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"Governo" tenta maquiar
orçamento de prevenção a desastres
Ministro afirma que R$ 7,7 bilhões foram destinados
para a área em 2012, sendo metade paga. Levantamento
exclusivo mostra: recursos somam, na verdade, R$ 5,1
bilhões e só um terço do prometido para o ano foi
desembolsado.
Se você não pode convencê-los, confunda-os. A frase
foi cunhada no final dos anos 40 pelo então
presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, para
resumir o método de atuação de seus adversários. A
máxima, entretanto, segue atual no Brasil. Ela
traduz com precisão a filosofia do governo
brasileiro em relação à transparência de gastos
públicos. A metodologia beira a crueldade quando
usada para disfarçar o descaso das autoridades com a
prevenção e a resposta a desastres naturais. As
chuvas mataram no Brasil 473 pessoas em 2010 e 1008
em 2011 – sendo 905 delas na Região Serrana do Rio,
nos primeiros dias de janeiro.
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Em uma tentativa de
mostrar serviço, às vésperas do período mais
chuvoso do ano, entre dezembro e fevereiro,
o ministro da Integração Nacional, Fernando
Bezerra, convocou um evento no dia 12 de
dezembro, em Brasília, para anunciar: “Ouso
dizer que nós nunca estivemos tão preparados
como agora.”
Bezerra escorou a profecia em uma
apresentação com 29 slides. Em um deles,
atestava que os recursos federais para a
área somavam 7,7 bilhões de reais em 2012.
Desse valor, na versão do ministro, 4,9
bilhões de reais foram empenhados, ou seja,
reservados para futuro pagamento, e 3,9
bilhões de reais foram efetivamente pagos. O
resultado: o governo teria desembolsado
metade do prometido para a área no ano.
Foto: mcmpovos.com.br |
Levantamento da ONG
Contas Abertas e do site de VEJA com base em dados
do Sistema Integrado de Administração Financeira do
Governo Federal (Siafi) mostra que, na realidade, a
poucos dias do fim do ano, só um terço dos recursos
previstos no orçamento da União para 2012 foi gasto.
O índice é ainda pior do que os modestos 51%
apresentados por Fernando Bezerra.
O ministro usou um cálculo maroto para inflar o
valor investido na prevenção e combate a desastres
naturais. A fórmula: somar aos dados verdadeiros
cifras bilionárias do Minha Casa Minha Vida,
administrado pelo Ministério das Cidades. “O
programa nunca foi considerado nesse cálculo, nem
nos balanços do próprio governo”, afirma o
secretário-geral do Contas Abertas, Gil Castello
Branco. “Eles pinçaram recursos de outros programas
para fazer volume. Fugiram das ações específicas de
prevenção e resposta a tragédias porque, nelas, a
execução do orçamento foi pífia.”
O valor real destinado à área foi de 5,1 bilhão de
reais, dos quais apenas 1,7 bilhão foi pago até 20
de dezembro. A quantia está prevista em três
rubricas do orçamento: prevenção e preparação para
desastres; resposta aos desastres e reconstrução; e
gestão de riscos e resposta a desastres. Essa última
criada em 2012.
Em agosto, a presidente Dilma
Rousseff lançou o PAC Prevenção, que fazia
referência ao Minha Casa Minha Vida como um
mecanismo de auxílio a pessoas desabrigadas ou
desalojadas por intempéries. O ministro das Cidades,
Aguinaldo Ribeiro, prometeu reservar 50.000 imóveis
do programa para famílias de baixa renda afetadas
por desastres naturais. Não há hoje, dentro das três
rubricas referentes ao assunto, porém, nenhum
recurso previsto para essa finalidade.
O Ministério da Integração Nacional é o responsável
por articular as ações de prevenção e socorro em
caso de desastres e recebe a maior fatia (63%) dos
5,1 bilhões de reais. São 3,2 bilhões de reais.
Cidades fica com 1,7 bilhões de reais (33%). As
pastas de Ciência e Tecnologia, Educação, Minas e
Energia, Saúde, Meio Ambiente, Defesa e
Desenvolvimento Social dividem entre si os 239
milhões de reais restantes.
Prevenir ou remediar? - Quando o assunto são
tragédias naturais, o governo continua ignorando o
dito popular segundo o qual é melhor prevenir do que
remediar. Além de destinar mais dinheiro para dar
resposta a desastres (337 milhões de reais) do que à
prevenção (139,8 milhões de reais), o governo
executa mal o orçamento previsto para evitar ou
diminuir o risco de enchentes e deslizamentos.
Segundo o levantamento do Contas Abertas e de VEJA,
até 20 de dezembro foi desembolsado 58% do valor
previsto para o ano em ações preventivas. A execução
da rubrica “gestão de riscos e resposta a desastres”,
que reúne atividades de prevenção e de socorro, foi
ainda pior: só 25% dos recursos, do total de 4,6
bilhões de reais, foram gastos.
Caixa-preta - Ao longo de uma semana, a reportagem
do site de VEJA questionou o Ministério da
Integração Nacional sobre os critérios usados pelo
governo para chegar ao valor de 7,7 bilhões de reais
apresentado no evento por Fernando Bezerra. A pasta
enviou três explicações diferentes sobre o assunto
por e-mail e deu outras duas por telefone sem, em
nenhuma delas, responder à pergunta feita ou
informar os critérios para incluir ações do Minha
Casa Minha Vida no montante.
A assessoria de
comunicação do ministério informou que só detalharia
os números que diziam respeito à Integração Nacional
– 3,5 bilhões de reais dos 7,7 bilhões de reais. Na
listagem de atividades, misturaram dados de dotação
com os de valores pagos. Alertados, enviaram novas
informações, em que a dotação total passava de 7,7
bilhões de reais para 8,4 bilhões de reais. Os
dados, dessa vez, incluíam uma medida provisória
editada pela Presidência no fim do ano. O ministério
não informou a que rubricas do orçamento refere-se
cada projeto listado, o que impede a confirmação das
informações nos dados oficiais do Siafi.
Os mesmos questionamentos foram feitos ao Ministério
das Cidades, responsável pelo programa Minha Casa
Minha Vida e dono do segundo maior orçamento para
prevenção e socorro em situações de desastres
naturais. O órgão público não respondeu à
solicitação de informação da reportagem.
Por maior que seja o esforço do governo para
mascarar a realidade, dificilmente ele resistirá às
primeiras chuvas de verão. Veja Brasil
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