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Empresa iniciante ameaça domínio da Intel em chips
John Markoff
Dos mainframes aos minicomputadores e computadores pessoais, cada nova geração
da tecnologia de computação substituiu a predecessora ao atingir uma audiência
mais ampla a custo muito inferior. E, em cada uma dessas transições, a empresa
dominante de uma geração perdeu o controle na geração seguinte.
Peter DaSilva/The New York Times

Michael Rayfield, da Nvidia, mostra um computador com chip baseado no projeto da
ARM
É por isso que a principal produtora de chips para computadores pessoais, a
Intel, deve ficar atenta aos chips para computadores que estão sendo projetados
pela Qualcomm, conhecida por seus chips para celulares.
Um engenheiro da Qualcomm, na reluzente sede da empresa em San Diego, demonstrou
recentemente uma placa de circuito que cabe na palma da mão e tem capacidade de
executar vídeos de alta definição. O mais notável na demonstração não era a
qualidade das imagens em vídeo, algo a que todos já nos acostumamos, mas sim o
microprocessador envolvido, o Snapdragon, que aciona a tela com menos de metade
do consumo de energia registrado por um chip recentemente lançado pela Intel. Os
projetistas da Qualcomm dizem também que o seu chip custará menos.
À medida que o tamanho dos computadores pessoais se reduz, eles entram em curso
de colisão com os celulares multifuncionais. Muitos esperam que o impacto que
esse conflito causará mude os dois aparelhos, e as empresas que os produzem. Os
novos celulares inteligentes, dotados de conexão permanente com a Internet e que
funcionam em parte como celulares e em parte como computadores portáteis,
alteram as regras do jogo da computação porque a velocidade de processamento - o
fator no qual a Intel sempre levou vantagem sobre a concorrência - deixa de ter
importância dominante. Para um celular, dependente de uma bateria de pequeno
porte, a eficiência com que um chip utiliza energia se torna mais importante.
A questão da energia
O novo mundo dos aparelhos móveis representa um desafio especial para a Intel,
que até quatro anos atrás ignorava a questão do aumento do consumo de energia em
sua linha dominante de chips, a família X86, que serve como padrão ao setor de
computadores pessoais há quase três décadas.
Outros fabricantes de chips decidiram que ignorar o fator consumo de energia não
era uma boa atitude. Este mês, na Computex, uma imensa feira de computadores e
bens eletrônicos de consumo em Taiwan, a Nvidia, uma fabricante de chips
gráficos do Vale do Silício, demonstrou um pequeno computador portátil que
funcionava cinco vezes mais tempo com uma bateria do que uma máquina portátil de
dimensões e capacidades semelhantes equipada com o mais recente chip de baixo
consumo da Intel.
A Qualcomm e a Nvidia utilizam uma tecnologia de projeto de chips que adquiriram
sob licença da ARM, uma empresa britânica de porte relativamente modesto. A ARM
vem exercendo grande impacto sobre o mundo da comunicação. Seus processadores
têm preço substancialmente inferior aos mais poderosos chips X86 da Intel, e
existem em número muito maior, já que representam o padrão no setor de telefonia
móvel e os celulares superam os computadores pessoais por cinco contra um, em
termos de vendas.
"A batalha está sendo travada no território da ARM, e não no da Intel", disse
Michael Rayfield, diretor geral do grupo móvel da Nvidia.
Além da Qualcomm e da Nvidia existem mais de 200 empresas licenciadas para usar
o projeto de chip da ARM, entre as quais grandes fabricantes de chips como a
Marvell e a Texas Instruments. Juntas, elas fornecem os processadores usados nos
mais de 1,1 bilhão de celulares vendidos a cada ano, alguns dos quais empregam
múltiplos chips com a tecnologia ARM. Os chips também estão em uso em uma gama
crescente de bens eletrônicos de consumo para fins especiais, como navegadores
GPS e decodificadores eletrônicos para televisores.
Desafio
Dominar o grande e ainda crescente mercado de celulares é apenas metade da
batalha. Tanto os proponentes do X86 quanto os do padrão ARM estão observando
com avidez um novo mercado conhecido no setor de eletrônica como setor de MID,
ou dispositivos móveis de Internet. Esses observadores apostam que este ano
representa o início de um novo boom em uma categoria de aparelho de computação -
coisas como laptops de porte ainda menor, conhecidos como netbooks; aparelhos de
navegação pessoal em GPS; e sistemas portáteis de videogames - além de uma linha
em expansão de aparelhos idiossincráticos capazes de se conectar sem fio com a
Internet para todos os propósitos concebíveis.
Por exemplo, na Computex um dos expositores mostrou um aparelho portátil cujo
único uso era ajudar as pessoas a formar grupos de carona para ir ao trabalho.
