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Empresa deixa de intoxicar ar mas passa a poluir água nos EUA

Por anos, residentes desta cidade reclamaram da fumaça amarela que saía das altas chaminés da usina energética de carvão nas proximidades, que deixava uma película sobre seus carros e seixos residuais de carvão em seus jardins. Cinco Estados ¿ incluindo Nova York e Nova Jersey ¿ entraram na justiça contra a proprietária da usina, a Alleghen Energy, alegando que a poluição do ar estava causando doenças respiratórias e chuva ácida.

 


Portanto, há três anos, quando a Allegheny Energy decidiu instalar purificadores para limpar as emissões aéreas da usina, houve muita comemoração por parte dos ambientalistas. A tecnologia borrifaria água e produtos químicos nas chaminés, capturando mais de 150 mil t de poluentes ao ano antes que escapassem para o céu.

Mas o ar mais limpo veio com um custo. Todos os dias desde a implantação do equipamento em junho, a companhia despeja dezenas de milhares de litros de efluentes com substâncias químicas do processo de purificação no rio Monongahela, que fornece água potável a 350 mil pessoas e flui para Pittsburgh, 64 km ao norte.

"É como se tivessem decidido nos poupar de ter que respirar esses venenos para, ao invés disso, passar a nos obrigar a bebê-los", disse Philip Coleman, que vive a 24 km da usina e pediu a um juiz estadual que endurecesse as regras de poluição da instalação. "Não há como escaparmos."

Enquanto um número crescente de usinas que queimam carvão nos EUA se mobiliza para reduzir suas emissões ao ar, muitas delas estão criando outro problema: poluição da água. Usinas de energia são o maior produtor de lixo tóxico do país, ultrapassando setores que produzem plástico e tinta e indústrias químicas, de acordo com uma análise realizada pelo New York Times dos dados da EPA, agência americana de proteção ambiental.

Devido ao enrijecimento da legislação de poluição do ar, boa parte do lixo de usinas energéticas que ia para os céus vai agora para rios e lagos ou para aterros sanitários, que se infiltram no lençol freático, acusam reguladores e ambientalistas.

Dirigentes da usina - a Hatfield¿s Ferry, que fica no sudeste da Pensilvânia - afirmam que não há riscos à saúde ou ao meio ambiente, porque foram instalados equipamentos que limitam as toxinas que a instalação despeja no rio Monongahela e em outros locais.

Mas com o aumento do número de purificadores pelo país, cresce a preocupação entre ambientalistas - inclusive os da Pensilvânia. A EPA prevê que, no próximo ano, cerca de 50% da eletricidade gerada por queima de carvão nos Estados Unidos virão de usinas que utilizam purificadores ou tecnologias similares, criando vastas novas fontes de água residual.

No entanto, não existe nenhuma regulamentação federal específica para resíduos de usinas de energia despejados em cursos d'água ou aterros sanitários. Alguns reguladores têm usado dispositivos como a Lei Água Limpa para combater essa poluição. Mas essa legislação pode ser inadequada, afirmam os reguladores, porque não cria limites às substâncias químicas mais perigosas dos resíduos das usinas, como arsênio e chumbo.

Por exemplo, apenas uma das 43 usinas ou outras instalações elétricas no país é obrigada a limitar a quantidade de bário que despeja em cursos d'água, de acordo com a mesma análise do jornal dos registros da EPA. O bário, que é comumente encontrado em resíduos de usinas e purificadores, está ligado a problemas do coração e outros órgãos.

Embora o controle das emissões esteja previsto pela Lei Água Limpa, as usinas frequentemente violam a regulamentação sem o pagamento de multas ou a imposição de outras penalidades. Das 313 usinas carvoeiras que infringiram a Lei Água Limpa desde 2004, 90% não foram multadas ou submetidas a sanção por reguladores federais ou estatais, segundo a análise dos documentos da EPA pelo New York Times. (Um banco de dados interativo em inglês das infrações de usinas energéticas nos EUA está disponível em www.nytimes.com/coalplants.)

Multas modestas
Outras usinas pagaram apenas multas modestas. Por exemplo, a Hatfield's Ferry violou a Lei Água Limpa 33 vezes desde 2006. Por tais infrações, a empresa pagou menos de US$ 26 mil. Durante o mesmo período, a empresa responsável pela usina faturou US$ 1,1 bilhão.

