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No Oeste do Paraná,
preço da soja é a força que ergue e destrói riquezas
Enquanto
agricultores comemoram alta histórica da cotação do
grão, produtores de frango que dependem da commodity
fecham negócios que famílias levaram décadas para
construir.
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Sem receber há seis
meses pelos 60 mil frangos que produziu para
uma agro indústria, Leandro Schmidt fechou o
aviário criado pelo pai há 40 anos e agora
espera o início do plantio de soja para
fazer bicos na lavoura. |
Foi mais ou menos quando o preço da saca de soja
rompeu pela primeira vez na história a barreira dos
R$ 55, na segunda quinzena de junho, que os
moradores de Cascavel, no Oeste do Paraná, começaram
a se dedicar com mais afinco à arte da adivinhação.
Hoje é quase impossível encontrar por lá quem não
tenha um palpite firme sobre o preço do grão. Há
aqueles que dizem que a saca vai passar dos R$ 100,
os que garantem que ela volta para a casa dos R$ 40
em poucas semanas e há ainda os que apresentam
diferentes e contraditórios palpites, de acordo com
complexos cenários climáticos e geopolíticos.
Saiba mais: Seca recorde fará Brasil superar os EUA
em produção de soja, diz USDA
Tamanho interesse tem óbvias razões econômicas.
Cascavel e muitas das cidades dessa pujante região
do Paraná vivem quase que exclusivamente da soja.
Por meio dela, movimentaram algo como R$ 50 bilhões
no ano passado seja plantando o grão, seja usando-o
como componente essencial para engordar os cerca de
440 milhões de frangos que foram abatidos por ali em
2011. Até o início desse ano, produtores e
consumidores de soja viviam uma espécie de
equilíbrio lucrativo. Mas com a explosão dos preços,
desde que ficou claro que a quebra da safra
americana seria recorde por conta da maior seca a
atingir o país nos últimos 50 anos, tudo mudou em
Cascavel. Agora, a soja que enriquece parte da
população também está levando uma parcela importante
do Oeste do Paraná à uma crise que era desconhecida
para a região.
Leia também: Com preço recorde da soja, carne de
frango deve subir 50%
“É uma situação absolutamente inédita aqui, nós
nunca vimos isso antes e não sabemos exatamente o
que vai acontecer”, diz o secretário de Agricultura
de Cascavel, João Batista Jr. Enquanto comemora os
preços recordes com que os produtores de grãos de
seu município venderam a safra do ano passado, João
Batista começa a se preocupar seriamente com os
milhares de avicultores da região que dependem
diretamente de uma série de pequenas e médias
agroindústrias que estão à beira da bancarrota.
“É preocupante. Cerca de 70% do custo de produção do
frango é soja e milho e já tem muito produtor que
simplesmente parou de trabalhar porque está há mais
de seis meses sem receber das empresas que lhes
compram as aves”, diz Batista Jr. “Por outro lado,
nunca os agricultores daqui ganharam tanto”.
Oeste Paranaense transformou-se em uma espécie de
fronteira que divide aqueles que lucram com a alta
histórica da soja e aqueles que são ameaçados pelos
preços recordes da commodity
A dicotomia econômica de Cascavel é o exemplo mais
emblemático de como a quebra da safra americana está
impactando o Brasil. Essa região de vastos campos
próxima à fronteira do Paraguai concentra como em
nenhuma parte do País os efeitos positivos e os
negativos da escassez de grãos que acomete o mundo
nesse momento. É onde as duas conflitantes
realidades se encontram.
Ao Norte dali,
do Mato Grosso do Sul para cima, o preço recorde da
commodity é sinônimo de abundância. Em Sinop, no
Mato Grosso, por exemplo, vende-se tanta caminhonete
que nas concessionárias da Toyota o prazo mínimo de
espera para se comprar uma Hilux cabine simples é de
no mínimo 120 dias.
Ao Sul, em direção à fronteira com o Uruguai, onde
estão mais de 60% das 13 milhões de toneladas de
frango que o Brasil produziu no ano passado, o
cenário é de desolação. Em alguns casos – isolados,
é verdade – avicultores decidiram sacrificar a
produção ao perceber que os frangos estavam se
canibalizando por falta de ração. Famintos, passaram
a comer uns ao outros.
Leandro Schimdt, de 36 anos, decidiu não esperar
para chegar a esse ponto. Numa terça-feira no fim de
agosto entregou os pontos. Pela primeira vez em mais
de três décadas o aviário construído por seu pai
estava sendo preparado para ser fechado. Depois de
entregar quase 60 mil frangos para uma agroindústria
da região e não receber, Leandro decidiu que era
hora de abandonar a tradição familiar e buscar outra
coisa para fazer. “Vou para a lavoura fazer bico,
aqui não dá mais”, diz. Jogador de futebol frustrado,
o avicultor pretende ajudar no plantio da mesma soja
que faz sua família – a mulher e dois filhos –
depender da aposentadoria de um salário mínimo de
seu pai para sobreviver. “Só fiquei longe do aviário
quando fui tentar a sorte no Caxias do Sul, por dois
anos”, diz. Agencia Brasil
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