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Professor viajava 160
km por dia para lecionar
O sol já desponta no horizonte da cidade de Gararu
(SE) quando a professora Marta Passos Santos, 40
anos completados no domingo, acorda às 5h20. Antes
de sair para o trabalho, ela prepara o café da manhã
e ainda deixa o almoço pronto para o marido, que
trabalha na roça. Por volta das 7h40, ela segue de
moto por cerca de 15 km rumo ao primeiro destino de
sua jornada: a Escola Municipal Maria da Conceição
Souza Pinto, no povoado de Várzea Nova. Lá, 30
alunos que cursam desde a pré-escola até o 1º ano do
ensino fundamental a aguardam para iniciar a aula,
às 8h.
A rotina de Marta já foi mais corrida. Até um mês
atrás, ela lecionava, no turno da manhã, na Escola
Rural Pindaíba, no município de Capela (SE). O
percurso era de 80 km, o que a obrigava a sair às
6h20 de casa. Por meio de um acordo de permuta
estabelecido com outra professora e com as
secretarias municipais de educação, Marta abandonou
as longas viagens e passou a dar aulas na mesma
cidade onde mora. A mudança também foi vantajosa
para a outra professora, moradora de Aquidabã (SE),
que deixou de viajar os 43 km que separavam sua casa
do trabalho.
Com novos partidos eleitos para as duas cidades no
último pleito municipal, Marta tem medo de que o
acerto vá por água abaixo. A relutância tem a ver
com o desgaste físico de viajar 160 km todos os dias,
além dos riscos que a estrada oferece. "Já sofri
muito em função de acidente. Nenhum grave, mas,
outro dia, quase bati num cavalo", relembra. Nessa
época, a professora ainda ia para a capital Aracaju
nos finais de semana - onde vivem sua mãe, seu irmão
e seu filho, de 12 anos.
Na escola em Gararu, do começo da aula até as 12h,
quando o sinal toca novamente, Marta dedica-se a
promover atividades lúdicas e pedagógicas com a
turma, que é multisseriada. Com brincadeiras, a
professora busca alfabetizar os alunos e aperfeiçoar
as habilidades adquiridas. "Às vezes eu faço um
círculo e peço para eles dizerem nomes de comida em
ordem alfabética. Isso testa a memória do aluno e o
conhecimento, além do vocabulário. A criança aprende
sem perceber", explica. Além disso, músicas e
conteúdo passado no quadro-negro também fazem parte
do modelo de aula adotado por Marta.
Por volta das 12h30, após corrigir alguns temas e
atender a mães e pais de alunos que eventualmente a
procuram, Marta segue a jornada em direção à segunda
escola em que leciona, também em Gararu. Na Escola
Municipal Monsenhor Antônio de Freitas, que fica no
povoado Ouricurizeiro (a 12 km da primeira
instituição), a aula inicia às 13h. Não há tempo
para almoçar. "Tem merenda às 10h na primeira escola,
e às 15h na outra", diz a professora, enumerando
suas refeições do dia.
A tarde com os 17 alunos da pré-escola até o 2º ano
do ensino fundamental segue um roteiro semelhante,
embora a rotina seja mais tranquila, uma vez que a
turma é acompanhada por Marta há três anos. "Eles já
escrevem, então consigo ser um pouco mais livre nas
atividades", justifica. Às 17h20, os alunos se
despedem da escola, e Marta vai para casa - uma
viagem de 13 km que dura aproximadamente 20 minutos
- preparar o café que substitui o jantar. Mas sua
função de professora ainda não foi completamente
cumprida. Ainda restam 30 cadernos da turma da manhã
nos quais ela prescreve uma atividade como tema de
casa.
Além das tarefas, Marta reserva um período para
planejar a aula do dia seguinte. "Quando tenho mais
tempo no fim de semana, eu já planejo tudo. Mas, às
vezes, não consigo", conta. Entre as correções e a
programação das atividades, a professora leva mais
de duas horas buscando materiais na internet e
principalmente em livros para utilizar em sala. A
hora de dormir chega por volta das 20h30. "Não tenho
televisão", brinca a professora. A rotina recomeça
cedo no dia seguinte.