"Sabemos que os resíduos do carvão são perigosos e que não os queremos no ar, por isso dissemos às usinas que elas devem instalar purificadores", disse a senadora democrata Barbara Boxer (Califórnia), que preside o Comitê sobre Trabalhos Públicos e Ambientais do Senado. "Então, por que elas estão despejando os mesmos resíduos na água das pessoas?"

No início desta década, a EPA prometeu estudar nova regulamentação sobre o lixo de usinas de energia - e reiterou a promessa após o rompimento da represa do Tennessee ter despejado quase 4,2 milhões de m³ de resíduos de carvão em fazendas e casas no ano passado -, mas os reguladores federais ainda não expediram as principais regras.

Uma razão para isso é que governos estaduais têm por muito tempo combatido novas regras federais, normalmente a pedido de executivos do setor energético, afirmam ambientalistas e reguladores. Os condados ao redor da Hatfield's Ferry, que abrigam várias universidades, são um exemplo do que pesa na balança quando esse debate aparece.

No ano passado, quando a Hatfield's Ferry requisitou permissão estadual para despejar as águas residuais do purificador no rio Monongahela, o Departamento de Proteção Ambiental da Pensilvânia aprovou o requerimento propondo limites sobre algumas substâncias. Mas as autoridades estaduais não estabeleceram limites no despejo de arsênio, alumínio, boro, cromo, manganês, níquel e outras substâncias ligadas a riscos à saúde - todas detectadas nas amostras dos efluentes da usina, de acordo com documentos estaduais.

Os registros mostram e a companhia reconhece, que a Hatfield's Ferry já despeja no rio resíduos do purificador que violam as poucas regras de poluição propostas pelo Estado. Além disso, essas regras foram suspensas até um juiz decidir sobre um recurso da usina em relação aos limites propostos. "Dá para se acostumar com a usina, o barulho e a fuligem no seu carro", disse o padre Rodney Torbic, da igreja ortodoxa St. George Serbian, do outro lado da estrada onde se localiza a Hatfield's Ferry. "Mas vejo as pessoas sofrendo diariamente por causa dessa poluição."

Dirigentes da Hatfield's Ferry afirmam que não há razão para os residentes se preocuparem. Eles dizem que os processos contra a usina não tiveram mérito e que foi instalada uma usina de tratamento de água de US$ 25 milhões que remove muitas das partículas e sólidos tóxicos do purificador. Os resíduos sólidos são depositados em um aterro de 43 hectares que contém um revestimento sintético que previne vazamentos.

Segundo os dirigentes, a poluição da usina não impõe qualquer risco. Em nota, a companhia afirmou que os limites de arsênio, alumínio, bário, boro, cádmio, cromo, manganês e níquel não estão apropriados porque a água residual da usina tem poucas chances de exceder os níveis de segurança de contaminação do rio Monongahela.

"A Allegheny instalou purificadores de última geração, tratamento de água residual de última geração e revestimentos sintéticos de última geração", a empresa anunciou em nota. "Operamos de forma a cumprir todas as leis ambientais e vamos continuar operando assim."

A instalação de tratamento de água da usina, entretanto, não remove todos os metais e substâncias químicas dissolvidos, muitos dos quais chegam ao rio, reconhecem os executivos. Uma análise do registro de outras usinas com purificadores indica que tal água residual contém muitas vezes altas concentrações de arsênio, bário, boro, ferro, manganês, cádmio, magnésio e outros metais pesados dissolvidos que comprovadamente contribuem para o câncer, falência dos órgãos e outras doenças. Dirigentes da empresa dizem que as emissões da usina não representam um risco à saúde, porque irão se diluir no rio.

Embora revestimentos sintéticos sejam considerados efetivos na prevenção a vazamentos, ambientalistas observam que o aterro da Hatfield's Ferry está a menos de 1 km acima do rio e que, ao longo do tempo, outros tipos de revestimentos acabaram se mostrando menos confiáveis do que o esperado. No mês passado, a EPA, a agência ambiental, anunciou em nota que planeja revisar os padrões para despejos no rio de usinas que queimam carvão como a Hatfield's Ferry. Estudos da agência concluíram que "a atual regulamentação, estabelecida em 1982, não acompanhou as mudanças que ocorreram no setor de energia elétrica", dizia a nota.

Mas alguns ambientalistas e legisladores afirmam que tais regras não bastarão e que serão necessárias novas leis que obriguem as usinas a usarem tecnologias mais caras que essencialmente eliminam os despejos tóxicos.

