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Morador de área petroquímica
tem mais doença na tireoide
O aparecimento de
casos atípicos de tireoidite crônica autoimune no
consultório da endocrinologista Maria Angela
Zaccarelli-Marino, em Santo André, fez a
especialista desconfiar que a incidência da doença
era mais alta na região próxima ao Polo Petroquímico
de Capuava.
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No estudo, 26,9% dos
pacientes moradores da área de risco foram
diagnosticados com a doença
Foto: Getty Images |
Depois de 15 anos investigando o tema, a professora
da Faculdade de Medicina do ABC concluiu que
moradores da área tinham incidência cinco vezes
maior da doença.
O complexo, que fica na divisa entre Santo André,
Mauá e São Paulo, reúne 14 indústrias que fabricam
subprodutos de petróleo. De 1989 a 2004, a
pesquisadora selecionou 6.306 pacientes que buscaram
avaliação endocrinológica em seu consultório. Ela os
dividiu em dois grupos conforme a região de
residência.
O primeiro, com 3.356 pacientes, era proveniente dos
arredores do Polo Petroquímico. Já o segundo, de
2.950 pacientes, vinha de outra área industrial
distante 8,5 km da primeira região, porém sem a
presença de petroquímicas. Ao fim do estudo, 905
pacientes do primeiro grupo (ou 26,9%) foram
diagnosticados com a doença. Já no segundo grupo,
173 (ou 5,1%) tiveram o diagnóstico. A tireoidite
crônica autoimune é a principal causa de
hipotireoidismo.
Os resultados foram publicados em maio na revista
científica Journal of Clinical Immunology. Ao longo
do estudo, a pesquisadora fez notificações sobre a
situação às secretarias municipais de saúde e ao
Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) da
Secretaria Estadual da Saúde.
A pedido do promotor de Meio Ambiente de Santo André
José Luiz Saikali, o CVE fez um estudo próprio para
verificar o problema. O órgão analisou 1.533
voluntários das duas regiões. Enquanto 9,3% do
primeiro grupo tinha tireoidite, apenas 3,9% do
segundo grupo apresentava o problema. Os dados foram
publicados na revista Environmental Research.
Além dos exames que já estavam presentes no estudo
de Maria Angela, o CVE fez testes para dosar o iodo
nesses voluntários. Havia a possibilidade de o
aumento de casos da doença estar ligado a um consumo
maior de iodo. “O CVE constatou que não era o iodo.
Isso me deu uma certa tranquilidade, pois o estudo
foi muito contestado”, diz Maria Angela.
“Ninguém havia falado antes em tireoidite crônica
autoimune provocada pelo ambiente. Sugiro uma nova
denominação: tireoidite química autoimune”, afirma a
pesquisadora, que agora está iniciando um trabalho
para identificar quais seriam os agentes químicos
que desencadeariam a doença.
Para o imunologista Eduardo
Finger, que tem pós-doutorado na área pela Escola de
Medicina de Harvard e é chefe do departamento de
pesquisa do SalomãoZoppi Diagnósticos, ainda é
preciso determinar o que provoca a doença. “É
preciso encontrar o poluente químico que tenha
relação comprovada com a doença.”
Consequências
A tireoidite crônica autoimune só começa a dar
sintomas quando se instala o hipotireoidismo,
diminuição da produção dos hormônios da tireoide. Os
sinais são sonolência, queda de cabelo, pele seca,
batimentos cardíacos mais lentos. Crianças podem
parar de crescer e até desenvolver retardo mental. O
tratamento, porém, é simples e envolve a reposição
diária do hormônio tireoidiano.
A profissional de informática Noemi Lucena Silva, de
21 anos, descobriu a doença aos 9 anos. Ela mora ao
lado de uma das indústrias petroquímicas. “Minha
casa é literalmente ao lado da fábrica.”
Recentemente, a mãe de Noemi também foi
diagnosticada com problemas na tireoide. Procurada
pela reportagem, a Petrobras não comentou as
conclusões do estudo. As informações são do jornal O
Estado de S.Paulo.
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