Pesquisadores questionam reais benefícios do vinho tinto
Cinco anos atrás, parecia que o resveratrol, componente
notável por sua presença no vinho tinto, era capaz de
retardar o envelhecimento. Mas um estudo publicado na
edição de 8 de janeiro do Journal of Biological
Chemistry aprofunda a divisão entre aqueles que confiam
em seu potencial e os que o consideram como bom demais
para ser verdade.

Os benefícios de saúde do resveratrol supostamente
derivam de sua ativação de enzimas conhecidas como
sirtouins, que foram relacionadas à longevidade 10 anos
atrás, quando Leonard Guarente, do Instituto de
Tecnologia de Massachusetts (MIT), constatou que
fermento com cópias adicionais do gene que codifica a
sirtouin, chamado sir2, viviam significativamente mais
tempo do que aqueles que portavam apenas as duas cópias
usuais.
Quatro anos mais tarde, David Sinclair, ex-orientando de
pós-doutorado de Guarante, publicou um trabalho que
revelava que o resveratrol acionava sirtuins no fermento
e prolongava a vida do organismo. Sinclair
posteriormente comprovou que vermes e moscas alimentados
com resveratrol viviam por mais tempo, devido à ativação
dos sirtuins.
Em seguida, em 2007, Sinclair e a Sirtris
Pharmaceuticals - empresa que ele co-fundou com
Christopher Westphal, um empresário do setor de capital
para empreendimentos, em Cambridge, Massachusetts, para
desenvolver ativadores de sirtuins - estudou uma vasta
seleção de pequenas moléculas em busca de ativadores da
SIRT1, a versão mamífera da enzima Sir2 encontrada no
fermento.
O estudo, publicado pela revista Nature, encontrou três
compostos com potência mil vezes superior à do
resveratrol em termos de ativação da enzima. Além disso,
um desses compostos tornava ratos e camundongos de
laboratório obesos mais sensíveis à insulina, sugerindo
que as substâncias poderiam ser usadas para tratar o
diabetes tipo dois, uma doença cuja incidência aumenta
em proporção à idade dos pacientes.
Menos de um ano mais tarde, a gigante farmacêutica
britânica GlaxoSmithKline adquiriu a Sirtris por US$ 720
milhões. Dois remédios da Sirtris já estão em testes
clínicos fase dois - um para o câncer e os dois para o
tratamento do diabetes tipo dois.
Mas o entusiasmo com relação aos potenciais benefícios
de saúde terminou moderado por relatórios segundo os
quais o resveratrol não ativava a SIRT1 diretamente, e
só funcionava quando os substratos se ligam a um
fluoróforo, como foram nos testes comparativos e no
primeiro teste que havia demonstrado que o resveratrol
ativava a SIRT1. Agora, pesquisadores comandados por Kay
Ahn, da Pfizer, em Groton, Connecticut, provaram que os
compostos da Sirtris não parecem ativar a SIRT1 quando
não estiverem vinculados a fluoróforos, tampouco.
"Só conseguimos reproduzir os resultados do estudo
publicado pela Nature quando usamos um peptídeo
fluorescente, usado exclusivamente por Sinclair e seus
colegas", afirmou Ahn.
Só na vida real
No entanto, Guarente, que hoje é consultor científico da
Sirtris, diz que as mais recentes constatações não são
surpreendentes ou preocupantes. Os compostos podem
trabalhar apenas por meio de peptídeos combinados a
fluoróforos, in vitro, diz Guarente, mas a situação é
outra nas células e animais.
O estudo publicado pela Nature, entre outros, foi além
dos tubos de ensaios e indicou que o SIRT1 era mais
ativo em células e animais depois da aplicação dos
compostos da Sirtris. Além disso, ministrar o
resveratrol não fazia diferença para a longevidade do
fermento que não contém Sir2, o que indica que a ação do
composto depende desse gene. De acordo com um comunicado
divulgado pela GlaxoSmithKline, a conclusão de Ahn
"ignora qualquer possibilidade de ativação direta da
SIRT1 que possa ocorrer em ambiente celular mas que seja
impossível replicar in vitro".
Mas alguns pesquisadores continuam céticos. Outro antigo
membro da equipe de Guarente, Brian Kennedy, hoje na
Universidade de Washington, em Seattle, aponta para o
fato de que testes sobre células são difíceis de
interpretar, especialmente porque os cientistas supõem
que o resveratrol interaja com grande número de enzimas.
"Trata-se de um processo que nada tem de específico",
disse Kennedy, responsável, em 2005, pela primeira
observação de que o resveratrol só ativa a SIRT1 caso
esteja combinado a fluoróforos. Ainda que o resveratrol
pareça afetar animais, ele diz que "ainda é altamente
incerto quais sejam os alvos que conduzem a essas
atividades. Continuo cético quanto à condição da SIRT1
como alvo primordial".
Controvérsia composta
Na segunda parte do estudo mais recente, Ahn tentou, sem
sucesso, reproduzir as constatações da Sirtris de que os
compostos reduziam o nível de glicose dos ratos de
laboratório obesos. Algumas das cobaias chegaram a
morrer, a despeito de terem recebido a mesma dosagem
mencionada no estudo publicado pela Nature. Mas Ahn fez
questão de observar, rapidamente, que "cada experiência
in vivo é um pouco diferente. Sob as condições do nosso
trabalho não vimos efeitos benéficos, mas não queremos
tirar uma conclusão ampla demais desses resultados".
Uma possível explicação para a discrepância, diz
Sinclair, é que Ahn e seus colegas não ofereceram
informações sobre a caracterização dos compostos, que
eles mesmos sintetizaram. Assim, não há como determinar
se eles são puros ou se eram exatamente os mesmos
compostos que a Sirtris empregou.
"O fato de que as cobaias tenham morrido indica que
possa existir uma questão de pureza", afirmou Sinclair.
Os céticos quanto ao trabalho de Sinclair continuam a
expressar dúvidas. "O entusiasmo pelo resveratrol e
pelos ativadores da Sirtris parece ter sido prematuro",
disse Richard Miller, do Centro Geriátrico da
Universidade de Michigan, em Ann Arbor, que constatou
que a ativação de percursos neurais diferentes prolonga
a longevidade de mamíferos.
"Pode ser que tenham benefícios de saúde, mas os
primeiros indícios não parecem muito fortes, e todas as
novas provas sugerem que o sistema pode ser mais
complicado". acrescentou. Mas devido ao número crescente
de estudos que demonstram efeitos benéficos dos sirtuins
e do resveratrol, ninguém quer descartá-los de vez, por
enquanto.
"Se formos solicitados a mencionar 10 proteínas que
merecem muita atenção no que tange ao envelhecimento dos
mamíferos, as sirtuins estariam na lista", diz Miller.
"Mas talvez não no primeiro lugar".