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Crianças ficam mais doentes à noite; culpa é do relógio
biológico
Tudo está bem até que chega a hora de ir para a cama. O
ouvido começa a incomodar, a respiração fica ofegante, a
febre vai às alturas. Para completar o quadro desolador, o
consultório médico está fechado e o pediatra não atende ao
celular.
Pode parecer muita falta de sorte, mas a situação é comum em
casas com crianças. Muitos sintomas costumam piorar à noite,
e essa situação tem explicação científica.
O ritmo circadiano, conhecido como relógio biológico, é o
grande responsável pelas noites em claro no quarto dos
pequenos. "No estado de vigília, todos os sistemas orgânicos
estão em prontidão e ação máximas, incluindo aqueles
responsáveis pela defesa do organismo contra infecções. À
noite, esses sistemas ficam menos ativos, como se estivessem
em estado de dormência", explica o pediatra Evandro Baldacci,
do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São
Paulo.
Luciana Frade, 38, com Pedro, 4, e Júlia, 1; a funcionária
pública federal perdeu as contas das noites em que precisou
ir ao hospital
Segundo ele, a ação dos mediadores anti-inflamatórios do
organismo diminui na ausência de luz solar, facilitando a
liberação da resposta inflamatória.
"Por isso se tem mais febre à noite, a dor piora... E vale
também para os adultos; o ritmo circadiano existe em todos
nós", afirma o médico.
Marco Aurélio Palazzi Safadi, coordenador do setor de
pediatria do Hospital São Luiz e professor da disciplina na
Santa Casa de São Paulo, explica que a queda no nível de
cortisol no sangue durante a noite favorece o agravamento de
alguns sintomas. "Principalmente aqueles relacionados aos
brônquios, como asma e bronquite, que tendem a piorar", diz.
Paralelamente, a histamina, que interfere nos processos
alérgicos, está mais presente durante esse período,
facilitando sintomas alérgicos diversos, como rinites e
urticárias.
Outro problema muito comum de madrugada são as crises
asmáticas. De acordo com o pediatra Wellington Gonçalves, do
Departamento Científico de Alergia e Imunologia da SBP
(Sociedade Brasileira de Pediatria), além da influência do
relógio biológico, as crises "estão provavelmente
relacionadas ao fato de [a criança] estar deitada, o que
dificulta a drenagem das secreções pulmonares. A
movimentação da musculatura que auxilia a respiração também
fica limitada".
Safadi também acredita na interferência da posição do corpo,
que piora problemas como otite, sinusite e rinite. "Em pé, a
gravidade facilita a drenagem dos líquidos. Quando a criança
deita, a secreção mucóide pressiona as cavidades, causando
mais desconforto e desencadeando tosse", diz.
No caso dos asmáticos alérgicos, há outro fator
desencadeante. "À noite, o contato com os alérgenos
-colchão, travesseiro, cortina- é mais íntimo. A gente dorme
com o inimigo, o ácaro que vive na nossa cama", afirma
Gonçalves, da SBP.
Noites no hospital
A funcionária pública federal Luciana Frade, 38, mãe de
Pedro, 4, e Júlia, 1, sabe bem do que o médico está falando.
Ela já perdeu as contas das noites em que precisou levar o
filho ao hospital com uma crise de asma. "Toda vez que fui
ao pronto-socorro porque o Pedro estava com dificuldade de
respirar, sem exceção, foi de madrugada", conta.
O mesmo quadro pode ser observado em crianças que sofrem de
rinite alérgica. Na crise aguda, deve-se abrir a janela do
quarto, ir para a varanda e tomar um pouco de ar fresco.
"Muitas vezes, só de se deslocar para o hospital já há uma
melhora". A nebulização também pode ajudar a aliviar o
quadro.
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