Piso salarial
Marta cursou Pedagogia entre 2002 e 2005 na
Universidade Tiradentes, em Aracaju (SE). Em 2006,
ela prestou concurso e foi chamada no fim do ano
seguinte. Ela leciona desde 2008, mas não por um
sonho de infância ou por uma vocação percebida na
adolescência. "Não foi uma escolha, na verdade. Eu
estava namorando uma pessoa, e a mãe dele ficava
dizendo que eu tinha que estudar", lembra. Hoje, ela
agradece o puxão de orelha. "Eu me apaixonei pela
educação, e isso me transformou", revela. Marta
agora é pós-graduada em Didática e Metodologia do
Ensino Superior pela Universidade São Luís de França,
também na capital sergipana.
Antes da instituição do pagamento do piso salarial
para os professores do Sergipe, Marta ganhava cerca
de R$ 1,3 mil por mês. Desse valor, em torno de R$
300 eram dedicados a gastos com combustível (quando
ela lecionava em Capela), sem contar a manutenção do
veículo. Hoje, com a vigência do piso, o salário
pelas duas escolas chega a R$ 2,6 mil - R$ 120
investidos para abastecer a moto.
O feito que incrementou a renda de Marta, contudo,
não pode ser comemorado em todos os lugares do País.
Pela lei, nenhum professor de escola pública pode
ganhar menos do que R$ 1.451 mensais para uma
jornada de trabalho de 40 horas. Mas, na prática, a
Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação
(CNTE) lista pelo menos 15 Estados onde a Lei nº.
11.738/08 não é cumprida. Entre eles, Rio Grande do
Sul e Minas Gerais são os mais preocupantes, segundo
o secretário de Assuntos Educacionais da CNTE,
Heleno Araújo.
A valorização da profissão também deixa a desejar.
Para Araújo, os problemas são históricos e carecem
de uma política consolidada para a formação dos
professores e para o plano de carreira. "As
universidades ainda não conseguiram conectar o
currículo de formação com a realidade das escolas
públicas", analisa. A educação continuada também
carece de investimentos para manter a qualidade do
profissional.
O grande problema, além da questão da remuneração, é
o déficit de professores. A Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)
estima que seriam necessários 6,8 milhões de novos
professores no mundo para que as metas do milênio
para a educação fossem atingidas até 2015.
No Brasil, o quadro efetivo está muito aquém do que
a demanda exige, aponta Araújo. "O prejuízo do
estudante é diário. Independentemente de greve, em
toda a rede pública falta um professor de alguma
disciplina", entende o secretário. O excesso de
contratos temporários também interfere no ensino,
principalmente quando vários professores ministram a
mesma disciplina num único ano letivo. "Quebra a
sequência e impede a criação de um vínculo entre
professor e estudante", explica.
O déficit é acentuado pela falta de interesse dos
jovens em seguir a carreira de professor. "O salário
é baixo, as condições são inadequadas, não há
perspectiva ou segurança de valorização social e
financeira", lamenta Araújo. Na opinião dele, os
problemas afastam os adolescentes da escolha pela
licenciatura, e a chave é oferecer as condições
necessárias para que haja procura pela profissão e,
posteriormente, o professor encontre estímulos para
seguir estudando e melhorando cada vez mais.
A rotina de Marta
5h20 - Marta acorda, prepara o café da manhã e deixa
o almoço pronto para o marido.
7h40 - A professora sai de casa rumo à primeira
escola, onde a aula começa às 8h.
10h - Hora da merenda. A professora faz um lanche
com os alunos. É como se fosse "a primeira metade"
do seu almoço.
12h - Marta finaliza a aula com a turma da manhã.
Ela ainda fica na escola algum tempo para corrigir
temas e atender pais.
12h30 - Horário aproximado em que a professora sai
em direção à segunda escola.
13h - Início da aula na segunda escola.
15h - Hora da merenda, novamente. É quando a
professora "finaliza" seu almoço.
17h20 - A aula da tarde termina. A professora volta
para casa em sua moto, num trajeto que demora
aproximadamente 20 minutos.
18h - Marta prepara o lanche da noite e começa a
preencher os cadernos dos alunos da manhã com
tarefas de casa. Caso não tenha tido tempo no fim de
semana anterior, ela aproveita para planejar a aula
do dia seguinte. A empreitada dura mais de duas
horas.
20h30 - Hora em que a professora costuma dormir.
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