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Jogador Washington diz que aprendeu a respeitar doença
Era 1996 e o atacante do São Paulo Futebol Clube Washington
Stecanela Cerqueira, hoje com 33 anos, jogava pelo Caxias do
Sul (RS). À época, uma séria lesão no tornozelo o afastou do
campo por mais de 40 dias --período em que perdeu quase dez
quilos, passou a sentir muita sede e começou a urinar mais
do que o normal. Eram os primeiros sinais do diabetes.
Há 12 anos, Washington convive com o diabetes tipo 1 e há
seis possui três stents no coração; ele toma insulina e dois
remédios/dia
Preocupado, o jovem atleta procurou um médico para saber o
que estava acontecendo. Depois de vários exames, foi
diagnosticado com diabetes tipo 1 --doença crônica autoimune,
que acontece quando o organismo cria anticorpos contra o
pâncreas, que deixa de funcionar.
A doença costuma ser diagnosticada em pessoas entre 10 e 40
anos.
"Na época, fiquei muito assustado. Tinha apenas 21 anos e
uma carreira inteira pela frente. Cheguei a pensar que não
poderia mais jogar. Mas o meu médico me tranquilizou e disse
que eu poderia ter uma vida normal e continuar jogando,
desde que eu controlasse a doença corretamente. Foi aí que
eu passei a me interessar e aprendi a conhecer o diabetes e
o que era preciso fazer para controlá-lo", contou.
Desde então, a rotina de Washington mudou completamente. O
atleta, que não cuidava tão bem da alimentação, teve que
abrir mão de doces e passou a seguir uma dieta controlada
por nutricionistas, mesclando muita salada e frutas.
Além disso, como seu pâncreas deixou de fabricar insulina
(hormônio responsável pela redução da taxa de glicose no
sangue), o jogador é obrigado a medir a taxa de glicose
várias vezes e aplicar duas doses de insulina por dia,
normalmente antes do almoço e do jantar, ou antes de
atividades físicas.
"A taxa de glicemia de uma pessoa saudável varia de 70 mg/dl
a 99 mg/dl. O diagnóstico de diabetes acontece quando essa
taxa está acima de 126 mg/dl. O Washington chegou ao
consultório com taxa glicêmica na faixa de 340 mg/dl",
contou Fernando Menegat Kuhn, endocrinologista do jogador e
professor da Faculdade de Medicina de Caxias do Sul.
Kuhn disse que, após o diagnóstico, estimulou ao máximo o
atleta, para que ele não pensasse que o diabetes seria um
fator limitante para a carreira. "No início da doença, a
tendência das pessoas é imaginar que o mundo acabou. Imagine
uma pessoa como ele, um atleta em início de carreira com um
grande potencial. Não poderia deixar ele desistir", lembra.
O problema no coração
Com apoio e orientação do médico, Washington continuou
normalmente com a carreira e mudou-se para a Turquia, onde
passou a jogar pelo Fenerbahce. Seis anos depois de
descobrir que era diabético, ele teve que enfrentar a
primeira complicação do diabetes --uma de suas artérias
coronárias estava 90% entupida, e o jovem corria o risco de
sofrer um infarto.
Para Washington, o diagnóstico do problema cardíaco foi mais
surpreendente do que o do diabetes. "Estava treinando e
comecei a sentir os sintomas. Começou com uma queimação no
peito, mas eu achava que era azia. Isso aconteceu em dois
dias seguidos. Continuei treinando e joguei normalmente.
Treinei mais dois dias, a queimação começou a aumentar, e
senti uma sensação de formigamento no braço. Procurei o
médico do clube e durante o teste ergométrico apareceram as
alterações cardíacas."
O caso era tão delicado que o jogador foi imediatamente
encaminhado para uma sala de cirurgia e passou por um
cateterismo (exame feito para ter o diagnóstico correto da
doença cardíaca). Depois, Washington teve que implantar um
stent (espécie de tubo inserido na artéria para impedir o
seu entupimento) e foi afastado da carreira, ficando um ano
e dois meses longe dos campos.
Quando voltou para o Brasil, o jogador passou por outra
cirurgia e colocou mais dois stents em locais que poderiam
apresentar problemas cardíacos no futuro.
Após uma bateria de exames, ele retomou as atividades em
2004, no Atlético Paranaense, período em que virou
artilheiro do Campeonato Brasileiro e recebeu o apelido de
"Coração Valente" --pois a cada gol marcado ele batia a mão
direita no peito, como forma de comemorar o retorno ao
esporte.
Controle de doping
Além de ter que controlar o diabetes com insulina
diariamente, o jogador teve que aprender a conviver também
com o problema no coração --para isso ele toma dois remédios
todos os dias, um para controlar o colesterol e outro para
afinar o sangue. Também precisa fazer exames básicos com
frequência -os de sangue todo mês, e os do coração ao menos
duas vezes por ano.
Por causa do uso diário de medicação, ele também é obrigado
a informar constantemente à CBF (Confederação Brasileira de
Futebol) e às comissões antidoping quais são os remédios que
precisa tomar.
Apesar de enfrentar dois problemas sérios de saúde,
Washington diz que nunca pensou que poderia sofrer alguma
crise em campo. "Eu estava bem assessorado, bem acompanhado,
não teria por que ter medo."
O pior momento, revela, foi quando soube da morte do
zagueiro Serginho, jogador do São Caetano, que teve um
ataque cardíaco em campo, durante uma partida contra o São
Paulo. À época, Washington se calou e não deu entrevistas.
"Eu estava num momento excelente da carreira, tinha acabado
de voltar a jogar. Fiquei assustado, pois não é comum vermos
cenas como aquelas. Naquele dia, a primeira pessoa que me
ligou foi o meu cardiologista. Ele me disse "esquece isso,
não coloca minhocas na sua cabeça porque você está sendo
monitorado, você está bem'", lembra o jogador.
Tranquilo em relação à sua saúde, casado e pai de duas
meninas --Ana Carolina, de 6 anos, e Catarina, de 1 ano e 5
meses--, o jogador diz que o que o ajudou a enfrentar os
dois problemas de saúde foi nunca ter desanimado.
"A primeira coisa que as pessoas que têm diabetes ou
problemas cardíacos precisam fazer é encontrar a solução
para a doença. Depois disso, é preciso aprender a conviver
com o problema, aprender a respeitá-lo e não deixar que ele
o vença, que ele seja o fim da sua vida. Vivo minha vida
como se não tivesse nada", afirmou.
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