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Hotéis-butique oferecem hospedagem personalizada a turista descolado
ADRIANA KÜCHLER
da Revista da Folha, em Buenos Aires
Se Buenos Aires deu a volta por cima e voltou a ser a Paris
latino-americana após a grave crise econômica que atingiu o
país no começo dos anos 2000, a recuperação também permitiu
à cidade reinventar suas hospedagens de luxo.
Ok, o magnífico e luxuoso hotel Alvear continua no seu
lugar, assim como os grã-finos Four Seasons e Park Hyatt.
Mas a moda agora para o viajante mais descolado, aquele que
pula o passeio com o guia turístico de megafone, é ficar em
um hotel-butique.
Eles foram pipocando em Buenos Aires e em outras cidades do
país. E, de repente, eram tantos que decidiram formar um
clube. Eis que surgiu, no final do ano passado, o "Best
Boutique Hotels", uma espécie de selo de garantia para quem
ostenta o nome de "butique".
Adriana Küchler/Folha Imagem

Hotel Mine, em Buenos Aires, tem ambiente comum, para
parecer um pedacinho de casa
Os requisitos para participar do clube são oferecer
atendimento personalizado, ter até 30 quartos e investir no
design, na ambientação e na gastronomia.
Já são 36 deles na capital, e mais da metade se concentra em
Palermo, o bairro mais "cool" da cidade, onde há até pouco
tempo sobravam restaurantes e faltavam hotéis. Um dos mais
novos do clubinho, o Legado Mítico, além de ser butique, é
também temático. Cada um de seus poucos 11 quartos é
inspirado em um mito ou personagem argentino.
"La primera dama" é a suíte de luxo dedicada à Evita, a
grande heroína do país. Para ambientar o hóspede com a sua
escolha, uma pintura de Evita e Perón, uma estátua com um
colar de pérolas como o que usava a primeira-dama e livros
sobre ela.
Na mesma linha, há quartos dedicados ao escritor Jorge Luis
Borges, ao revolucionário Che Guevara, ao cantor Carlos
Gardel e até a Mafalda, personagem dos quadrinhos. A
decoração é realmente aprimorada. "Queria que vocês viessem
decorar o meu apartamento", pede a turista Karen, de Nova
York, no livro de visitas do hotel. "Um verdadeiro destino
de luxo para a nossa lua-de-mel", escreve um casal londrino.
Os depoimentos dão uma amostra de quem é o público do hotel,
em sua maioria americanos e europeus, com uma boa
porcentagem de recém-casados.
O espaço comum é, na verdade, uma biblioteca com muitas
poltronas onde os hóspedes podem consultar livros e
enciclopédias sobre a Argentina e seus mitos.
Charme vintage
O pioneiro entre os hotéis-butique de Buenos Aires é o Home,
também em Palermo, que, em 2007, foi eleito pela moderna
revista "Wallpaper" como o "melhor novo hotel do ano".
A indicação não foi à toa: o grande charme do empreendimento
de 19 quartos são justamente os seus papéis de parede. Cada
quarto tem um diferente, importado e de estilo vintage,
assim como os ambientes comuns.
"Nossa ideia é oferecer um luxo simples", diz a argentina
Patricia O'Shea que, junto com o marido, o produtor de
música inglês Tom Rixton, participa de leilões de papéis de
parede para caprichar na ambientação do hotel.
Outra delicadeza do Home é o spa, que tem um providencial
tratamento de "recuperação de jet lag", com massagem para
reativar a circulação e banho de imersão com ervas. E, para
quando o cliente decidir sair "de casa", o Home tem seu
próprio miniguia para os turistas, com as mesmas dicas da
cidade que Patricia e Tom dão aos seus amigos.
Extensão de casa
Quando decidiu deixar a parceria com a Endemol, criadora do
programa "Big Brother", o produtor de TV argentino Marcelo
Kohen sabia exatamente o que queria fazer. E inaugurou, em
fevereiro de 2008, o Mine Hotel, com seus 20 quartos.
"Como turista, eu já gostava de me alojar nesse tipo de
hotel, mais personalizado, há anos. Não gosto das grandes
cadeias, em que você é só mais um número. Onde há muita
formalidade e muitos botões", diz Marcelo. "Prefiro um lugar
que seja como a extensão da minha casa."
Por isso, explica, os funcionários do Mine evitam o "senhor"
e "senhora" e, no máximo no segundo dia, já devem chamar o
hóspede pelo nome, saber sua nacionalidade etc.
E o atendimento é mesmo a característica mais elogiada pela
clientela que sai dali --e posta imediatamente seus
conselhos em sites de viajantes.
Além do esmerado cuidado estético (cada quarto tem objetos
em uma determinada cor e diferentes materiais, como seda e
ratã, na decoração), o paparico pessoal é mesmo o que parece
se destacar.
Diante de reclamações de hóspedes que ficavam nos quartos de
frente sobre ruídos que vinham da rua, Marcelo afirma que
botou vidro duplo nas janelas.
"Nós não temos academia, salão de eventos ou piscina
olímpica, mas, em compensação, quando o visitante volta de
um passeio, o recepcionista pergunta se ele gostou, e o dono
do hotel se senta com ele para conversar."
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