Limpeza de poluentes
"É muito importante criar um precedente que diz a usinas energéticas que elas precisam limpar genuinamente a poluição, ao invés de apenas trocar o ar pela água", disse Abigail Dillen, advogada do escritório Earthjustice, que representa duas organizações de defesa ambiental, Environmental Integrity Project e Citizens Coal Council, no requerimento à corte da Pensilvânia para endurecer as regras impostas à Hatfield's Ferry.

Dillen, como outros ambientalistas, tem apelado a tribunais e legisladores para que forcem usinas a adotar instalações de tratamento de "despejo zero", que são mais caras, mas podem eliminar a maior parte da poluição. Autoridades estaduais afirmam que estabeleceram limites apropriados de poluição da água para a Hatfield's Ferry e adotam padrões rígidos para o uso de aterros sanitários.

"Pedimos à usina estimativas da quantidade de inúmeros poluentes que ela possa emitir e, com base nessas estimativas, estabelecemos limites que protegem o Monogahela", disse Ron Schwartz, autoridade ambiental do Estado. "Pedimos a eles que monitorassem algumas substâncias químicas, inclusive o arsênio, e, caso os níveis aumentem demais, podemos intervir."

Entretanto, grupos ambientais argumentam em peças processuais e entrevistas que a Hatfield's Ferry provavelmente vai emitir produtos químicos perigosos e temem que haja poucas chances de o Estado intervir.

Problemas semelhantes ocorrem em outros lugares. Vinte e uma usinas elétricas em 10 Estados, incluindo Alabama, Kentucky, Carolina do Norte e Ohio, despejaram arsênio em rios e outras águas a concentrações equivalentes a 18 vezes o padrão federal para água potável, segundo os dados da EPA analisados pelo New York Times.

Na Flórida, Geórgia, Illinois, Indiana, Maryland, Carolina do Norte, Ohio, Wisconsin e outros, usinas têm despejado outras substâncias químicas a concentrações perigosas. Poucas dessas usinas já foram punidas por tais emissões ou tiveram suas permissões alteradas para prevenir poluição futura.

Registros indicam que aterros sanitários e outras práticas de despejo poluíram lençóis freáticos em mais de uma dúzia de Estados, contaminando a água de algumas cidades com substâncias tóxicas. Um relatório de 2007 publicado pela EPA sugere que pessoas vivendo próximo a aterros de usinas enfrentam um risco de câncer duas mil vezes maior do que os parâmetros federais de saúde.

Lobistas impedem controles
Em 2000, autoridades da EPA tentaram estabelecer controles mais rígidos sobre o resíduo de usinas elétricas. Mas uma campanha de lobby dos setores de energia e carvão, assim como autoridade públicas de 13 Estados, bloqueou a iniciativa. Apenas em 2008, de acordo com relatórios financeiros de campanhas, companhias de energia doaram US$ 20 milhões para a campanha política de legisladores federais, repartidos quase ao meio entre democratas e republicanos.

Em entrevistas, autoridades da EPA disseram que o enrijecimento das regras de poluição das usinas de energia está entre suas prioridades máximas. No mês passado, a agência anunciou que está avançando com as novas regras sobre as emissões de gases do efeito estufa de centenas de usinas de energia e outras instalações industriais. Lisa P. Jackson, que foi confirmada para chefiar a agência em janeiro, disse que vai determinar até o final do ano se certos subprodutos de usinas energéticas devem ser tratados com resíduo perigoso, o que os sujeitaria a regras mais duras.

Por enquanto, não há novas regras sobre esse resíduo. E muitos Estados estão tentando dissuadir Jackson de criar novas regras, de acordo com reguladores federais e estaduais, por causa da preocupação de que novas regras sejam mais um fardo a reguladores já sobrecarregados e porque usinas elétricas têm pressionado políticos locais para que combatam uma maior regulamentação.

Por exemplo, a Pensilvânia se opõe a designar o resíduo da Hatfield's Ferry e outras usinas como perigoso. Em nota, o Departamento de Proteção Ambiental disse que o Estado tem "legislação e regulamentação federal e estadual suficientes à nossa disposição para controlar a água de resíduo a níveis que protejam o meio ambiente e a saúde pública". Mas quem mora perto dessas usinas de energia discorda.

"Os americanos querem eletricidade barata, mas aqueles de nós que vivem perto de usinas energéticas são os que pagam por isso", disse Coleman. "É como estar no Terceiro Mundo."
 

 




 

 

 

 

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