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Reforma em Cuba será testada em congresso comunista e na relação com EUA
O presidente cubano, Raúl Castro, fez uma
exibição de força no governo da ilha ao colocar homens de sua confiança --em sua
maioria da velha guarda da Revolução Cubana de 1959-- no lugar de figuras
identificadas com o ex-ditador Fidel Castro. A medida não afasta Raúl do sistema
que a ilha segue nos últimos 50 anos, mas mostra que ele quer abandonar alguns
pesos, ao menos retóricos, do passado.
O presidente de Cuba, Raúl Castro (esq.), ao lado do ex-chanceler Felipe Perez
Roque, que foi destituído do cargo na segunda-feira
Na segunda-feira passada (2), Raúl trocou o comando de oito ministérios e
removeu dos postos duas das figuras mais proeminentes do regime --Felipe Pérez
Roque deixou a chancelaria e Carlos Lage saiu da secretaria do Conselho de
Ministros, uma espécie de primeiro-ministro da ilha.
A reforma ministerial está ligada, dizem analistas, à situação econômica da ilha
e às dinâmicas internas do regime --difíceis de avaliar devido ao hermetismo do
processo político cubano--, e à postura do novo governo americano, do presidente
Barack Obama, que se mostra mais disposto ao diálogo com o tradicional inimigo.
"A sinalização é que Raúl Castro está no comando, que ele é o interlocutor e que
a discussão sobre as relações sobre o embargo deve ser feita com ele", diz o
professor Luis Fernando Ayerbe, de História e Relações Internacionais da Unesp,
referindo-se às sanções que há 47 anos os Estados Unidos impõem a Cuba. Ayerbe
também dirige o Observatório das Relações Estados Unidos - América Latina (Oreal)
do Programa San Tiago Dantas de Relações Internacionais da Unesp, Unicamp e
PUC-SP.
Ele avalia que a queda de Perez Roque, tido como possível sucessor do
presidente, pode ter implicações externas importantes. Há dez anos no cargo, o
ex-secretário particular de Fidel era um defensor da ortodoxia revolucionária,
homem de frente no combate às tentativas de abertura do regime e condutor de uma
política de aproximação com a Venezuela e com a Rússia que levou investimentos
para o país nos últimos anos.
Perez Roque incorporava a retórica antiamericana do ex-ditador, e sua
identificação com a visão de confronto com os EUA pode ter sido determinante
--juntamente com as disputas internas de poder-- para a decisão do presidente de
substituí-lo pelo vice-ministro, Bruno Rodriguez, 51, ex-embaixador de Cuba na
ONU (Organização das Nações Unidas).
Para Ayerbe, Rodriguez é um diplomata experiente e sua indicação pode tornar
menos ideológicas as manifestações cubanas sobre o embargo, diferentemente de
Perez Roque, que não fazia parte do corpo diplomático e cuja principal
credencial para assumir o cargo foi a proximidade com Fidel.
"Bruno [Rodriguez] é uma figura jovem, com experiência amadurecida de diplomacia
nos EUA, onde os melhores diplomatas cubanos amadureceram", avalia o ex-deputado
federal pelo PT e ex-embaixador do Brasil em Cuba, Tilden Santiago.
Santiago ressalta, contudo, que Rodriguez é da "mesma escola" de Perez Roque e
que, na prática, o novo chanceler deve seguir a política do antecessor.
Longo prazo
Na visão de Ayerbe, as mudanças em Cuba não serão imediatas e são difíceis de
prever. "As grandes mudanças concretas vão se dar no Congresso do Partido
Comunista que vai ser realizado no final do ano", diz ele.
Santiago, que atualmente está no PSB e é assessor da estatal de energia de Minas
Gerais, a Cemig, diz que as relações de poder em Cuba são muito complexas para
que se possam avaliar todos os fatores envolvidos na reforma ministerial.
Contudo, critica como "excessiva" a interpretação de que Raúl está apenas
colocando seus homens no lugar dos seguidores próximos de Fidel.
"Essas mudanças no ministério têm de ser vista também pelo prisma de que o
presidente Raúl Castro tem de atender a uma demanda da opinião pública cubana,
sobretudo da juventude e da juventude universitária", diz ele, que visitou Cuba
há dois meses. "Eles tem uma expectativa de ter uma vida de maior bem estar, de
melhora. [...] Não é de negação ideológica do que o regime é, é uma questão bem
concreta do estilo de vida."
Política social
A diminuição de poder do outro ministro cotado para suceder Raúl, Carlos Lage,
57, pode afetar a condução das questões ligadas às oportunidades para a
população, devido ao seu papel central na condução da economia cubana. Ele
perdeu o cargo de secretário do Conselho de Ministros, mas manteve uma das cinco
vice-presidências do Conselho de Estado, principal órgão de decisão do governo.
Desde os anos 90, quando liderou as reformas econômicas para adaptar o país à
perda da ajuda soviética, Lage está à frente da economia do país, mas a medida
de quanto poder ele ainda retém vai ficar clara apenas na condução diária dos
assuntos econômicos e nas decisões que serão tomadas a esse respeito no
congresso do partido comunista.
"É importante acompanhar o congresso porque é de lá que vão sair essas decisões
mais estratégicas, qual é o caminho de Cuba, o que significa o socialismo nessa
nova etapa, as reformas estruturais, o papel do partido nesse processo", diz
Ayerbe. Ele diz não acreditar que Raúl tenha em mente uma abertura política nos
moldes ocidentais, com disputa de poder entre partidos por meio de eleições.
"Um aspecto fundamental da manutenção desse sistema é a forma de governo baseada
no Partido Comunista. Se você altera isso, abre espaço para outras [mudanças]
políticas que podem de alguma forma solapar o poder, então isso não deve entrar
em questão", afirma Ayerbe.
O ex-embaixador brasileiro também diz acreditar que mudanças políticas
significativas não estão nos planos do regime, que deve concentrar possíveis
reformas na área econômica e na tentativa de melhorar as condições de vida da
população. "Tudo indica que o país continua a manter o objetivo estratégico do
socialismo, mas é cada vez maior a busca de adaptações às exigência do mundo
global neoliberal", avalia Santiago. "Daí importância do aumento dos
investimentos externos em Cuba, e o maestro disso era o Carlos Lage."
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