Fora dos Estados Unidos, os computadores MID, de preço mais baixo, devem
expandir a penetração da computação em novos mercados. Nos Estados Unidos e na
Europa, porém, há um debate para determinar se essas novas máquinas constituirão
ou não apenas um nicho de mercado.
Anand Chandrasekhar, vice-presidente encarregado do grupo de plataformas móveis
da Intel, disse que espera que os computadores portáteis se assemelhem de alguma
forma a bicicletas. Não só as pessoas usarão modelos diferentes para aplicações
diferentes - a exemplo de bicicletas de estrada e mountain bikes - como um dia
elas terminarão por deixá-los de lado.
"Quando criança, eu tinha uma bicicleta adaptada ao meu tamanho, e fui trocando
de bicicleta enquanto crescia", disse Chandrasekhar.
A chegada do Atom
A Intel, a maior fabricante mundial de chips, está muito ciente da ameaça que a
ARM representa. A empresa decidiu dedicar vastos recursos ao mercado de
microprocessadores de baixo consumo de energia e diz que está rapidamente se
aproximando de seus concorrentes que usam o modelo de projeto ARM, em termos de
eficiência energética. Este mês, os primeiros netbooks equipados com um novo
chip da Intel, o Atom, começaram a chegar ao mercado. A Intel afirma que mais de
30 produtos serão equipados com o Atom.
Ainda que os chips da Intel utilizem mais energia que os seus concorrentes da
ARM, o Atom representa uma redução de 90% no consumo de energia que
caracterizava a família X86, usada em diversas gerações de computadores de mesa.
Os engenheiros da Intel conseguiram essa economia de energia em parte ao
repensar integralmente o projeto dos circuitos do chip, bem como a maneira pela
qual funcionam os transistores individuais.
Uma adição ao novo chip Atom é o chamado transistor sonolento, um circuito capaz
de regular o volume de energia consumido entre cada tic do relógio do
processador. Quando o chip não está processando números, áreas inteiras do
processador adormecer, usando apenas a energia necessária para lembrar os uns e
zeros relacionados à operação em curso.
Executivos da Intel dizem que a vantagem da empresa na guerra contra a ARM que
se aproxima é a qualidade da experiência que seus chips oferecem em termos de
acesso à Internet. "Por definição, esses aparelhos precisam navegar na Internet
da forma que ela foi desenvolvida", disse Chandrasekhar. "Isso acontece hoje com
os processadores derivados do X86", mas, acrescentou, acesso homogêneo à
Internet "não acontecerá com o ARM".
Executivos da Intel dizem também que os fabricantes que usam o modelo ARM são
prejudicados igualmente pela falta de um padrão unificado, o que força os
programadores de software a promover mudanças em cada produto que criam.
Os fabricantes que usam o modelo ARM respondem alegando que a Intel exagera a
importância da compatibilidade do X86, e que seus chips oferecerão experiência
de web semelhante à dos produtos Intel mas permitirão duração muito maior de
bateria. De fato, a alegação da Intel de que só os chips X86 oferecem uma
experiência satisfatória de acesso móvel à Internet pode ter sido sabotada no
mês passado quando um dos aliados mais próximos da empresa, a Apple, pareceu ter
indicado que havia optado por projetar uma versão própria do processador ARM
para uso em futuros aparelhos portáteis.
Steve Jobs, presidente-executivo da Apple, disse em entrevista que a fabricante
de bens de consumo eletrônicos havia adquirido a PA Semi, uma pequena empresa de
projeto de chips do Vale do Silício, para ajudá-la a projetar os iPods e iPhones
de próxima geração. O iPhone atual da Intel usa um chip padrão ARM e o consenso
setorial é de que o aparelho oferece a melhor experiência de navegação na web
com aparelhos móveis.
Analistas e executivos setoriais estão divididos quanto à dimensão da ameaça que
a ARM representa para a Intel. Aliados como a Dell não devem desertar a
fabricante de chips. "Estamos impressionados com os planos deles", disse Michael
Dell, presidente-executivo da Dell. Ele afirmou que "as coisas ficarão mais
interessantes com o Moorestown" - a nova geração de chips de baixo consumo de
energia da Intel, que devem chegar ao mercado em 2010.
Outros analistas vêem o Moorestown como prova do desafio que a Intel enfrenta,
porque seus processadores só poderão concorrer com os modelos ARM em termos de
eficiência energética a partir daquele ano - e as empresas produtoras de chips
ARM prometem avançar ainda mais.
Jim McGregor, diretor de pesquisa da In-Stat, que pesquisa semicondutores, disse
que "o Atom ainda consome energia demais. Não será uma solução ideal para
aparelhos portáteis, e os chips ARM serão".
ME
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