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Poliuretano, foi um dos vilões que matou 233 jovens
em Santa Maria RS
Material usado para fazer o isolamento acústico de
boates como a Kiss pega fogo rapidamente e emite
substâncias tóxicas.
O material mais usado pelas casas noturnas
brasileiras para fazer o isolamento acústico também
pode transformá-las em fornos. Trata-se da espuma de
poliuretano que serve ao isolamento acústico –
essencial para locais como a boate Kiss, em Santa
Maria (RS). Quando não recebe a adição de um
composto químico para retardamento de combustão, a
espuma é inflamável e propaga o fogo com velocidade.
Mais ainda: ela tem características de isolante
térmico. Assim, impede que o calor se dissipe.
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"O calor em um lugar com isolamento dessa
natureza se concentra no ambiente, em vez de
se dissipar", diz Ricardo Bentini,
pesquisador do Laboratório de Biomateriais
Poliméricos do Instituto de Química da USP.
"O calor e as chamas aumentam de forma muito
mais rápida do que aconteceria em um lugar
que não tivesse esse revestimento."
Associada ao alastramento das chamas vem a
emissão de fumaça e gases — em geral a
principal responsável pelas mortes em
incêndios. |
O aumento da temperatura acelera a decomposição de
outros materiais presentes no ambiente — como móveis
e portas — e intensifica ainda mais a liberação de
substâncias tóxicas como o monóxido de carbono e gás
cianídrico.
Nos Estados Unidos, o poliuretano foi banido do
revestimento de casas noturnas desde 2003, quando um
incêndio em uma boate deixou 100 mortos. Segundo
Marlise Vasconcelos, presidente da Sociedade
Brasileira de Engenharia de Segurança, um substituto
para o poliuretano é a lã de rocha. "No Brasil, os
prédios mais modernos tem 'paredes sanduíches',
feitas de gesso e com lã de rocha por dentro." Com
ponto de combustão a partir de 800 graus Celsius —
contra 140 graus Celsius, ou menos, para o
poliuretano sem tratamento — a lã de rocha
retardaria a propagação do fogo, salvando vidas. ,
O exemplo americano — As mudanças na segurança nos
Estados Unidos foram motivadas pela tragédia
ocorrida no dia 20 de fevereiro de 2003, no clube
The Station, em West Warwick, Rhode Island. Músicos
da banda Great White também usaram fogos de
artifício no palco, o que deu início a um incêndio.
Assim como na boate Kiss, de Santa Maria, o teto era
forrado com poliuretano, que permitiu que o fogo se
alastrasse velozmente. A construção, de 1946, estava
fora dos padrões de segurança e a lotação estava
acima do permitido.
Depois do acidente, a National Fire Protection
Association (NFPA), entidade americana que publica
normas técnicas sobre prevenção de incêndios,
revisou uma extensa série de regulamentos, criando
classes específicas de materiais de revestimento,
com base na sua inflamabilidade e produção de fumaça.
Novas exigências foram feitas quanto a equipamentos
de segurança, saídas de emergência e uso de material
pirotécnico.
Em 2006, os dois donos do clube foram sentenciados a
penas de prisão de 10 e 15 anos - essa última, a
mesma pena aplicada ao gerente da banda que se
apresentava.
Impeachment — Oito anos atrás, uma tragédia
semelhante à que atingiu a cidade gaúcha de Santa
Maria também provocou mais de uma centena de mortes
em Buenos Aires, Argentina. Similar até em alguns
dos detalhes, o incêndio da discoteca portenha
República Cromagnon provocou importantes mudanças na
legislação de bares e boates portenhos e na política
de concessão de alvarás.
Na noite de 30 de novembro de 2004, com lotação
muito acima da sua capacidade – apesar de comportar
1.000 pessoas, estava com 3.000 no momento da
tragédia –, a Cromagnon pegou fogo após o assistente
de uma banda que se apresentava ter acendido um
sinalizador, que provocou fagulhas que atingiram uma
tela de plástico inflamável perto do palco. O
material entrou em combustão e o fogo se espalhou.
Como resultado, 194 pessoas – a maioria jovens –
morreram. Quase todos foram vítimas de asfixia
provocada pela fumaça.
Nos dias seguintes, investigações revelaram que a
casa funcionava mesmo com o alvará emitido pelos
bombeiros vencido e que havia uma série de problemas
na localização e na quantidade de saídas de incêndio.
Apontado como um dos responsáveis pela tragédia, por
causa da fiscalização falha, o então prefeito de
Buenos à época da tragédia, Aníbal Ibarra, acabou
sofrendo um processo de impeachment e perdeu o cargo
no ano seguinte. Já o gerente da discoteca, Omar
Chaban, foi condenado a 20 anos de prisão em 2009. A
pena foi posteriormente reduzida para dez anos e
atualmente cumpre a sentença em uma prisão de Buenos
Aires.
A comoção provocada pela tragédia não foi logo
esquecida. Familiares de vítimas passaram a liderar
movimentos pedindo mudanças na legislação e mais
segurança para as discotecas da cidade. Nas semanas
seguintes, dezenas delas foram fechadas por não
atenderem os requisitos de segurança.
As que permaneceram abertas tiveram que adotar novas
medidas, que incluíram a instalação de sinalização
interna mais clara para indicar as saídas de
emergência e a indicação da capacidade do local.
Também foi proibido o uso de fogos de artifício em
shows e festas. Já a fiscalização passou a ser mais
rígida na concessão de alvará e fiscais aumentaram a
rigidez no combate à prática de permitir a entrada
de mais pessoas do que a capacidade oficial. Veja
Abril
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