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Surge nova droga para tratamento da artrite reumatóide
Cerca de dois milhões de brasileiros sofrem com artrite
reumatóide, número que deve crescer com o aumento da
população idosa, segundo a Sociedade Paulista de
eumatologia. A busca por novas drogas tem se
intensificado e estudos promissores foram apresentados
durante o Congresso Anual da Liga Européia contra o
eumatismo (Eular - sigla em inglês), que aconteceu em
junho passado, na Espanha.
Um dos destaques do evento foi o medicamento abatacepte,
que acaba de receber aprovação da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa). A droga, comercialmente
conhecida como Orencia, do laboratório Bristol Myers
Squibb, combate o processo inflamatório das
articulações, principal característica da doença. "É uma
medicação que inibe a produção de citocinas e a
atividade da célula T, ou seja, é um inibidor da
coestimulação das células T", explica Morton Scheinberg,
clínico e pesquisador em eumatologia do Hospital
Israelita Albert Einstein, em São Paulo. As citocinas
são pequenas proteínas produzidas por diversas células.
Elas atuam como uma espécie de mensageiro do sistema
imunológico e estão envolvidas em diferentes processos
como fatores de crescimento e proliferação celular.
Uma das vantagens do abatacepte, em relação às drogas
existentes, é o fato de não destruir as células do
sistema imunológico, causando menos complicações nas
defesas naturais do organismo. Além disso, segundo
informou Scheinberg, é uma droga bastante tolerável, com
poucos efeitos colaterais. A aprovação concedida no
Brasil é para doença de moderada a grave e quando os
pacientes não respondem aos tratamentos de primeira
linha. Seu lançamento no País está previsto para
setembro.
Concorrência - Também apresentado durante o evento, mas
ainda sem data para lançamento, o tocilizumabe, do
laboratório oche, atua inibindo a citocina interleucina-6,
sendo uma nova forma de combater o mal. Essa citocina
tem importante papel no processo inflamatório das
articulações. Um estudo comparou o uso do medicamento em
combinação com a droga metotrexate em relação ao uso
desta última sozinha.
Os resultados apontaram uma rápida e significante
resposta em pacientes que fizeram uso da nova droga. "O
perfil de efeitos colaterais dessas drogas é bastante
favorável. Quando se fala em droga nova tem que se ter
cuidado, muitos efeitos podem aparecer após vários anos.
Uma droga antiga é sempre mais segura. Existem muitas
opções e isso reduz o porcentual de pacientes que não
responde ao tratamento", comenta Ari adu, presidente da
Sociedade Paulista de eumatologia e médico do Hospital
das Clínicas de São Paulo.
Histórico - Tratar a artrite reumatóide e bloquear a
evolução da doença é algo recente. Os primeiros
medicamentos, por exemplo, possibilitavam o tratamento
dos sintomas e, ainda assim, com algumas falhas. Já na
década de 1980, surgiu o metotrexate, um dos tratamentos
cobertos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) - e ainda
hoje considerado padrão, apesar de não funcionar em 40%
dos pacientes. Ele representou uma revolução na terapia,
uma vez que pouco se podia fazer usando remédios a base
de cortisona. Depois do lançamento desta droga, até o
final dos anos 1990, pouco se avançou no tratamento da
doença.
Os medicamentos que chegavam ao mercado melhoravam pouco
a situação dos pacientes. "Não tínhamos recursos novos a
não ser aumentar a cortisona e encaminhar para cirurgia
quando as articulações eram afetadas. O metotrexate
deixava de responder com o uso prolongado. No final da
década de 1990, um grupo de medicamentos promoveu um
avanço no tratamento, foram os anti-TNF", lembra
Scheinberg. Os anti-TNF (fator anti tumoral) ainda são
bastante utilizados e, alguns deles, cobertos pelo SUS,
como é o caso do infliximabe, conhecido comercialmente
como emicade, da Mantecorp.
Foram as primeiras drogas biológicas e vieram com a
vantagem de ter um mecanismo de ação muito mais rápido
que o metotrexate, que demora até seis semanas para
agir. "O médico que antes não tinha opção passou a ter
várias e foram surgindo no mercado outras drogas com
características semelhantes", conta adu. Mesmo assim, um
grupo de pacientes não respondia e iniciou-se uma
corrida pela droga ideal chegando ao estágio atual.
Longe de promoverem a cura, esses medicamentos melhoram
a vida dos pacientes - sendo eficientes em pessoas que
já não tinham opções, com menos efeitos colaterais. Os
benefícios, no entanto, como frisam os especialistas,
ficam restritos àqueles que seguem corretamente o
tratamento. "Estes medicamentos funcionam como a
insulina para o diabetes. Controlamos a doença desde que
se mantenha o tratamento adequado e de forma contínua",
pondera o presidente da Sociedade Paulista de
eumatologia.
A doença - Doença crônica, podendo ser incapacitante
quando não tratada a tempo, a artrite reumatóide é um
dos principais problemas que atinge as articulações. O
paciente normalmente sofre com dores fortes e o quadro
pode evoluir para deformações. Casos mais graves chegam
a impossibilitar ações rotineiras, como girar a maçaneta
da porta. Trata-se de uma patologia comum, atingindo de
0,5 a 1% da população mundial, segundo estatísticas das
sociedades médicas. No Brasil, fala-se em dois milhões
de doentes, número que tende a subir com o
envelhecimento da população. "Conforme a população
envelhece, temos mais portadores fazendo uso das
medicações porque é uma doença crônica", explica adu.
Podendo ocorrer em qualquer idade, o pico de incidência
do mal é aos 40 anos. O tratamento somente impede a
evolução da doença e o aparecimento de deformidades. Mas
ele funciona bem quando o diagnóstico é precoce, o que
nem sempre acontece.
No Brasil, um paciente leva entre três e quatro anos
para iniciar o tratamento da artrite. Pela dificuldade
de ter acesso a um reumatologista, a pessoa acaba
recorrendo a um antiinflamatório para combater a dor,
postergando, assim, o diagnóstico. O sinal de alerta
mais importante é a presença de inflamação na junta, ou
articulação inchada, por mais de três semanas, afetando
várias articulações ao mesmo tempo. "O diagnóstico é
clínico, não há exames. Por isso é necessário que seja
feito por um especialista", complementa adu.
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