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"N�o h� volta, os m�dicos
ter�o de se reeducar"
Para o cardiologista
Eric l, a medicina tradicional est� com os dias
contados. Ele prev� que aparelhos baratos e
aplicativos revolucionar�o a tarefa de obter
diagn�sticos.
Eric l anda com seu c�digo gen�tico debaixo do
bra�o. � na tela de seu iPad que o cardiologista, um
dos geneticistas mais renomados dos Estados Unidos,
consegue analisar, por meio de um aplicativo de
f�cil leitura, as informa��es de seu genoma. N�o �
s� isso. Na parte de tr�s de seu smartphone, duas
placas de metal correspondem a dois eletrodos que,
com uma press�o dos polegares, fazem a leitura dos
batimentos card�acos. O dispositivo � seu
eletrocardiograma port�til.
Em casos de emerg�ncia, como
j� calhou de acontecer, l analisa a frequ�ncia
card�aca com o aplicativo fabricado pela AliveCor,
acessado na tela do telefone. Foi assim que, num voo
para San Diego, o m�dico p�de atender a um dos
passageiros, prestes a sofrer um infarte. O paciente
foi socorrido a tempo.
Para l, inova��es como essas v�o impactar o
sistema de sa�de e a cultura m�dica. O uso do
dispositivo para celular est� em vias de ser
aprovado na Europa, e aguarda endosso do FDA (Departamento
de Sa�de) norte-americano para ser comercializado
nos Estados Unidos.
"Nada mais ser� como antes", alerta o cientista que
apostou, de forma pioneira, nas pesquisas gen�ticas
como a vanguarda no diagn�stico de doen�as. Os
estudos que identificaram genes envolvidos em
determinados tipos de c�ncer levou l a pesquisar
o DNA de pacientes card�acos. Sua tese foi
comprovada: dois genes ligados a problemas
cardiovasculares foram descobertos e, a partir da�,
surgiram novos rem�dios para o tratamento.
Em 2004, pouco depois das descobertas, l comprou
uma briga pesada com a gigante dos f�rmacos Merck,
fabricante do Vioxx, rem�dio para controle da
press�o. Motivo: o laborat�rio n�o admitia os
efeitos colaterais fatais. A quest�o foi debatida
por meses na imprensa, chegou ao FDA, e a Merck
suspendeu a fabrica��o do Vioxx. Quando n�o concorda
com algo, l n�o mede palavras. Abandonou o
emprego ap�s uma disputa por controle dentro da
Cleveland Clinic, hospital de ponta no tratamento de
doen�as do cora��o, onde tinha o posto de diretor e
atuava como m�dico e pesquisador.
Mas o maior desentendimento de l � com a atual
cultura m�dica. Em fevereiro deste ano, lan�ou o
petardo Creative Destruction of Medicine - How the
Digital Revolution Will Create Better Health Care ("Destrui��o
criativa da medicina - como a revolu��o digital dar�
origem a um sistema de sa�de melhor", em tradu��o
livre). Cansado do embara�o e da timidez de colegas
com o mundo digital, l, que coordena o programa
de medicina gen�mica da Scripps Health (organiza��o
de sa�de privada americana sem fins lucrativos),
conduziu testes em uma d�zia de novos equipamentos
para o livro e aponta para uma revolu��o dentro dos
consult�rios e pronto-socorros.
"Aposentem seus estetosc�pios", diz l, que
acredita ser necess�rio um reboot na medicina
tradicional, incapaz de resolver o problema de
milh�es de pessoas. Em entrevista por telefone, da
Calif�rnia, l conversou com o site de VEJA dias
depois de uma el�trica palestra na confer�ncia
Living by Numbers, promovida em outubro pela revista
americana Wired, em Nova York, na qual anunciou a
condu��o de testes para a cria��o de nanossensores
injetados na corrente sangu�nea, capazes de
antecipar o diagn�stico de um infarte.
O senhor parece empolgado com os novos tempos, em
que a informa��o digital deve possibilitar melhores
tratamentos a milh�es de pessoas. Ao mesmo tempo,
preocupa-se com a lentid�o e o atraso de alguns
setores. Como mudar a ordem das coisas? Mobilizando
os pacientes, os consumidores. A comunidade m�dica �
refrat�ria a todo tipo de mudan�a de procedimento �
e as novas tecnologias v�o modificar completamente o
papel dos m�dicos no futuro. Se meus anos de
experi�ncia como cl�nico servem de par�metro, posso
garantir que todas as pessoas s�o profundamente
interessadas em sua pr�pria sa�de, por mais simples
ou pouco instru�das que sejam. Sa�de � o bem mais
precioso das nossas vidas. Estas pessoas v�o se
informar, v�o procurar saber. Elas querem entender o
que acontece dentro de si mesmas. Portanto, s�o as
mais interessadas nessa mudan�a, e v�o provoc�-la.
Os m�dicos ter�o de correr atr�s.
Mas a informa��o tem um pre�o. Diria que n�o ser�
alto. Aplicativos de celular e dispositivos como um
eletrocardiograma port�til ser�o baratos e compactos.
V�o desmontar a ind�stria porque, al�m de serem mais
eficientes, ser�o acess�veis. N�o h� caminho de
volta. No meu iPad tenho uma por��o de aplicativos
com meus dados gen�ticos, a rela��o de muta��es
gen�ticas que me pro�bem ou autorizam a usar
determinada droga. Acompanho meus batimentos
card�acos. H� ainda os leitores de saliva para
controle de a��car no sangue.
As pessoas est�o capacitadas a fazer a leitura
destes equipamentos? N�o ter�o de ser reeducadas,
num processo que levar� tempo? O n�vel de informa��o
dos leigos n�o � assim t�o inferior ao de alguns
m�dicos, que ainda n�o dominam a leitura de dados em
gen�tica, por exemplo. Os doutores t�m de se
reeducar, tamb�m.
Qual ser� o papel do m�dico, ent�o? Este sistema
novo que est� se impondo n�o � irreal. � material,
palp�vel, j� existe. E � muito mais amea�ador para a
classe m�dica do que se imagina. Se eu posso medir
minha press�o ou meu n�vel glic�mico em casa, por
que ir atr�s de um cl�nico geral em um pronto
socorro? Se eu tiver acesso a um scanner �ptico
port�til, que identifique miopia e astigmatismo,
para que servir�o os oftalmologistas? Temos de
entender que as m�quinas revolucionaram o conceito
de diagn�stico. O processo n�o parou, e n�o vai
parar s� por nossa vontade. Agora � a hora de
democratiz�-lo.
Como ser� a medicina depois disso? Os m�dicos ser�o
guias, tutores. Far�o o aconselhamento, ter�o a
informa��o geral sobre um tipo de doen�a ou uma
popula��o para poder interpretar os dados e
aconselhar sobre os melhores tratamentos. Outro
caminho incontorn�vel � a volta dos m�dicos para o
laborat�rio, n�o como t�cnicos, mas como atores no
processo de desenvolvimento de drogas e dispositivos.
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