

"A partir de agora, é preciso buscar consensos para elaborar uma nova lei que satisfaça as partes e se concentre em outros objetivos do governo", disse Cobos.

O político foi expulso do Partido Radical após aceitar a vice-Presidência no governo peronista da chefe de Estado argentina, Cristina Fernández de Kirchner, em uma iniciativa apoiada pelo ex-presidente Néstor Kirchner para buscar alianças entre a oposição.

Cobos chamou de "carentes de bom senso" as versões que circulam entre setores radicais do governo sobre supostas conspirações contra o Executivo e garantiu que não tem planos políticos para as eleições de 2011, embora não tenha se fechado completamente à idéia.

O vice-presidente, que ratificou sua intenção de se manter no cargo, admitiu que não conversa com Cristina desde o dia 7 e disse que seria desejável manter uma boa relação institucional com a presidente.

Segundo ele, os comentários sobre "deslealdade" feitos ontem à noite por Cristina, sem citar Cobos diretamente, não têm relação com ele, pois os dois fizeram "parte de um processo chamado de concerto, onde a pluralidade era parte do amparo dessa nova proposta".

"Continuarei cumprindo minhas funções como vice-presidente, que é presidir o Senado", comentou.

Com Efe
 


 

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